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Podcast Nem Me Viu · Lyoto Machida

Lyoto Machida admite que evitar o chão no MMA foi um erro de carreira

Ex-campeão do UFC diz que fugiu da luta agarrada por estratégia, fala do apego ao cinturão e das lições duras do pai japonês.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 26 abr 2023 (1:12:05).

Quem acompanhou a carreira do Lyoto Machida lembra do lutador que ninguém conseguia acertar. Distância perfeita, entrada e saída, chute que aparecia do nada. O que pouca gente via era o Lyoto no chão. Na conversa com o Fabrício Werdum no Nem Me Viu, um fã perguntou pelo super chat por que ele quase nunca usou o jiu-jitsu nas lutas. A resposta me pegou de surpresa pela franqueza: ele chamou isso de erro.

“Foi uma falha minha até, porque no início o meu objetivo era evitar a luta agarrada.”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 0:35:36

Assisti ao episódio inteiro e é um papo leve, cheio de histórias de vizinhança entre os dois na Califórnia. Mas no meio da brincadeira apareceram coisas sérias sobre estratégia, sobre como é perder a cabeça depois de virar campeão e sobre a educação dura que o Lyoto recebeu do pai.

A escolha de lutar só em pé

O raciocínio do Lyoto era simples. Segundo ele, quando começou no MMA, o diferencial dele estava na luta em pé, porque os adversários não sabiam lidar com a distância que ele trabalhava. Ele contou que foi praticamente treinado para isso: evitar o chão, mesmo treinando chão direto.

A conta que ele fazia na cabeça era de porcentagem. Se no chão o adversário tinha 30% ou 40% de chance, por que dar essa chance? Em pé, contra quem não conhecia aquele jogo, ele achava que tinha 80% ou 90%. Hoje ele enxerga diferente. O Lyoto lembrou que o Marco Ruas falava para ele que tinha um chão bom e devia botar os caras para baixo.

“Foi um erro meu, uma falha minha, não explorar mais esse outro lado.”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 0:36:38

Ele também explicou por que acha o jiu-jitsu mais natural. Para o Lyoto, a luta agarrada está no instinto: cachorro, urso e leão se agarram. Ele disse que os filhos dele, desde pequenos, se atracavam o tempo todo sem ninguém ensinar.

Werdum e o chão quadrado

Aqui o Werdum entrou com a experiência dele, que fez o caminho contrário. Ele contou que veio do jiu-jitsu, aprendeu wrestling e muay thai depois, e hoje se sente à vontade em qualquer área. Na opinião dele, quem vem da trocação sofre mais para aprender o chão. Ele disse que dá para ver de longe: o cara fica quadrado, sem malícia de quadril.

“Eu vim do chão, do jiu-jitsu, e posso dizer que sou um lutador completo hoje.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:37:09

Para ilustrar, o Werdum contou do tempo em que foi contratado para treinar o chão do Mirko Cro Cop na Croácia. Segundo ele, o croata resistia aos exercícios. A saída foi psicológica: como o Mirko gostava muito do Jacaré, o Werdum dizia que o Jacaré fazia aquilo, e aí o Mirko fazia. No fim, o Werdum contou que decidiu treinar o Mirko para se defender bem no chão e levantar, porque achava que ele não ia chegar a finalizar ninguém.

O apego ao cinturão

Para mim, o trecho mais forte da conversa veio quando o assunto era ganância. O Lyoto separou ambição de ganância e usou a própria carreira como exemplo. Ele contou que, depois de ser campeão, começou a criar apego ao cinturão, com aquela ideia de que não podia perder. Para ele, esse é o primeiro passo para a derrota, porque o outro lado também é técnico e também está treinando. Na mesa lembraram que ele chegou ao título invicto, com 16 vitórias.

“Depois que eu fui campeão, comecei a criar um apego ao cinturão.”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 0:59:03

Ele comparou com Miyamoto Musashi, o samurai que andava sozinho e se despedia das pessoas antes de cada duelo como se fosse o último dia. Sem escola, sem alunos e sem reputação a defender, segundo o Lyoto, ele entregava tudo. É uma leitura interessante de alguém que viveu o topo do UFC.

Rivais que viram parceiros

Outro fã quis saber se ficou alguma rusga com o Shogun. O Lyoto disse que nenhuma. Na visão dele, um fez parte da história do outro, e o Shogun o ajudou a evoluir e também financeiramente, porque fizeram duas lutas grandes.

O Werdum puxou um caso que mostra bem isso. Os dois treinavam com o Mark Muñoz, lutador de wrestling que, segundo o Werdum, acolheu os brasileiros quando chegaram aos Estados Unidos. Quando a luta entre o Lyoto e o Muñoz foi marcada, o Lyoto contou que ligou para ele antes de fechar. O combinado foi cada um fazer o seu treinamento e quem perdesse pagaria o jantar. O Lyoto venceu com um chute na cabeça e, segundo ele, o Muñoz pagou o jantar depois.

Na brincadeira do quadro Dos Nossos, o Lyoto elogiou o Wanderlei Silva como um guerreiro que nunca deixou a fama subir à cabeça, disse que sempre se deu bem com o Anderson Silva e falou do Jon Jones com cuidado: excelente lutador, mas alguém de quem ele não julga a vida pessoal, porque nunca calçou o sapato dele.

As lições do pai japonês

O Werdum insistiu para o Lyoto contar histórias do pai, e valeu a pena. O pai dele veio do Japão para o Brasil com 22 anos, formado engenheiro, e segundo o Lyoto até hoje fala com sotaque pesado, mesmo depois de 50 anos no país.

A história mais marcante foi a do trote. O Lyoto tinha uns 8 anos e, junto com o irmão, passou a noite ligando para números aleatórios e falando besteira. O irmão mais novo contou tudo quando o pai chegou. O pai explicou que eles podiam estar incomodando uma casa com alguém doente ou de luto, e disse que não ia bater neles. Mas mandou os dois dormirem na rua. Eles moravam em cima da academia e acabaram dormindo num gramado na frente dela, até a mãe liberar a chave de madrugada.

“Tudo que ele falava era lei.”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 0:27:45

O que fica da entrevista é isso: um campeão que olha para trás sem pose. Ele admite que deixou o jiu-jitsu de lado por cálculo, reconhece que o apego ao título atrapalhou e credita boa parte do que é à disciplina que vinha de casa. Para quem treina jiu-jitsu e sonha com o MMA, o recado dele é claro: não deixe nenhuma área parada.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.