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Podcast Nem Me Viu · Leo Elias

Leo Elias conta como virou técnico de campeões de muay thai na Tailândia

O gaúcho chegou a Bangkok com 600 dólares, dormiu na academia e hoje é respeitado pelos próprios tailandeses. E ainda treina jiu-jitsu todo dia como aluno.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 18 dez 2023 (2:19:17).

Leo Elias desembarcou em Bangkok com 21 anos, sem falar uma palavra de inglês ou de tailandês e com 600 dólares no bolso para ficar seis meses. Catorze anos depois, é técnico de mais de 30 cinturões mundiais dentro dos estádios da Tailândia, e lutadores tailandeses famosos procuram o gringo para treinar. A história inteira ele contou ao Fabrício Werdum no Nem Me Viu.

“Eu cheguei lá com 600 dólares para ficar seis meses.”

Leo Elias, no Podcast Nem Me Viu · 0:19:43

Confesso que eu não conhecia a trajetória dele em detalhes. Saí do episódio com vontade de contar para todo mundo que treina, porque é uma aula de disciplina e de como se adaptar a um lugar que não é seu.

Do Partenon a Bangkok

O Leo é de Porto Alegre, do bairro Partenon, e começou no muay thai numa academia de bairro, dessas com musculação e uma salinha de luta. Com 15 anos foi morar com o irmão em São Paulo e lá conheceu o treinador da vida inteira no Brasil, Francisco Veras. Ele contou que começou a treinar com 13, fez a primeira luta com 15 e ali decidiu que queria viver disso.

O problema era o mercado. Segundo o Leo, um ano bom no Brasil rendia três ou quatro lutas, pouco para ganhar experiência. Um amigo que já estava na Tailândia arrumou uma vaga numa academia tradicional de Bangkok, e ele foi. Chegou numa sexta, treinou no sábado e lutou na sexta seguinte. Já tinha umas 40 lutas somando muay thai e boxe, o que para estrangeiro era bastante.

Essa estreia ele contou com detalhes. Estava perdendo, tomou uma rasteira no quarto round e caiu de cara. No quinto, com os apostadores gritando, foi para cima: acertou a barriga, fingiu que ia de novo no mesmo lugar e cruzou na cabeça. Nocaute. Ganhou o prêmio de nocaute da noite, uma televisão, e duas semanas depois já lutava no antigo estádio Lumpinee.

Banho de caneca e 14 km de corrida

O dinheiro acabou rápido. No segundo mês, o Leo avisou que não tinha como pagar o campo de treinamento. Como tinha vencido as primeiras lutas, o dono deixou ele treinar de graça e depois morar na academia. Foram de quatro a seis meses, segundo ele, tomando banho de caneca com água parada e comendo a comida servida aos lutadores tailandeses, a única que dava para pagar.

A rotina que ele descreveu assusta. Quem tem luta marcada corre 14 km às 6h30, volta e faz seis rounds de sparring de quatro minutos, depois cerca de uma hora de clinch, físico, almoço às 10h30 e sono até perto das 15h, porque sem dormir, segundo o Leo, é impossível treinar à tarde. Às 16h começa tudo de novo. Para ele, alto nível e saúde são coisas diferentes: o que existe é o que funciona.

O jiu-jitsu aparece aqui de um jeito bonito. O Leo recebeu a faixa-preta há pouco tempo, na Tailândia, e contou que é amigo do Buchecha, que treina com ele quando vai para lá. Ele disse que gosta de jogar por baixo mesmo sendo grande, com 1,87 m, e que a didática do jiu-jitsu o ajudou a quebrar a técnica para ensinar muay thai.

“O jiu-jitsu é meu hobby. Ali eu sou aluno todo dia.”

Leo Elias, no Podcast Nem Me Viu · 0:14:00

O gringo que virou técnico

Depois de quatro anos em Bangkok, meio desanimado com a falta de espaço para estrangeiros, o Leo aceitou o convite de um brasileiro de Goiânia chamado Cleiton, que estava abrindo uma academia em Phuket. Lutou lá por um ano, mas as lutas começaram a cair. Num desses dias, sentado no ringue sem vontade de treinar, viu um garoto batendo no saco e resolveu corrigir. O garoto pediu mais treino no dia seguinte. Era José Neto, que segundo o Leo virou três vezes campeão mundial na categoria até 67 kg.

O estouro na mídia tailandesa veio com um lutador local que chegava de oito ou nove derrotas. Segundo o Leo, com ele o atleta venceu nove seguidas e virou luta principal nos estádios. Os repórteres quiseram saber quem era o treinador novo, ouviram que era um falang, o gringo, e se surpreenderam quando ele respondeu em tailandês. Ele nunca estudou a língua: aprendeu no dia a dia e hoje lê e escreve.

Pela academia, que ganhou o nome de Phuket Fight Club depois de uma separação da Elite Fight Club, segundo ele já passaram o Buchecha, Rashad Evans, Cris Cyborg e Cosmo Alexandre. O Leo também treina um jovem de 25 anos com mais de 500 lutas, que segundo ele foi o único a ser eleito três anos seguidos o melhor lutador da Tailândia. O pai do atleta disse numa entrevista que o Leo é um dos três treinadores favoritos dele.

“Foi o dia a dia, foi a disciplina.”

Leo Elias, no Podcast Nem Me Viu · 1:03:21

Apostas e o milhão de córneres

Uma parte que eu não sabia foi sobre os apostadores. Segundo o Leo, eles são profissionais que vão à pesagem de manhã, estudam os atletas e visitam academias. Na luta, gritam instruções, e o lutador escuta, porque o apostador sabe como a luta está nas apostas. Às vezes o bônus pago por eles é maior que a bolsa.

“Você não tem dois córneres, você tem um milhão de córneres.”

Leo Elias, no Podcast Nem Me Viu · 1:12:35

O Werdum aproveitou para lembrar a chegada dele à Chute Boxe, em 2007, junto com o Rafael Cordeiro. Vindo do jiu-jitsu puro, ele entrou no Se Vira nos 30, a roda em que um fica no meio e troca com um parceiro novo a cada 30 segundos. Contou que o Dida, conhecido como o carrasco da Chute Boxe, acertou um soco dentro do olho dele e que passou mais de um mês vendo duas pessoas.

No fim, o Leo elogiou lendas como Saenchai e Buakaw e falou do respeito aos mais velhos, que diz ter aprendido com os tailandeses. O que fica é a imagem do gaúcho que, segundo ele mesmo, já deu aula no Brasil sem dinheiro para comprar duas bananas depois do treino e decidiu continuar acreditando. Hoje, ele contou, tem quem pague 10 mil por uma aula dele.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.