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Pura Connection · Orlando Cani

Orlando Cani, mestre da respiração de Rickson Gracie, abre seus segredos

O criador da bioginástica conta como preparou Rickson, Marco Ruas, Wallid Ismail e Murilo Bustamante, e por que o lutador que prende o ar perde a luta.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 19 jun 2021 (1:32:47).

Quem acompanha a história do vale-tudo já ouviu falar dos exercícios de respiração do Rickson Gracie. Por trás deles tem um nome: Orlando Cani, professor de educação física, mestre de yoga e criador da bioginástica. No Pura Connection, gravado na casa do André, o Orlando contou como treinou o Rickson, preparou o Marco Ruas em um mês para um mundial, recebeu o Wallid Ismail depois de uma derrota no Japão e deu um conselho ao Murilo Bustamante na época da primeira luta dele de vale-tudo.

Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a insistência dele num ponto só: a respiração. Para o Orlando, o lutador que prende o ar perde resistência, e a explicação que ele dá vem da natureza.

“Qual é o animal que prende a respiração numa batalha? Nenhum. Porque se prender a respiração, ele perde resistência.”

Orlando Cani, no Pura Connection · 1:14:24

Do paraquedas ao pentatlo militar

Antes do yoga, a formação do Orlando foi militar. Ele contou que cresceu em Blumenau, onde já fazia ginástica olímpica por causa da colônia alemã, e que aos 17 anos e meio escolheu servir como paraquedista no Exército. No primeiro salto, o paraquedas principal não abriu direito e ele teve de usar o reserva. Segundo ele, foi sorte estar bem condicionado.

Em vez de dar baixa, fez o curso de educação física do Exército, se formou em 1956, com 20 anos, e ficou dez anos como professor na escola. Nesse período entrou para a equipe brasileira de pentatlo militar, uma prova com tiro, lançamento de granada, pista de obstáculos, natação e corrida pelo campo. Pelo relato dele, o Brasil foi campeão mundial em 1960 e de novo em 1965. O Orlando diz que agradece ao Exército até hoje porque era muito indisciplinado quando jovem.

O yoga chegou com 24 para 25 anos, quando a mulher dele estava grávida da primeira filha. Foi paixão imediata: ele lia os livros em inglês e francês com o dicionário do lado, mesmo sem falar as duas línguas. Em 1973 fez a primeira viagem à Índia. Da mistura de tudo isso nasceu a bioginástica, o método que ele ensina até hoje e que o próprio André leva para as aulas de jiu-jitsu.

Rickson Gracie, o número um

Quando fala de lutadores, o Orlando não esconde a preferência. Ele disse que o Rickson foi o número um para ele e que o Rickson praticava a respiração o dia inteiro, inclusive a caminho da competição. A explicação do mestre é de fisiologia: respirando direito, o atleta regula o metabolismo e a parte cardiorrespiratória e evita a acidose que, segundo ele, derruba o rendimento.

“O cansaço te leva a ficar burro, por causa da falta de oxigênio no cérebro.”

Orlando Cani, no Pura Connection · 1:08:25

A história mais bonita da conversa é a da formatura do Rickson. O Orlando contou que, quando o Rickson terminou a formação com ele, pediu que desse a aula sozinho, com tudo o que tinha aprendido, enquanto o professor ficava sentado num canto, perto do som. No fim, o Rickson fez umas respirações, fechou os olhos e ficou sentado em meditação. O Orlando estava com os olhos cheios de lágrimas e não conseguiu falar nada.

“Ele mesmo fala: foi a maior meditação que ele teve.”

Orlando Cani, no Pura Connection · 1:01:00

Para o Orlando, aquilo mostra o que ele chama de meditação em movimento. O atleta precisa estar tão consciente do que faz que entra no estado meditativo enquanto luta ou joga. Ele contou ainda que tem o Rickson como um filho e que os dois se falam de vez em quando.

Um mês para preparar Marco Ruas

O Marco Ruas chegou à academia do Orlando sem que os dois se conhecessem pessoalmente. Segundo o Orlando, o Marco disse que ia lutar um campeonato mundial, que sabia do trabalho feito com o Rickson e que tinha só um mês. O professor respondeu que também estava sem tempo, porque ia viajar para Machu Picchu, e marcou treino todo dia, do meio-dia à uma da tarde.

Logo no começo, ele contou, acertou o supercílio do Marco com o cotovelo e tirou sangue. Na primeira noite, recebeu vários telefonemas de gente estranhando que ele estivesse treinando o Marco Ruas justamente depois de treinar o Rickson. A resposta dele foi que a função dele é treinar quem o procura, com dedicação total durante o período.

“Enquanto estiver treinando comigo, no treino mais ninguém, porque eu vou mostrar os pequenos erros que o atleta não percebe.”

Orlando Cani, no Pura Connection · 0:55:14

O resultado chegou quando ele já estava em Machu Picchu: a filha Patrícia avisou por telefone que o Marco tinha sido campeão.

Wallid Ismail e a luta na praia

A história do Wallid Ismail tem um detalhe curioso. O Orlando contou que o Wallid já tinha ligado outras vezes pedindo para treinar e ele nunca arrumava tempo, porque não gostava das declarações do lutador. Quando o Wallid finalmente apareceu na academia, as jogadoras de vôlei de praia que treinavam lá correram para abraçá-lo, e isso fez o professor rever a opinião.

Segundo o Orlando, o Wallid chegou dizendo que tinha perdido no Japão, que estava frágil e sem vontade de treinar, e que pessoalmente não era aquilo tudo que falava. Tinha pela frente a luta na praia contra um irmão do Rickson. O Orlando mandou ele treinar todo dia ao meio-dia e ainda fazer a aula de yoga do fim da tarde. Foram quatro meses seguidos, e um mês e meio depois do início o Wallid já voltava animado dos treinos com os faixas-pretas.

“A base mesmo é a respiração, o relaxamento e a concentração.”

Orlando Cani, no Pura Connection · 0:57:21

Olho de tigre para Murilo Bustamante

O Murilo Bustamante também passou pelas mãos do Orlando, que disse ter acompanhado o lutador desde o começo. Ele lembrou do Murilo aparecendo na academia à noite, na época da primeira luta de vale-tudo dele, no Maracanãzinho. O conselho foi entrar sem pensar em vitória nem derrota, só medir forças, olho no olho, com olho de tigre. Depois, o Murilo mandou uma foto com a medalha de campeão, que o Orlando guarda.

Ele citou ainda o Alexandre Paiva, que segundo ele treinava muito com a respiração, entre os três atletas que mais o impressionaram.

O que fica da conversa

O Orlando repete que o atleta precisa ser ao mesmo tempo cientista, cobaia e laboratório: perceber o que acontece com o próprio corpo e ajudar o técnico e o preparador físico, em vez de esperar tudo de fora. Também diz que a motivação tem de partir de dentro e que ninguém aprende jiu-jitsu sem repetição.

“O atleta tem que ser cientista, cobaia e laboratório.”

Orlando Cani, no Pura Connection · 0:18:45

Saí da conversa pensando no quanto o jiu-jitsu deve a esse professor de yoga. Tem gente que treina anos e nunca presta atenção no próprio ar. O conselho dele para quem está em casa é simples: fazer um minuto de respiração, e uma hora depois mais um minuto, e assim ao longo do dia. Ele mesmo contou que foi assim que saiu de uma fase de depressão depois da terceira cirurgia no tendão de Aquiles.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.