Pura Connection · Orlando Cani
Orlando Cani, mestre de Rickson Gracie, conta o que viu no ringue do Japão
O criador da bioginástica lembra como preparou Rickson, Roger Gracie, Murilo Bustamante e a geração da Alliance usando só respiração, relaxamento e concentração.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 24 jun 2020 (1:25:48).
O Rickson Gracie tomou um soco logo no começo de uma luta no Japão, caiu e ficou no chão. Os irmãos gritavam para ele levantar. Ele não levantou. Quem estava assistindo, sem entender, era o homem que tinha ensinado o Rickson a respirar: Orlando Cani, mestre de yoga e criador da bioginástica. Meses depois, em cima de uma árvore nos Estados Unidos, o Rickson explicou a ele o que tinha acontecido naquele momento.
Assisti à conversa do Orlando no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi isso: um senhor que, segundo ele mesmo, vai fazer 85 anos, contando com a maior calma do mundo como atendeu por telefone alguns dos maiores nomes do jiu-jitsu na véspera das lutas mais importantes da vida deles. E o método dele é quase sempre o mesmo: respirar, relaxar e se concentrar.
De paraquedista a preparador de campeões
A história do Orlando começa na praia. Ele contou que, na juventude, pegava onda no peito em Copacabana, numa época em que ainda não existia prancha. Depois entrou para o paraquedismo no Exército, virou sargento, se formou em educação física aos 20 anos e disputou campeonatos mundiais de pentatlo militar, cinco provas em cinco dias.
Foi ainda como atleta, aos 24 anos, que ele começou a praticar yoga. Segundo o Orlando, os treinos iam das sete da manhã às cinco da tarde, e a respiração e o relaxamento eram o que segurava o corpo e a cabeça. Quando largou o Exército, abriu a academia e começou a treinar nadadores, triatletas e, por quase 20 anos, a seleção de vôlei do Bernardinho.
O jiu-jitsu também passou pela vida dele antes de tudo isso. O Orlando contou que chegou a ser aluno do professor Hélio Gracie, mas nunca pensou em virar atleta da luta. O caminho dele foi outro: estudar o movimento, a flexibilidade e, principalmente, a respiração.
Rickson e os dois japoneses
De todos os alunos, o Orlando não tem dúvida sobre quem mais entendeu o trabalho. Segundo ele, o Rickson percebeu cedo que respiração, relaxamento e concentração andam juntos, e pratica até hoje. O mesmo vale para o Alexandre Paiva, que, segundo o Orlando, está com ele há 30 anos.
“O Rickson foi o atleta que mais percebeu isso, porque até hoje ele pratica.”
Orlando Cani, no Pura Connection · 0:16:48
O Orlando lembrou de uma conversa em que o Rickson disse a ele que, quando entrava para lutar, sabia que podia morrer ou ficar inutilizado com um soco. Para o mestre, o lutador que chega nesse ponto precisa de uma cabeça sem medo nem da vitória, nem da derrota, como os samurais que meditavam antes do combate.
Aí vem a história do Japão. O Orlando contou que só assistiu a uma luta do Rickson na vida. Na segunda luta daquela noite, o Rickson levou um golpe logo de cara e caiu. Os irmãos gritavam, e ele continuava no chão, numa posição que o Orlando ensinava muito, que permite ir para frente, para trás e para os lados e levantar rápido. O adversário não partiu para cima, e o Orlando ficou sem entender por que o aluno não se levantava.
Três meses depois, os dois estavam juntos nos Estados Unidos. Subiram numa árvore para conversar, e o Orlando perguntou. Segundo ele, a resposta do Rickson foi que estava vendo dois japoneses e não sabia qual era o verdadeiro. Os irmãos gritavam, mas ele não podia levantar. Quando voltou a ver um só, levantou, e em menos de um minuto a luta acabou.
“Eu via dois japoneses, não sabia qual era o verdadeiro. Quando houve um só, levantei.”
Orlando Cani, no Pura Connection · 0:47:58
Para o Orlando, aquilo foi tranquilidade pura: respiração equilibrada, cabeça no lugar e corpo relaxado, mesmo tonto no meio do ringue.
Roger, Murilo e Wallid bateram na porta
O Rickson abriu o caminho, e outros vieram atrás. O Orlando contou que o Roger Gracie ligou de Londres antes de lutar com o Buchecha. Estava tenso, com a respiração ruim e preocupado, porque, segundo o Orlando, era dez anos mais velho que o adversário, e o Buchecha era muito forte. O Alexandre Paiva também pediu ajuda por ele. O Roger foi até a casa do Orlando e ficou umas quatro horas trabalhando com ele.
Com o Murilo Bustamante, a lembrança é da primeira luta de vale-tudo dele, no Maracanãzinho. O Murilo chegou perguntando o que fazer, e a resposta foi o olhar de tigre.
“Olhe dentro dos olhos do oponente e sinta pelos olhos o que ele pretende fazer.”
Orlando Cani, no Pura Connection · 0:51:10
O Orlando também citou o Wallid, que segundo ele passou cinco meses treinando com ele antes daquela luta na praia. E contou de um lutador que o procurou dizendo que precisava dele por um mês para disputar um campeonato. No meio da preparação, o Orlando viajou para Machu Picchu e soube pela filha, por telefone, que o aluno tinha sido campeão.
A turma da Alliance aos 17 anos
Outra parte que me pegou foi a lembrança da geração que depois formou a Alliance. Segundo o Orlando, o Fábio Gurgel tinha 17 anos quando chegou para treinar com ele, num grupinho que ganhou horário especial. O Malibu e o Jacaré também fizeram parte daquela turma, ainda muito jovens.
O André, apresentador do Pura Connection, contou que também passou pelo trabalho do Orlando num workshop e que aquilo mudou a forma como ele dá aula de jiu-jitsu.
“Foi um divisor de águas para mim.”
o apresentador, no Pura Connection · 0:54:18
Expirar é o que salva o lutador
A parte técnica da conversa vale para qualquer um que treina. O Orlando explica tudo olhando para os animais. O tigre corre atrás da gazela, não pega, deita e deixa o diafragma trabalhar. O cachorro, quando vai brigar, rosna e solta o ar. Nós, quando ficamos com raiva ou com medo, prendemos a respiração. Segundo ele, isso consome oxigênio e cria tensão muscular.
“Quando você está lutando, você tem que estar sempre usando a expiração.”
Orlando Cani, no Pura Connection · 0:34:46
A receita dele para o atleta é puxar o ar pelo nariz e soltar pela boca, longo, para jogar fora o máximo de gás carbônico. Ele até considera um erro o grito do tenista na hora da raquetada, porque irrita as vias respiratórias e cansa. O cansaço, para o Orlando, é sempre físico e mental ao mesmo tempo: a cabeça ruim trava a respiração, e a respiração travada derruba o corpo.
E tem a parte da cabeça. O Orlando diz que o atleta nunca deveria se preocupar com a vitória ou com a derrota. Numa luta, tudo acontece em frações de segundo, e basta o pensamento sair do foco para perder.
“Se você tem medo de perder, você está com medo de vencer.”
Orlando Cani, no Pura Connection · 0:09:24
O que fica da conversa
Saí da entrevista com a sensação de que muita gente treina jiu-jitsu a vida inteira sem nunca parar para aprender a respirar. O Orlando passou décadas ensinando isso para os melhores, do Rickson ao Roger, e a mensagem dele no fim foi simples: harmonia. No tatame e fora dele, quem respira bem pensa melhor, cansa menos e aguenta a pressão quando o soco vem.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.