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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Mahamed Aly

Mahamed Aly conta como virou campeão mundial com o pé machucado

O faixa-preta fala da chave que se abriu no Mundial, da vitória sobre Meregali, da final com Leandro Lo e da honestidade que aprendeu com Henry Cejudo.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 10 jul 2021 (1:54:19).

No sábado do Mundial, o Mahamed Aly machucou o pé no absoluto e voltou para o hotel com ele numa bacia, verde. No dia seguinte, era campeão mundial de faixa-preta. Assisti à live dele no Jiu Jitsu Podcast, do Muito Mais Ação, gravada em Florianópolis na véspera de uma luta, e essa história da conquista, contada por ele mesmo, é a melhor parte de quase duas horas de papo.

Tem de tudo na conversa: Gordon Ryan, Rodolfo Vieira, Henry Cejudo, super lutas, YouTube e a família que ficou longe. Mas o fio que amarra tudo é uma palavra que o Mahamed repete muito: honestidade com ele mesmo.

Tudo coopera para o campeão

O Mahamed contou que chegou àquele Mundial num dos piores momentos da vida pessoal. A filha tinha uns seis meses, o relacionamento ia mal, e na cabeça dele era agora ou ficaria muito mais difícil. No sábado, lutando o absoluto com o Fellipe Andrew, machucou o pé e perdeu. Um amigo mandou mensagem perguntando se dava para andar.

“Não dá para andar, mas dá para ganhar.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:31:34

Aí a chave começou a se abrir. Pela teoria, ele pegaria Elliott Kelly, depois Gutemberg Pereira, depois Nicholas Meregali e, na final, Leandro Lo. Segundo o Mahamed, o Gutemberg, que tem um jogo de lapela e de 50/50 que seria difícil com o pé daquele jeito, foi desclassificado depois de um empurra-empurra com um companheiro de treino dele. E o Elliott Kelly, com quem ele tinha uma rixa desde o ADCC, não apareceu.

Sobrou o Meregali. O Mahamed diz que tinha paz e uma estratégia montada, e que quando passou a guarda e colocou o joelho na barriga pensou que não dava mais para perder. Contou que o ginásio inteiro, menos a Alliance, gritava por ele. Depois, o Mário Reis disse a ele que, pelo jeito que entrou no tatame, não ia perder aquela luta. Tudo coopera para o campeão, ouviu do Mário.

“O Lô é o cara, mas ele já tem sete.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:35:43

Na final contra o Lô, favorito, ele se agarrou a isso: o outro já tinha sete títulos mundiais e não tinha a mesma fome. O Mahamed contou que depois o Lô comentou com algumas pessoas que, naquele dia, não tinha como.

A honestidade que aprendeu com Cejudo

Pouco antes da live, o Mahamed passou dois dias na casa do Henry Cejudo, campeão olímpico e do UFC. Os dois chegaram a ter o mesmo técnico de wrestling. Ele contou que o Cejudo disse que o mais importante num camp é ser honesto: o adversário vai ser melhor em algumas coisas, e fingir o contrário é arrogância.

“Dá para ganhar de qualquer jeito, sendo melhor, sendo pior. Você só tem que ser honesto.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:25:54

O exemplo que o Cejudo deu foi a luta com o Demetrious Johnson. Segundo o Mahamed, o americano decidiu destruir as pernas do Johnson com chutes, e os treinadores acharam loucura, porque ele era wrestler. Quando chamaram de maluco, o Cejudo soube que estava certo: se nem o time acreditava, o adversário também não ia esperar.

Na mesma linha, ele relembrou a luta com o Rodolfo Vieira, de quem era fã. Foi por rounds, como no MMA. O Rodolfo o colocou na guarda X, e o Mahamed esperou o chute para estourar a pegada e passar por cima, algo que faz muito. A pegada não saiu. Tomou a raspagem, quase um armlock no fim do round, deu uma queda no segundo e passou a guarda no terceiro sem receber os pontos. Perdeu nos rounds e chamou a luta de privilégio.

Gordon Ryan, super lutas e o valor do título

Sobre o Gordon Ryan, o Mahamed foi sincero. Os dois se enfrentaram no ADCC da Finlândia, em 2017, quando pouca gente falava do americano, e o Gordon pegou uma chave de calcanhar. Ele disse que respeita o atleta e que muito da crítica ao Gordon é recalque, mas não gosta do marketing dele. Quem poderia vencê-lo? Kaynan, Cyborg, Vinny Magalhães e Patrick Gaudio, segundo o Mahamed, todos nomes que ele diz que o Gordon evita.

Ele também explicou por que não faria super luta contra amigos como o Mica Galvão, o Gaudio ou o Cyborg. Num campeonato, luta com qualquer um. Numa final de Mundial contra o Gaudio, disse que abriria a luta para o amigo.

E defendeu os títulos. Para ele, as lutas casadas vieram para ficar, mas quem constrói carreira faz isso no Mundial. Ele disse que nunca vai colocar o Craig Jones, com dezenas de lutas casadas, no mesmo patamar de um Mateus Diniz, que ganhou o ADCC. E reclamou de quem escreve campeão mundial no perfil sem dizer que o título foi na faixa verde, no juvenil.

“Tu quer ter o respeito de quem sabe.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:31:55

Ele citou os nomes que importam para ele: Fábio Gurgel, que o parabenizou quando lançou um curso on-line, e André Galvão, que assistiu ao vivo à primeira apresentação de vendas dele.

Disciplina, família e o que vem depois

Perguntado se sempre foi disciplinado, o Mahamed disse que a disciplina nasceu da paixão. Quando se apaixonou pelo jiu-jitsu, família, amigos e balada ficaram em segundo plano. Quando percebeu que para viver de jiu-jitsu precisava falar inglês, foi aprender.

“Quando tu se apaixona por alguma coisa, naturalmente tu quer fazer melhor.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:35:00

A parte que dói é a família. Ele tem uma filha americana que ainda não conhece as bisavós no Brasil. Contou que foi a criança que passava por baixo da roleta do ônibus e não quer isso para ela. Por isso diz, sem vergonha, que quer ganhar dinheiro: é o dinheiro, segundo ele, que acaba com a distância e traz a mãe para perto.

Hoje ele dá aulas particulares, tem negócios fora do jiu-jitsu e continua treinando duas vezes por dia. Foi também o primeiro canal brasileiro de jiu-jitsu a chegar aos 100 mil inscritos no YouTube, segundo ele, numa madrugada de frio em Gramado, dançando de cueca na sacada. O que fica da conversa é um campeão que sabe exatamente o que quer, e que não tem vergonha de dizer.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.