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Pura Connection · Milla Monteiro

Milla Monteiro conta o que aprendeu ao lutar o Brasileiro de jiu-jitsu

Professora de yoga, ela montou um treino só de mulheres em São Paulo e descobriu no campeonato um limite que não sentia havia anos.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 27 jun 2022 (1:15:01).

Milla Monteiro se inscreveu no Brasileiro de jiu-jitsu com um objetivo modesto: não passar vergonha. Professora de yoga há anos, ela conta que treinou quase todos os dias da semana antes do campeonato e que, no dia da luta, chegou a um lugar que não visitava havia muito tempo: o limite.

“Eu cheguei perto de sentir o que seria chegar no limite, e eu não lembro qual foi a última vez que eu senti isso na vida.”

Milla Monteiro, no Pura Connection · 0:20:12

Assisti à conversa dela no Pura Connection. A maior parte do papo é sobre yoga, carreira e saúde mental, mas o que eu quero contar aqui é a parte do tatame, que é boa: o treino feminino que ela ajudou a criar em São Paulo, o que ela viu na família, a derrota no campeonato e a forma como o yoga entra no jiu-jitsu dela.

Um treino só de mulheres às 6 da manhã

A Milla conta que começou, em São Paulo, um treino voltado para mulheres. No início era uma vez por semana, com umas cinco alunas. Hoje, segundo ela, são mais de 20 meninas, três vezes por semana, às 6 da manhã.

O caminho não foi simples. Ela diz que ficou ciente de complicações que não imaginava: o que o marido de uma vai pensar, o que a mulher do outro vai pensar, quem vai treinar com quem. A escolha foi não atrapalhar o treino masculino, que já funcionava, e achar um horário próprio para as mulheres.

Para ela, o jiu-jitsu dá à mulher algo que vai além da técnica. Ela conta que leva amigas que chegam cheias de receio e saem se sentindo autoconfiantes. E defende que toda mulher precisa, no mínimo, saber se levantar, identificar uma situação de risco e se movimentar com inteligência.

“A mulher não é mais forte, ela pode ser mais inteligente numa situação de risco.”

Milla Monteiro, no Pura Connection · 0:09:10

A Milla contou um caso que mostra isso. Segundo ela, uma aluna do grupo sofreu uma tentativa de agressão: um homem tentou empurrá-la para dentro de uma van. A aluna usou a levantada técnica que tinha treinado, manteve a calma, olhou para o agressor e conseguiu correr.

O jiu-jitsu que ela via em casa

O jiu-jitsu sempre esteve perto da Milla, mas por muito tempo ela achou que era coisa de homem. Ela conta que o pai já treinava e colocou o irmão no tatame aos 14 anos, para ele ficar casca-grossa. Para ela, aquilo era um ritual dos dois.

O que a marcou foi a diferença entre os dois. Segundo a Milla, o pai foi para o jiu-jitsu para canalizar raiva e agressividade. O irmão, que virou faixa-preta, cresceu dentro da filosofia, e ela diz que ele nunca chegou bêbado em casa, nunca arrumou briga na rua e é centrado e sem vícios. Ela atribui boa parte disso ao jiu-jitsu. Quando foi à graduação de faixa-preta do irmão, porém, viu um ambiente muito masculino, quase sem mulheres no tatame.

A chave virou na pandemia. Isolada, ela percebeu que o treino podia ser tempo de qualidade com a família, e descobriu que era divertido. Hoje, conta, o pai tem 64 anos e treina pelo menos três vezes por semana, aguentando faixa-roxa de 30 anos e 90 quilos. Ela lembra que ele já rompeu o tendão calcâneo no aquecimento de um treino, se reabilitou e voltou.

A derrota que ela mesma explica

A Milla não esconde que não ganhou no Brasileiro, e diz que nem era essa a intenção. Mas ela lembra do erro com detalhe. Segundo ela, estava ganhando a luta inteira quando puxou a adversária para uma guilhotina, abriu a guarda e o árbitro entendeu que a outra tinha passado.

“Eu estava ganhando a luta inteira, e aí eu puxei a garota para uma guilhotina e abri a guarda.”

Milla Monteiro, no Pura Connection · 0:54:51

O que ela tirou disso vale para qualquer competidor. A Milla diz que fica em paz quando erra depois de ter feito tudo o que estava ao alcance dela, e que a frustração vem quando sente que podia ter feito mais. Para ela, o campeonato mostra que nem sempre o melhor ganha: ganha quem lutou melhor dentro da regra, naquele dia.

O efeito no treino apareceu logo. Ela conta que antes ficava nervosa ao treinar em academia nova. Fazendo mestrado em psicologia no Uruguai, foi procurar jiu-jitsu em Montevidéu antes do campeonato e ficou insegura. Depois da competição, voltou e se sentiu outra, mais preparada.

O que o yoga leva para o tatame

A Milla começou no yoga aos 13 anos, quando jogava futsal num clube de São Paulo. No jiu-jitsu, segundo ela, o yoga trouxe uma força de isometria e resistência: consegue fazer força por muito tempo sem se esgotar, e com muito alongamento. Quem vem para cima dela sente a resistência e é obrigado a baixar o ritmo.

O apresentador lembrou que Rickson Gracie não dá uma entrevista sem falar do mestre Orlando Cani, que ele trata como grande inspiração. A Milla concordou e disse que o yoga a fez atravessar as fases da vida com mais clareza.

Ela também usou o yoga para se recuperar de uma lesão séria. Ensaiando um número de acroyoga, depois de horas sem comer, caiu de uma parada de mão e machucou o ligamento acromioclavicular do ombro. A indicação era cirurgia. Ela preferiu não operar e se reabilitou com movimento, e diz que hoje faz tudo no jiu-jitsu.

“É a única oportunidade que você vai ter de chegar no seu limite de uma maneira segura.”

Milla Monteiro, no Pura Connection · 0:20:44

É com essa frase que fico da conversa. A Milla chegou ao tatame pela porta de fora, sem pretensão de medalha, e encontrou lá o que muita gente de jiu-jitsu às vezes esquece de dizer em voz alta: um lugar seguro para ir até o fim das próprias forças e voltar inteiro.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.