Pura Connection · Cesalina Gracie
Cesalina Gracie, neta de Carlos Gracie, ensina jiu-jitsu só para mulheres
Professora em Los Angeles, ela conta por que fechou a porta para os homens e como treina a voz, a postura e a atenção das alunas.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 15 ago 2022 (1:20:46).
Uma aluna chegou para a Cesalina Gracie e contou que não usa saia. Gosta, faz parte do jeito dela, mas deixou de usar depois de uma situação traumática. É com histórias assim que a neta de Carlos Gracie monta as aulas que dá em Los Angeles, só para meninas e mulheres, e foi sobre esse trabalho que ela falou no Pura Connection.
Antes da conversa, ela deu uma aula no espaço do apresentador. A combinação era uma turma feminina, mas quando chegou havia três homens para uma mulher no tatame. A Cesalina conta que voltou na hora a sensação da infância, quando era sempre a única menina treinando. Ela disse que não era o combinado, conversou e adaptou a aula para todo mundo. Para ela, isso já é jiu-jitsu: falar com firmeza, com respeito, e se ajustar.
“Quase voltou aquela sensação que eu tive quando era criança, sempre a única mulher no tatame.”
Cesalina Gracie, no Pura Connection · 0:04:26
O clique na Inglaterra
A Cesalina conta que, no Brasil, cresceu protegida pela família e nem percebia o quanto o jiu-jitsu estava presente na vida dela. Com 17 anos, se mudou sozinha para a Inglaterra, ainda menor de idade, e começou a passar por situações que nunca tinha vivido. Foi aí que entendeu como as mulheres vivem todo dia e começou a usar o que chama de jiu-jitsu verbal para se posicionar.
Em 2011 abriu a primeira academia em Los Angeles, com o irmão, para homens, mulheres e crianças. Ela diz que muitas mulheres se matriculavam porque ela estava ali, mesmo sem ser professora na época. E que, mesmo sendo uma Gracie, a decisão de virar professora teve de ser dela: o apoio da família vem depois.
Levou anos para ter coragem de montar um espaço só para mulheres, com medo de que não houvesse procura. Na época da entrevista, ela contava quatro anos trabalhando só com meninas e mulheres, com uma psicóloga ajudando a montar a metodologia.
Kyra, a mestra
Foi a prima, Kyra Gracie, quem apresentou a Cesalina ao apresentador. E é a Kyra que ela chama de mestra e maior inspiração no jiu-jitsu, por ter conquistado tudo na competição e depois abraçado a missão de ensinar mulheres.
A Cesalina conta que as duas conversam muito e que, quando confessou estar com medo de abrir a própria academia feminina, ouviu da Kyra que ela também tinha morrido de medo. A resposta surpreendeu: oito vezes campeã mundial, conhecida no esporte inteiro, e mesmo assim com mais medo do que em qualquer luta. A Cesalina diz que a academia da Kyra no Rio é o lugar onde ela mais gosta de treinar, e o apresentador foi além: para ele, é a melhor do Rio de Janeiro.
“Dá medo. Eu fiquei com mais medo do que em qualquer luta que eu já fiz.”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:44:00
Voz, postura e atenção
O método da Cesalina tem três pilares que ela repetiu a conversa toda. O primeiro é a postura: entrar num lugar de peito aberto, olhar o ambiente, ver se tem um grupo alterado ou alguém conhecido, em vez de se esconder no celular. Ela chama isso de postura de campeã e diz que a atenção nasce dela.
O segundo é a voz. Ela explica que, numa situação de risco, o corpo pode travar sem querer, e o que quebra essa paralisia é a voz treinada. Contou o caso de uma aluna que sofreu abuso durante uma massagem: tentava dizer não, e a voz não saía. Por isso as alunas treinam falar alto e firme no tatame, onde é seguro, até virar reflexo.
“O que quebra essa paralisia é a voz.”
Cesalina Gracie, no Pura Connection · 0:49:45
O treino de voz também vale para o lado bom. Ela faz um exercício que chama de corredor do elogio: uma aluna passa e as outras dizem coisas como você é forte, você é capaz. A dificuldade, diz ela, é aprender a receber o elogio sem se diminuir.
Ela também separa duas coisas que costumam ir no mesmo balde: autoconfiança e autoestima. Segundo a Cesalina, dá para ser muito confiante no trabalho e ainda assim achar que não tem nada de especial. Quem tem só a primeira, diz ela, às vezes vira alguém que pisa nos outros. Quem tem as duas fica generoso. Por isso ela trabalha muito a autoestima e a ligação entre as alunas, para quebrar a ideia de que mulher precisa competir com mulher.
O terceiro pilar é lidar com a adrenalina. A Cesalina diz que o problema é o pânico que vem com ela, e que trabalha exercícios de respiração, segurando o ar, para a aluna se acostumar com o coração disparado e conseguir decidir mesmo assim.
Do tatame para a empresa
A Cesalina também leva o jiu-jitsu para empresas, com um programa feito sob medida para cada uma, e começou a levar para faculdades nos Estados Unidos. Ela contou o caso de uma diretora de cinema que, no primeiro filme, era pressionada por dois veteranos da equipe. Segundo a Cesalina, a aluna disse que teria pedido demissão se não fosse o jiu-jitsu.
Outro exercício que ela leva para as empresas nasceu da queixa de uma aluna: mulher interrompida em reunião. A Cesalina ensina a dizer, com calma e voz firme, algo como deixa eu terminar o meu pensamento e depois você fala. Na visão dela, resolver ali na hora evita que a coisa vire problema de RH meses depois.
Ela faz questão de dizer que o trabalho só com mulheres é uma resposta a uma necessidade de agora e que o movimento é feito junto com os homens. Pede que eles se posicionem quando um amigo conta vantagem de um comportamento abusivo numa roda de conversa, em vez de rir sem graça.
O que fica da entrevista é uma Gracie que trocou o foco da técnica pelo que vem antes dela: postura, voz, atenção e controle emocional. Na visão dela, quanto mais ferramentas a aluna tem, menos vezes vai precisar usar o jiu-jitsu de fato.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.