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Podcast Nem Me Viu · Lyoto Machida

Lyoto Machida explica por que o pai não comemorou seu título no UFC

No Nem Me Viu, o ex-campeão conta a lição que ouviu no nocaute sobre Rashad Evans e fala de fama, promoção de luta e Dana White.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 6 dez 2023 (3:10:15).

A noite em que Lyoto Machida nocauteou Rashad Evans e virou campeão do UFC teve uma cena que quase ninguém percebeu. Enquanto o córner pulava e a torcida gritava, o pai do Lyoto, que estava no córner, ficou parado. Na segunda visita ao Nem Me Viu, o Lyoto contou ao Fabrício Werdum o que o pai explicou depois, e a resposta diz muito sobre a família Machida.

O episódio tem mais de três horas e boa parte é sobre água e hidratação, com um convidado especialista no assunto. Eu fiquei com a parte de luta, que é farta: o nocaute do título, o dia em que ele perdeu o cinturão, a relação com o Dana White e a opinião dele sobre a promoção agressiva que virou moda.

O nocaute e o silêncio do pai

Um fã perguntou se o nocaute sobre o Rashad foi o mais importante da carreira. O Lyoto respondeu que foi o mais marcante, porque fechou uma etapa e fez dele campeão. Mas disse que não dá para chamar de o mais importante, porque sem as lutas anteriores ele não teria chegado ali.

Ele contou que aquela foi a primeira vez que levou o pai para o córner. Quando o Rashad caiu, todo mundo comemorou, menos o velho, que só fez um gesto discreto. Um repórter reparou e, na coletiva, quis saber por que ele não celebrou. Segundo o Lyoto, o pai respondeu que se via como educador e pensou no pai do Rashad.

“Será que o pai do Rashad está feliz olhando eu celebrar como se fosse a morte do filho?”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 0:59:38

O Lyoto disse que o pai estava feliz por dentro, mas achou que não precisava mostrar. E contou outra lição dele, tirada da cultura samurai: o samurai com fome anda com um palito na boca, para ninguém saber que está com fome. Na leitura do Lyoto, a gente só mostra fraqueza para a pessoa certa, aquela que pode ajudar.

Saber a hora de parar de bater

Daí o papo foi para o controle dentro do cage. O Lyoto disse que, quando o adversário cai e ele percebe que acabou, não vê motivo para continuar batendo. O Werdum lembrou a luta do Lyoto contra o Mark Muñoz, amigo dos dois dos tempos de treino nos Estados Unidos. Segundo o Werdum, o Lyoto acertou o chute alto, viu o Muñoz no chão e só marcou o golpe, sem descer o braço.

“Eu chuto, o cara cai, eu vejo que não dá. Para que eu vou bater mais?”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 1:01:12

Para o Lyoto, quem continua batendo num cara apagado ou está com maldade ou está descontrolado. E ele levou isso para a vida: até a euforia de uma coisa boa pode fazer você errar se não houver controle.

A multidão que some depois da derrota

O trecho que mais me marcou veio quando falaram do Poatan. O Lyoto elogiou a consciência de movimento dele e disse que o mais difícil agora é manter a cabeça, porque aparece muita gente querendo ficar perto do campeão. Aí ele contou o que viveu quando perdeu o cinturão em Curitiba.

Antes da luta, segundo ele, não conseguia nem descer do quarto do hotel de tanta gente querendo foto. Depois da derrota, saiu andando com o irmão e não tinha ninguém.

“Eu perdi a luta. Cadê o pessoal? Não tinha mais ninguém.”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 1:09:01

A conclusão dele é que o lutador não pode se confundir com celebridade. A carreira é curta, a exposição passa, e amigo de verdade se conta nos dedos.

Dana White, Inoki e o personagem

No quadro Dos Nossos, o Lyoto defendeu o Dana White. Disse que todo relacionamento tem discordância, mas que foi o Dana, com o evento dele, quem deu nome e oportunidade aos lutadores. O Werdum contou uma experiência bem diferente: sentia que o Dana não gostava do estilo dele e o tratava como um garoto. Numa reunião, segundo o Werdum, ele segurou firme a mão do Dana e disse que também era homem. Mesmo assim, reconheceu que ganhou dinheiro comentando o UFC em espanhol por oito anos.

“Ele deu nome pra gente, ele deu oportunidade de lutar.”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 1:52:57

Quando apareceu a foto do Antonio Inoki, o Lyoto contou que o lutador japonês enfrentou Muhammad Ali em 1975 e que os dois viraram amigos. Falaram também da tradição do tapa na cara que o Inoki dava para dar sorte. O Lyoto levou três, e o Werdum contou que tomou um no Rio, levado pelo Sylvio Behring. Depois lutou sete vezes no Japão e foi campeão do UFC, então, na brincadeira dele, a lenda funcionou.

Sobre as lutas de youtuber e a promoção cheia de ofensa, o Lyoto disse que acha bom para o esporte como entretenimento, mas que ele mesmo não faz. Contou que já foi instigado a provocar adversários e recusou.

“Eu nunca vou vestir um personagem para vender algo.”

Lyoto Machida, no Podcast Nem Me Viu · 2:11:46

Segundo ele, isso vem da educação do pai, da hierarquia e do respeito da arte marcial. Ele disse que coloca princípios no centro da vida, e não dinheiro ou fama.

Caçador na hora da luta

Quem acha que tanta filosofia deixava o Lyoto mole na hora da luta se engana. Perguntado sobre o que passava na cabeça dele contra o Jon Jones, ele comparou o lutador a um caçador que sai para buscar o alimento. A ideia, segundo ele, era eliminar: acertar no primeiro round se desse, finalizar se desse.

Sobre voltar a lutar, ele disse que não tem contrato com ninguém e que não assina mais cinco lutas. Pode aceitar uma luta ou outra, desde que o evento seja sério e a luta tenha sentido com a história dele. O Werdum concordou e contou que foi desaconselhado a enfrentar o Bob Sapp por falta de história entre os dois, mas que uma revanche com o Roy Nelson, que ele já venceu, faria sentido.

Saí da entrevista com a impressão de um cara coerente. O mesmo pai que não comemorou o título ensinou o filho a parar de bater quando o outro já caiu e a desconfiar da multidão da vitória. O Lyoto parece ter guardado tudo.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.