Pura Connection · Draculino
Draculino conta como Carlinhos Gracie montou a CBJJ na sala de casa
Da Gracie Barra dos anos 80 a 33 escolas no Texas, o faixa-preta lembra a pesagem na sala do mestre, a rixa com a luta livre e o aluno que ganhou o apelido de Preguiça.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 18 jul 2022 (1:27:00).
Por uns dez anos, a sala de estar de uma casa de dois quartos foi o escritório do jiu-jitsu organizado no Brasil. Quem conta é Vinícius Draculino, membro fundador da CBJJ: era ali, na casa de Carlinhos Gracie, que se faziam as inscrições e até a pesagem, com fila de atleta passando pela sala enquanto a família tentava viver a vida.
“Eu vivenciei o quanto ele acreditou quando ninguém acreditava.”
Draculino, no Pura Connection · 0:19:35
Assisti à conversa dele no Pura Connection e fiquei com a sensação de ouvir alguém que viu o jiu-jitsu atravessar de uma ponta à outra. O Draculino começou no Rio dos tatames de palha, levou a Gracie Barra para Belo Horizonte e hoje, segundo ele, é diretor regional de 33 escolas da Gracie Barra no Texas.
A casa que virou federação
O Draculino se lembra da época, por volta de 1993 e 1994, em que ajudou a fundar a Confederação. Segundo ele, o Carlinhos morava com a esposa e os dois filhos numa casa de dois quartos. O escritório era a sala. Atleta desconhecido entrava para se pesar para o Mundial, a filha do mestre não conseguia nem sair do banho de toalha, e ninguém tinha privacidade durante horas.
Ele conta que ouviu muita gente, inclusive de dentro da família e de outras vertentes, dizer que o Carlinhos estava maluco quando falou em fazer campeonato nos Estados Unidos com mais de mil atletas. Hoje, lembra o Draculino, a organização faz seis campeonatos num mesmo fim de semana, em vários cantos do mundo.
Para ele, quem critica a federação dizendo que é só dinheiro não sabe o que foi feito lá atrás. E, quando fala de liderança, é do Carlinhos que ele se lembra: o exemplo que ele viu fazer, mais do que o que ouviu falar.
Tatame de palha e cheiro de churrasco
O Draculino chegou ao jiu-jitsu pelo surf. Nascido e criado na Barra, conta que foi pegando onda que conheceu a família Gracie, Renzo, Ralph, Ryan e aquela turma. Segundo ele, dezenas daquela galera hoje vivem só de dar aula de jiu-jitsu.
Os campeonatos da época eram outra coisa. Ele lembra de competição no Belo Tênis Clube, no subúrbio do Rio, com tatame de palha verde que abria toda hora, chuva, bancada e uma barraca de churrasquinho. A fumaça do carvão ia direto para a área de luta e ele terminou o dia com o kimono defumado. Chegava às 8 da manhã e saía às 4 da tarde, sem saber contra quem ia lutar.
Não havia dinheiro nem fama. O Draculino guarda até hoje uma notinha de jornal de esporte de 1988 com o nome dele entre os destaques da faixa-azul. Era o máximo de imprensa que um lutador de jiu-jitsu conseguia.
Aula para a senhora de 45 anos
A parte da conversa que mais me pegou como professor foi quando ele explica por que, em Belo Horizonte, sempre separou aula de iniciante e de avançado. Na época, contou, o normal era jogar todo mundo no mesmo caldeirão e o aluno que se virasse. Ele se colocou no lugar de uma senhora de 45 anos que resolve começar e pensou que, jogada entre os tubarões, ela não ia durar.
“Jiu-jitsu é para todos, mas nem todos são para o jiu-jitsu.”
Draculino, no Pura Connection · 0:32:08
Ele dá um exemplo do Texas: uma aluna que chegou com 41 anos e três filhos e hoje, com 53, é faixa-preta, treina todo dia e diz que o jiu-jitsu é a terapia dela. Na academia dele, segundo o Draculino, há mais meninas do que meninos entre as crianças e famílias de cinco pessoas no tatame.
Foi também em Belo Horizonte que ele formou gente como Rômulo Barral, que trabalhou com ele como instrutor por muitos anos e, nas palavras dele, virou campeão mundial na faixa-preta, empresário e pai de família. E foi ele quem deu o apelido a Felipe Preguiça. O garoto chegou fora de forma, empurrado pela família, sempre atrasado. Ganhou o apelido, e depois que chegou à faixa-azul, conta o Draculino, alguma coisa clicou.
A rixa com a luta livre
O Draculino também viveu a rivalidade com a luta livre no começo dos anos 90. Ele lembra do medo de enfrentar os caras do outro lado e de que ninguém podia mostrar fraqueza. Hoje, diz, enxerga os dois times como lados da mesma moeda: um tinha a garra, o outro a valentia, e os dois evoluíram muito por causa disso.
Ele guarda um respeito especial por Hugo Duarte, que, na opinião dele, foi o único com coragem de enfrentar Rickson na época em que o Rickson era tratado como lenda. O Draculino conta que depois ficou amigo do Hugo, que chegou a lhe dar aula particular mostrando posições. Ele também chama Eugênio Tadeu de gênio e supra-sumo da luta livre.
“Ele foi o cara que teve o coração e a coragem de enfrentá-lo. Ninguém pode tirar isso dele.”
Draculino, no Pura Connection · 1:18:55
Do Rio ao Texas, com nove cirurgias
Antes de ir embora, o Draculino se formou em direito e passou num concurso público, mas o resultado saiu quando ele já estava em Belo Horizonte. Segundo ele, o pai foi quem disse que o direito não combinava com o filho. Ele caiu de cabeça no jiu-jitsu.
Em janeiro de 2008 ele se mudou para o Texas. Conta que tinha vida boa em BH, mas se sentiu limitado e seguiu a visão do Carlinhos. Escolheu o Texas no lugar da Califórnia e diz que a academia explodiu rápido. Hoje tem academia no Texas, em BH e uma sociedade em Uberlândia, e está tentando sair um pouco das aulas do dia a dia para cuidar do negócio.
Ele foi competidor de alto nível e lutou vale-tudo. Botou o corpo, nas palavras dele, em situações extremas. São nove cirurgias. Mesmo assim, fala do jiu-jitsu hoje como paz de espírito. Saí da conversa com a frase dele na cabeça:
“Eu vou estar de kimono até o dia que Deus me levar.”
Draculino, no Pura Connection · 1:12:01
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.