Pular para o conteúdo

Pura Connection · Chico Salgado

Chico Salgado conta por que escolheu Bolão em vez de Murilo Bustamante

O faixa-preta conhecido como personal das estrelas lembra a escola de Bolão e Murilo, a luta que ganhou no Havaí e como levou o jiu-jitsu para o set de Tropa de Elite.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 8 mai 2023 (1:19:51).

Ainda adolescente, Chico Salgado teve que escolher entre dois mestres. De um lado, Murilo Bustamante, com quem tinha começado a treinar e que estava indo para o MMA. Do outro, Bolão, que dava aula para ele de manhã e de tarde e estava com ele todo dia. Ele ficou com o Bolão e foi com ele até a faixa-preta. No Pura Connection, contou que foi uma decisão muito triste para um moleque.

Hoje o Chico é conhecido como o personal das estrelas, mas logo no começo da conversa ele avisa que a praia dele é o jiu-jitsu. Assisti à entrevista e gostei de como ele liga tudo o que faz ao tatame: a disciplina, o jeito de ler o aluno e até a coragem de aceitar luta de última hora.

“Hoje em dia eu dou aula por causa do jiu-jitsu. Eu comecei com nove anos de idade e ele me deu toda a minha base.”

Chico Salgado, no Pura Connection · 0:03:14

Na garupa da bicicleta, rumo ao tatame

O começo foi com um amigo, o Christian, uns sete anos mais velho e hoje morando no Havaí. Segundo o Chico, ele era um moleque que vivia jogando bola e aprontando na rua quando o Christian falou que ele precisava fazer jiu-jitsu. Botou o Chico na garupa da bicicleta e levou para treinar com um professor chamado Naninho. Ele tinha uns nove anos.

Um ano depois, o Christian foi treinar com o Murilo, e o Chico foi atrás. Pouco depois, Bolão e Murilo se juntaram, e o Chico lembra daquela academia como uma super escola, cheia de gente dura. Com 13 ou 14 anos, ele treinava com os dois.

A escolha entre Bolão e Murilo

Aí veio a separação. O Murilo foi se dedicando ao MMA e ao UFC, e o Bolão começou a treinar o Chico de perto, com aula de manhã e de tarde, puxando para os campeonatos. Quando os dois seguiram caminhos diferentes, o Chico ficou dividido. Segundo ele, foram dois ou três anos só com o Bolão enquanto o Murilo estava no MMA.

Ele contou que foi falar com o Murilo para dizer que ia ficar com o Bolão. O Murilo ficou chateado, mas entendeu, porque o Chico já tinha aula particular com o outro professor. Com o Bolão, ele foi até a faixa-preta e depois passou oito meses dando aula com ele em Filadélfia, nos Estados Unidos, onde o Bolão abriu uma escola. Quando o Bolão vendeu a academia, o Chico voltou para o Murilo.

“Eu tive que escolher. Falei: Murilo, vou ficar aqui com o Bolão. O cara ficou um pouco chateado, mas entendeu.”

Chico Salgado, no Pura Connection · 0:13:05

O Chico lembra que a rixa entre academias era coisa séria na época, quase torcida organizada, com Gracie Barra de um lado e Alliance do outro. Hoje, segundo ele, isso acabou.

O treino que ensinou a perder

Uma das histórias que mais me marcou foi a de um treino na faixa-roxa. O Chico rolou com um faixa-preta que ia lutar no fim de semana e conseguiu passar a guarda dele várias vezes. Saiu do treino com o ego lá em cima. Só depois entendeu que o faixa-preta estava treinando de propósito o lado ruim dele, se colocando nas posições em que era mais fraco.

Ele diz que levou tempo para aprender isso. Quando é jovem, o atleta quer treinar só o que faz bem e ganhar sempre. O treino, na visão dele, serve para perder e descobrir onde está o buraco.

“Eu entendi depois: o treino é para perder, é para eu ver o meu lado ruim.”

Chico Salgado, no Pura Connection · 0:22:38

O Murilo aparece de novo numa outra lembrança, de uns cinco ou seis anos antes da gravação. O Chico se preparava para uma luta e o Murilo, que nem estava treinando de kimono, apareceu no camp. Os primeiros dez minutos foram bem, com o Chico pulando e cheio de fôlego. Depois disso, conta ele, foi só ladeira abaixo, e os dois rolaram cerca de uma hora. Numa seletiva do ADCC, foi o Murilo que, no canto, olhou para ele e mandou ir para dentro. O Chico perdeu na prorrogação, por vantagem, para o atleta que acabou ganhando a seletiva.

Joelho, novela e a luta no Havaí

O Chico diz que a vida inteira falou que ia ser lutador de MMA. Chegou a ter uma luta marcada, mas o joelho saiu do lugar e ele ficou cinco meses parado. Foi nesse meio do caminho que o ator Bruno Gagliasso, amigo dele, pediu ajuda para perder 10 quilos em um mês para uma novela. Segundo o Chico, ele perdeu 12, e foi assim que ele entrou no meio artístico.

No Havaí, a convite de uma aluna, ele deu aulas numa das ilhas e ficou hospedado na casa de um morador influente. Lá apareceu um amigo de Minotauro com uma proposta: um atleta tinha se machucado e sobrava uma vaga numa luta casada no sábado. O Chico, que nem estava treinando direito, topou na hora. O adversário tinha cerca de 100 quilos e, segundo ele, era faixa-preta de judô. O Chico ganhou e voltou com um cinturão.

Tropa de Elite, Rickson e a lição do tatame

O pai do Chico é produtor de cinema. Num almoço com o diretor José Padilha, antes do primeiro Tropa de Elite, o Chico acabou convidado para o elenco de apoio. Ele levou amigos da academia, e sete entraram no filme. Segundo ele, o grupo passou um mês e meio treinando com policiais do BOPE. No segundo filme, cuidou da preparação física do protagonista. O Chico conta que o Padilha era muito amigo de Rickson Gracie e que foi o Rickson quem fez as cenas de luta com o ator, enquanto ele assistia de longe.

Ele também contou que deu aula para a equipe de segurança de um astro de Hollywood que filmava no Rio. Quando apertava os gringos grandes, diz, o olho deles arregalava e eles queriam de novo. Para o Chico, essa é a força do jiu-jitsu: dá para controlar alguém sem machucar.

No fim, ele resume a filosofia que leva para os alunos famosos ou não. Ninguém entra no tatame como filho de alguém ou dono de carro importado. Lá dentro, todo mundo é igual. Saí da conversa pensando que o personal das estrelas nunca deixou de ser o moleque que ia de bicicleta para o treino.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.