Pura Connection · Leonardo Xavier
Leonardo Xavier conta como Rickson Gracie virou seu segundo pai
Do menino que varria a academia Gracie ao sexto grau, ele fala do caderno escrito por Rickson, do queijo de Hélio Gracie e do jiu-jitsu numa clínica de reabilitação.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 7 dez 2023 (1:42:25).
Leonardo Xavier guarda num cofre de banco, com cópia no e-mail e num pen drive, algumas folhas de bloco. São as anotações que Rickson Gracie fez à mão, durante uma semana de aulas particulares na casa dele, na Califórnia. Hoje o Léo é sexto grau pelas mãos do Rickson, e fala dele como segundo pai.
“Ele é um segundo pai para mim, porque ele me guia na vida e me guia no tatame.”
Leonardo Xavier, no Pura Connection · 0:25:20
Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me marcou foi a forma como ele entrou no jiu-jitsu. Ele entrou pela porta dos fundos, com vassoura na mão.
O menino que varria a academia
O Léo conta que perdeu o pai aos 13 anos. A partir dali, segundo ele, todas as figuras masculinas da vida dele vieram de dentro da academia Gracie. Ele passou pelas mãos de Royler Gracie e Saulo Ribeiro, entre outros, e fez isso como aluno interno, o que os japoneses chamam de uchi deshi.
Na prática, isso significava chegar antes, varrer o tatame, preparar o dojô para os mestres, atender o que eles precisassem e deixar tudo pronto para o dia seguinte. O Léo diz que passava mais tempo na academia do que os próprios professores passavam com a família. Ainda adolescente, na faixa-roxa, já era assistente.
Ele compara aquilo a uma vaga que teria fila de quarteirão se fosse aberta ao público. E admite que, na época, não fazia ideia de que estava sendo preparado.
A briga que virou amizade com Rockson
A ligação com o Rickson começou por um caminho torto. Segundo o Léo, o amigo Cristiano Marcello foi morar na casa do Rickson, levado pelo filho dele, Rockson. Quando o Rockson veio ao Brasil treinar para os primeiros campeonatos grandes, ainda faixa-azul, os treinos com o Léo foram esquentando a cada dia.
Um dia, conta o Léo, ele parou e falou para o Rockson que não era inimigo dele, que o pai dele era seu ídolo. A partir dali, os dois passaram a se ajudar. Nas palavras do Léo, um afiava a espada do outro. O Rockson já morreu, e o Léo acredita que essa amizade tem um lado espiritual.
Depois disso, sempre que via o Rickson, ele abria espaço para o adolescente sentar ao lado e pedir foto. Anos mais tarde, com o Léo já faixa-preta e professor, veio a semana na Califórnia: aulas particulares de três horas e meia por dia. Numa delas, o Rickson saiu, voltou com um bloco e uma caneta e começou a anotar o que o aluno não podia esquecer.
Em seguida veio o convite para ser assistente dele. O Léo conta que acompanhou o Rickson em mais de dez seminários, em vários estados americanos e numa turnê de 15 a 20 dias pela Austrália, dividindo quarto de hotel. Depois de quatro horas de seminário e uma hora de fila de autógrafo, o mestre chegava ao hotel e mandava arrastar a mesa para mostrar mais uma posição.
O bolo e a cereja
Houve uma fase, contou o Léo, em que ele estava desacreditado do jiu-jitsu, confuso se existia alguma coisa além de campeonato. Foi numa conversa com o Rickson que ele entendeu que o que achava que faltava era justamente o que o mestre mais valoriza.
“Esse não é a cereja do bolo, esse é o bolo. O campeonato é a cereja.”
Leonardo Xavier, no Pura Connection · 0:27:26
Ele foi competidor: se diz medalhista mundial e campeão pan-americano e brasileiro. Mas afirma que nunca trocaria o que aprendeu por uma medalha de ouro. Para ele, o jiu-jitsu de verdade é o de combate aos desafios da vida, contra um inimigo físico, interno ou do dia a dia.
Na opinião do Léo, parte da diferença do Rickson vem de ter levado a sério a influência de Orlando Cani e da bioginástica, e de ter ido buscar preparação muito além do tatame, como os banhos de gelo de muito antes da moda. Ele cita a luta com Yuki Nakai, no Japão: segundo o Léo, o japonês estava com o olho quase fechado e o Rickson escolheu não dar o soco porque não precisava.
O queijo de Hélio Gracie
A história mais bonita da conversa é sobre Hélio Gracie. O Léo conta que, quando era assistente, o Grande Mestre descia do sítio toda quarta-feira para dar aula particular e trazia uma cesta de madeira com queijo, frutas e geleia feitos por ele. Distribuía aos professores e aos dois assistentes. O Léo segurava aquele queijo sem saber se congelava ou guardava.
Quando o Hélio morreu, o Léo já morava nos Estados Unidos, no processo do green card. Ele lembra que o Jornal Nacional fechou a edição com um bloco dedicado ao mestre, e que a mãe ligou insistindo. Queria saber se aquele era o senhor que mandava o queijo. Para ele, foi ali que a mãe entendeu onde o filho tinha se metido.
“Esse não é o senhor que te dava o queijo?”
Leonardo Xavier, no Pura Connection · 0:48:52
Jiu-jitsu na clínica de reabilitação
Hoje o Léo dá aula no Texas e leva o jiu-jitsu para um centro de reabilitação de dependentes químicos. Segundo ele, começou dando aula particular aos filhos do dono, sem saber quem era o pai. O dono viu como ele lidava com as crianças e o convidou para um teste, uma vez por semana. Hoje são cinco vezes por semana, em três unidades.
As aulas misturam o jiu-jitsu do Rickson, movimentos da bioginástica, respiração e muita conversa. O Léo conta que pacientes já disseram que a respiração os impediu de ter uma recaída. E conta, com carinho, a história do paciente que anunciou como vitória da semana ter voltado a escovar os dentes depois de dois anos e meio. Ele parou a turma para dizer que aquilo era uma vitória enorme.
Saí da conversa pensando em como o Léo se define logo no começo: um ser humano imperfeito, em construção, e eterno aprendiz. Nem quando o próprio Rickson disse que ele já era seu próprio mestre ele aceitou largar o posto de aluno.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.