Pura Connection · Gilbert Burns
Gilbert Durinho conta como trocou o jiu-jitsu pelo MMA dias após o Mundial
Do angu em casa em Niterói ao UFC, o campeão mundial de 2011 fala da faculdade que largou, do encontro com Vitor Belfort e da visualização antes das lutas.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 13 fev 2023 (1:47:14).
No domingo, Gilbert Durinho foi campeão mundial de jiu-jitsu faixa-preta em Long Beach, na Califórnia. Na quarta-feira conheceu Vitor Belfort. No sábado seguinte, já estava em Las Vegas treinando MMA com lutadores do UFC e do Bellator. Foi assim, segundo ele, que em 2011 fechou um capítulo e abriu outro.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi como o Durinho conta tudo sem drama. Luz cortada em casa, duas semanas comendo angu, faculdade trancada, kitnet dividida com mais três: ele fala disso como quem descreve um treino puxado. E diz que foi exatamente isso que o preparou para o caos de um octógono.
O moleque duro que ninguém apostava
O Durinho conta que o pai o colocou no jiu-jitsu por causa de uma bronquite asmática. Começou na Oriente, em Niterói, associada à Nova União, com o professor Rafael Barros, o Fofinho, que o graduou da faixa-azul até a preta. Segundo ele, no começo era ruim de jiu-jitsu mesmo. O irmão mais novo era o habilidoso; ele era só raça, gás e força.
O primeiro clique veio aos 16 anos, assistindo às finais de um Mundial. Ele conta que ali decidiu que, se desse tudo de si, poderia ganhar. Parou de ir de ônibus para a escola e passou a ir de bicicleta só para melhorar o gás. Lutava todos os campeonatos que apareciam, no peso e no absoluto, sábado e domingo.
“Não sei o que aconteceu, que deu um clique. Eu falei: meu irmão, quero fazer essa parada.”
Gilbert Burns, no Pura Connection · 0:18:14
A casa era simples. Segundo o Durinho, o pai era estofador e, quando faltava serviço, a luz era cortada e a família ficava cinco ou seis dias no escuro, no calor, com a janela cheia de mosquito. Houve uma fase de duas semanas em que só tinha angu: com canela de manhã, com sal no almoço. Ele diz que nunca passou fome e que a mãe sempre dizia para orar, que ia melhorar. Veio daí, conta, o hábito de rezar que carrega até hoje.
A aposta em São Paulo
Faixa-roxa, ganhou quase tudo em 2005, incluindo a Copa do Mundo, e parou na semifinal do Mundial. Na marrom, perdeu finais de Mundial. Nessa época tinha um patrocinador, o seu José Garcia, dono de uma empresa de material hospitalar, que pagava os campeonatos, as passagens, a faculdade de educação física e ainda assinou a carteira dele só para ele poder treinar, com plano de saúde e INSS.
Aí veio o segundo clique. O Durinho conta que, recém-graduado faixa-preta, perdeu uma luta dura, voltou para a aula na segunda-feira e se perguntou o que estava fazendo ali. O treino na Oriente tinha esfriado, porque o Fofinho estava estudando para concurso. O Ramon Lemos, também de Niterói, treinava em São Paulo três vezes por dia. Em 2008 ele trancou a faculdade, largou os apoios que tinha e foi.
O pai, conta ele, ficou furioso. Em São Paulo morou com o Ramon, depois numa kitnet com mais três atletas, entre eles Bruno Frazatto, dividindo 180 reais de aluguel. Fez bico de segurança nos fins de semana. Várias vezes os amigos pagaram a parte dele. Um dia, com bronquite, ligou para a mãe para pedir dinheiro para um nebulizador, e ouviu que não tinha. Foi aí, diz ele, que entendeu que precisava mudar o futuro dos pais.
“Em 2008 foi sufoco, de pensar em desistir. 2009 já aliviou, e 2010 foi o melhor ano.”
Gilbert Burns, no Pura Connection · 0:35:41
O título de 2011
Em 2009 veio o vice-campeonato mundial e, com ele, patrocínio e seminários. Em 2010, segundo o Durinho, ele perdeu a final para Michael Langhi, e mais tarde ouviu de um árbitro que aquela luta tinha sido usada numa prova de arbitragem, com a resposta de que ele tinha vencido.
Em 2011, conta ele, passou por Lucas Lepri nas quartas, esperava Leandro Lo ou Celsinho na semifinal e, na final, enfrentou Kron Gracie, que tinha vencido o Michael Langhi. Ganhou o título na Pirâmide de Long Beach. Depois ele comenta que o nome estava forte no MMA justamente por ter vencido o filho do Rickson.
Vitor Belfort e o recomeço do zero
Na noite do título, conta o Durinho, ele voltou para o hotel e bateu a dúvida: dar aula, abrir academia, tentar ganhar mais vezes? Na quarta, foi fazer fotos para um patrocinador, e o Vitor estava lá. Os dois treinaram quase duas horas trocando posição. No fim, segundo ele, o Vitor propôs: precisava de alguém para afiar o jiu-jitsu dele e podia ajudar o Durinho no MMA. Quem organizou tudo foi o Pedro, primo do Vitor, que virou empresário dele por muito tempo.
O primeiro dia em Las Vegas foi de nariz sangrando. O Durinho conta que tinha uns dez lutadores de alto nível no treino, e que até conseguir derrubar ele apanhava. No chão, os caras não viam nada. Quase no mesmo mês fez a primeira luta amadora, trabalhou no córner do Vitor e depois foi técnico com ele no TUF Brasil.
“Muita coisa que eu faço hoje aprendi com o Vitor.”
Gilbert Burns, no Pura Connection · 0:06:16
Ele atribui ao Vitor a fisioterapia, a alimentação, a preparação física e o hábito de chegar cedo. Segundo o Durinho, o jiu-jitsu esportivo, cheio de jogo de lapela e meia-guarda, obriga o atleta a tirar vícios quando vai para o MMA. No caso dele, ajudou gostar de queda e de jogar por cima.
Visualização, dieta e teste antidoping
Em 2017, depois de uma derrota em Brasília com corte de peso horrível, o técnico Daniel Evangelista o levou à psicóloga do esporte Luciana Castelo Branco. Com ela, conta o Durinho, aprendeu a organizar a visualização que já fazia intuitivamente no jiu-jitsu. Hoje, quatro semanas antes de cada luta, ele visualiza o dia inteiro, do café da manhã à entrada no octógono com a música do adversário tocando, umas 30 vezes.
O nutricionista Marcelo Ferro, segundo ele, tirou o açúcar, mudou o sono, cortou comida crua à noite e o fez subir de categoria depois de um último corte para 70 quilos. O Durinho diz ter 52 testes antidoping limpos e se orgulha de ter sido campeão mundial de jiu-jitsu sem tomar nada.
“Eu posso falar que sou campeão mundial limpo.”
Gilbert Burns, no Pura Connection · 1:09:41
O mesmo moleque de Niterói
No fim da conversa, o Durinho diz que ainda é o garoto que largou tudo para ser campeão mundial, agora atrás do cinturão do UFC. Conta que visitou um hospital de câncer infantil em Orlando e saiu de lá sem direito de reclamar de nada. É a mesma cabeça do menino que comia angu com canela e não parava de brincar: olhar o problema e procurar a saída.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.