Pura Connection · Kyra Gracie
Kyra Gracie conta que os tios a mandaram largar o jiu-jitsu aos 15 anos
A campeã fala do machismo dentro da família Gracie, do assédio nos tatames e de como montou uma academia com mais de 550 alunos.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 15 nov 2021 (1:10:34).
Aos 15 anos, faixa-azul e voltando de um Pan-Americano disputado fora do Brasil, Kyra Gracie ouviu dos tios que era hora de parar. Segundo ela, a mensagem foi direta: jiu-jitsu não era coisa de mulher, e a família cuidaria dela. Kyra não parou. Virou faixa-preta, campeã mundial várias vezes, apresentadora de TV e dona de uma academia no Rio com mais de 550 alunos.
Assisti à conversa dela no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a franqueza. Kyra fala da família com carinho, mas sem esconder nada: o machismo dentro de casa, o ambiente hostil que as mulheres encontravam nos tatames e o assédio que, segundo ela, era tratado como coisa normal.
“Eles falaram: não quero mais você no jiu-jitsu, já tá bom, porque isso não é para mulher.”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:24:19
Na casa dos Gracie, só o campeão tinha voz
Kyra cresceu na mesma casa que os tios Renzo, Ralph e Ryan, cercada de amigos e alunos deles. Ela conta que era briga o tempo inteiro e que a conversa era sempre de homem. Aprendeu cedo a sair pela tangente quando o papo pesava.
Foi ali que ela entendeu uma regra que ninguém escrevia. Segundo Kyra, dentro de casa só era respeitado quem ia para a luta e ganhava. Se alguém dava opinião, logo vinha a pergunta sobre o que aquela pessoa já tinha ganho. Até no sofá, brinca ela, o melhor lugar era do mais graduado.
“Eu percebi que dentro da minha casa só era respeitado quem era campeão.”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:17:33
Ela conta que a família queria filhos homens. Quando alguém esperava uma menina, virava motivo de piada. Kyra faz questão de dizer que os tios sempre a trataram muito bem, levavam para a escola, para a praia, cuidavam dela. O problema, segundo ela, é que as mulheres da família nunca foram incentivadas a ir longe, em nenhuma área.
A pressão para ser campeã, conta Kyra, nunca veio de fora. Foi ela que quis. Aos 15 anos nadava às seis da manhã, tomava banho na academia de natação e seguia para a escola, porque achava que precisava fazer mais que as adversárias.
A proibição e a virada
Kyra começou a treinar com 10 ou 11 anos e logo passou a competir. Quando os tios perceberam que ela estava levando a sério, veio a proibição. Por acaso, na mesma época, os três saíram de casa: segundo ela, Ryan foi para São Paulo, Renzo para Nova York e Ralph para os Estados Unidos. Ela ficou livre, e a mãe a incentivou a continuar numa academia ao lado de casa.
A mãe, aliás, tinha passado pela mesma coisa. Kyra conta que ela treinava, tinha muita habilidade e parou porque um dia era a única mulher na academia e um tio chegou dizendo que aquele era o último treino dela, porque aquele ambiente não era para ela.
A virada veio quando os tios viram que a sobrinha seguia firme. Segundo Kyra, eles mudaram a chavinha, passaram a dar aula e a polir a técnica dela. O primeiro emprego, conta, foi o Renzo quem deu, em Nova York, quando ela era faixa-marrom.
O Mundial que ensinou a perder
O primeiro Mundial de Kyra foi em 2004, e ela lutou no dia da faixa-azul, longe do dia principal. Segundo ela, só no ano seguinte conseguiram levar a luta dela para o tatame principal. Não havia premiação para mulheres, pouca visibilidade e quase nenhum patrocinador.
Ela também fala de uma derrota que mudou sua cabeça. Kyra conta que era capa de revista, tinha foto espalhada pelo ginásio e era a única mulher lutando no tatame principal da faixa-preta. Perdeu a final, tirou o quimono, jogou no chão e discutiu com o juiz. Depois, parou para pensar se era aquela a imagem que queria levar para a vida.
Na adolescência, admite, chegou a se achar invencível e a faltar treino para ir a festa. Aprendeu a controlar o ego, e hoje diz que reconhece na própria empresa quem começa a dar problema pelo ego inflado.
O avô Robson deixou uma frase que ela só entendeu anos depois. Segundo Kyra, quando ela ainda era faixa-laranja ou azul, ele disse que dá para perceber a personalidade de qualquer pessoa num treino de jiu-jitsu. Como professora, ela diz que hoje enxerga isso o tempo todo.
Assédio no tatame
A parte mais dura da conversa é sobre assédio. Kyra conta que o ambiente dos tatames era hostil para mulheres: falta de higiene, quimono que ninguém lavava, piada de mau gosto e apelido pejorativo. Mulher que chegava para treinar, segundo ela, era vista como alguém que queria sair com os lutadores.
“Eu já presenciei diversas situações dentro do tatame que eram naturais para a comunidade.”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:30:32
Ela descreve professores dando em cima de várias alunas e alunos se aproveitando do treino, tudo visto como normal. Conta também que recebeu propostas de patrocínio que, na verdade, tinham segundas intenções. Para Kyra, quando o professor tem carta branca para isso, o resultado é uma bola de neve: a mulher não é respeitada, a família não frequenta e a academia perde até as crianças, porque muitas vezes é a mãe quem leva.
Ela lembra ainda do primeiro seminário que deu, fora do Brasil. Apareceram duas pessoas. Segundo Kyra, ninguém queria aprender com uma mulher, e aquilo doeu como uma facada.
Da TV à Gracie Kore
Quando se aposentou das competições, Kyra conta que tinha uma proposta boa do UFC para fazer MMA, a chance de abrir academia fora do Brasil e um convite para teste no SporTV, que veio do Flávio Canto. Ela sempre foi tímida diante da câmera, e o primeiro teste, segundo ela, foi horrível.
“Eu sempre fui muito tímida para falar na câmera.”
Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:39:55
Em vez de desistir, passou um ano indo ao canal toda semana para assistir aos programas, fez curso de câmera, oratória, apresentação e fonoaudiologia. Um dia faltou convidado para um programa ao vivo, ela foi chamada, e no dia seguinte estava contratada. Ficou sete anos no SporTV.
Mas sentia falta de dar aula. Depois de dois anos pesquisando lugar e montando uma metodologia, abriu a Gracie Kore no Rio, com o marido como sócio. Kyra conta que outras pessoas só topavam entrar no negócio se houvesse um homem faixa-preta à frente. Em três anos, com uma pandemia no meio e cinco meses sem poder dar aula, a academia passou de 550 alunos, 70% deles crianças.
A metodologia infantil, diz ela, nasceu da experiência de mãe. O jiu-jitsu que ela conheceu era excludente, só o casca-grossa ficava. Na Gracie Kore o foco é defesa pessoal, as aulas são separadas por idade e por nível, e uma psicóloga acompanha as aulas. As crianças ganham até um grau na faixa por boa alimentação.
O que fica da conversa
Kyra passou a vida provando que a família estava errada sobre as mulheres, e fala disso sem rancor. O que ela quer agora é outra coisa: que qualquer pessoa entre numa academia de jiu-jitsu e se sinta respeitada. Pelo que contou, começou pela dela.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.