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Pura Connection · Cameron Shayne, Melayne Shayne

Criador do Budokon conta como aprendeu jiu-jitsu com Rickson e Ryan Gracie

Cameron Shayne fala da faixa-azul dada por Rickson, da escola selvagem de Ryan e do que aprendeu com Xande Ribeiro sobre movimento.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 24 abr 2023 (1:21:54).

O centro da vida de Cameron Shayne é a arte marcial. Ele diz que tudo o que faz, da ioga à mobilidade, gira em volta disso. No primeiro episódio em inglês do Pura Connection, o criador do Budokon contou que começou no jiu-jitsu quase por acaso, dentro do círculo de Rickson Gracie, e que depois passou pela escola bem mais bruta de Ryan Gracie.

“O centro da minha gravidade é a arte marcial. Tudo gira em volta disso.”

Cameron Shayne, no Pura Connection · 0:11:14

Assisti à conversa, que também teve a participação da mulher dele, Melayne Shayne, e o que mais me prendeu foi o jeito como ele junta as peças: jiu-jitsu, ioga, padrões de movimento e filosofia. Para quem treina, tem muita coisa prática ali, principalmente sobre aquecimento e lesão.

Do caratê ao tatame do Rickson

O Cameron contou que começou aos 12 anos no taekwondo olímpico, onde chegou à faixa-preta ainda novo. Depois foi para um caratê tradicional japonês, o Yoshukai, e chegou ao terceiro grau da faixa-preta. Era nessa escola, em Pacific Palisades, na Califórnia, que ele dava aula quando viu, à noite, uns caras montarem tatame no chão de madeira e começarem a lutar agarrados de kimono.

Ele achou aquilo estranho. Na cabeça de caratê dele, se o cara agarra a sua perna, você abaixa e soca. Pediu para um desses rapazes, um faixa-azul, mostrar como era. Segundo o Cameron, apanhou por uma hora seguida.

“Ele era só um faixa-azul, mas me finalizou e finalizou e finalizou.”

Cameron Shayne, no Pura Connection · 0:04:30

Foi o que bastou. Ele começou a fazer aulas particulares com o professor desse rapaz, um instrutor chamado Tiago, muito próximo da família do Rickson. Mais tarde, contou, o Tiago passou a treinar com o Ryan, e o Cameron foi junto. Quando esse grupo se desfez, ele entrou oficialmente na academia do Rickson e foi lá que recebeu a faixa-azul.

Rickson espiritual, Ryan guerreiro

O contraste entre os dois mestres aparece o tempo todo na fala dele. Segundo o Cameron, o Rickson era mais aberto ao lado espiritual, filosófico, esotérico. O Ryan era outra coisa: guerra e selvageria. Ele disse que o Ryan gostava dele porque, vindo das artes tradicionais, ele chegava dizendo sim, senhor, e fazendo reverência, coisa com que o Ryan não estava acostumado.

Sobre Renzo Gracie, ele disse que o Renzo foi ficando mais filosófico com a maturidade e que os dois ainda se seguem nas redes. E contou uma coincidência: anos depois, já morando em Miami, o primeiro faixa-preta que encontrou por lá tinha sido o primeiro faixa-preta formado pelo Ryan. Virou professor dele.

“O Rickson era mais disposto a ser espiritual. O Ryan era sobre a guerra e a selvageria da guerra.”

Cameron Shayne, no Pura Connection · 0:09:39

O que Xande Ribeiro ensinou sobre movimento

A parte mais interessante, para mim, é quando ele fala de Xande Ribeiro. O Cameron contou que o Xande desconfiou dele no começo, afinal, quem era aquele gringo ensinando movimento para lutador? Depois de observar as aulas, o Xande disse que ele estava criando uma nova linguagem para ligar os padrões de movimento ao jiu-jitsu e resolveu ajudar, apontando onde os exercícios não batiam com a luta.

Segundo o Cameron, é por causa do Xande que a mobilidade do Budokon é o que é hoje. Ele descreveu a guarda do Xande como quase impossível de passar: sempre tem uma parte do corpo livre, e quando você rompe um enquadramento ele já mudou o quadril de lugar.

Ele também comparou o Xande com Rafael Lovato Jr.. Para o Cameron, o Xande é pura espontaneidade, um fogo que queimou forte e rendeu vários títulos mundiais. O Rafael é o homem da fórmula, calculado, e foi essa fórmula que, segundo ele, o levou ao cinturão do Bellator vencendo Gegard Mousasi e o mantém perigoso aos 42 anos.

Na mesma linha, ele elogiou o estilo de John Danaher no córner de Gordon Ryan: quase não fala nada, só avisa quanto tempo falta. Para o Cameron, o atleta já treinou a fórmula e, na hora da luta, precisa ser espontâneo.

Chega de polichinelo no aquecimento

A bandeira dele nas academias é o aquecimento. Ele disse que entra numa escola e pergunta por que ainda estão fazendo polichinelo, se ninguém faz polichinelo no chão durante a luta. Com 15 minutos para aquecer, a ideia é treinar os padrões de movimento que vão aparecer no rola.

O argumento é de lesão. Segundo ele, quase ninguém machuca o bíceps ou a coxa no jiu-jitsu. O que machuca são as articulações: ombro, cotovelo, punho, joelho, lombar, quadril. E a lesão vem do erro de posição, quando o corpo compensa com força e velocidade. Ele lembrou que o Rickson já fazia esse trabalho de movimento e que Orlando Cani ensinava isso, mas que essa conversa se perdeu com os anos.

“Erro de posição é quando você se machuca.”

Cameron Shayne, no Pura Connection · 0:26:03

Mulheres no tatame e o que fica

A Melayne contou que veio do balé, com uma professora russa muito rígida, e que só conheceu as artes marciais depois dos 30, pelo Budokon. Segundo ela, o primeiro rola mostrou uma parte dela que nunca tinha se permitido sentir. Hoje ela comanda um projeto só para mulheres em que todas treinam jiu-jitsu e defesa pessoal, e disse que saber se defender mudou a confiança dela por completo.

O Cameron fechou criticando o lado show das lutas, citando Conor McGregor como exemplo do que não gosta, e elogiando o silêncio respeitoso do público no Japão. No fim, a ideia dele é simples: jiu-jitsu é um exercício de pensar o tempo todo, com resposta imediata do parceiro. Para quem acha que ioga e jiu-jitsu não conversam, a história dele, que começou apanhando de um faixa-azul numa escola de caratê e terminou com a faixa dada pelo Rickson, é um bom argumento em contrário.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.