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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Jean Feijó, Alexandre Vieira (Blumenau)

Professores de jiu-jitsu revelam o que mais irrita dentro da academia

Dois faixas-pretas de Blumenau falam do aluno sem motivação, do sabe-tudo, do visitante que passa o carro nos iniciantes e de quem não quer pagar a mensalidade.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 2 jan 2021 (1:31:03).

O aluno que diz estar sem motivação, o sabe-tudo, o visitante que chega passando o carro nos iniciantes e o graduado que acha que não precisa mais pagar mensalidade. Essa é a lista de coisas que tiram um professor de jiu-jitsu do sério, segundo dois faixas-pretas de Blumenau ouvidos no podcast do Muito Mais Ação: Jean Feijó, da Aurum Jiu-Jitsu, e Alexandre Vieira, da Checkmat.

Sou professor e assisti à conversa rindo e concordando. Quase tudo o que eles contam acontece em qualquer academia, e o episódio serve tanto para quem ensina quanto para quem treina e quer entender o que se passa na cabeça de quem está do outro lado do tatame.

Motivação é coisa de dentro

O Feijó abriu com o que mais o irrita hoje: o aluno que, no começo, diz que o jiu-jitsu mudou sua vida e, um ano depois, aparece dizendo que está sem motivação para treinar. Segundo ele, ninguém acorda todo dia empolgado para fazer nada, e pior ainda é esperar que a motivação venha do professor.

O Alexandre separou motivação de euforia. A euforia é aquela empolgação de quem começa algo novo e passa. A motivação, explica, é o motivo da ação. Por isso ele anota na ficha de cada aluno por que ele procurou o jiu-jitsu. Quando alguém começa a faltar muito, ele lembra ao aluno o motivo que o levou até ali. Ele também alertou para quem entra na academia querendo viver o sonho de outra pessoa, como o amigo de um competidor que nunca competiu na vida.

O Feijó trouxe uma ideia de um livro que achei ótima: para as coisas ruins a gente não precisa de motivação nenhuma, elas acontecem sozinhas. Para as boas, como treinar e comer bem, é preciso insistir.

O sabe-tudo e o visitante que passa o carro

O primeiro da lista do Alexandre foi o sabe-tudo, o aluno que chega à faixa-marrom ou até à preta sem a humildade de prestar atenção num detalhe da explicação. Para ele, isso atrasa o aprendizado do próprio aluno. Ele citou como exemplo de arrogância um comentário na internet que comparava Rickson Gracie a um faixa-roxa de hoje. Segundo o Alexandre, o Rickson era um fenômeno que enfrentou desafios com poucos recursos e fez uma história gigantesca.

Na mesma conversa, o Alexandre lembrou que a chave de calcanhar ia voltar a ser permitida no jiu-jitsu sem kimono em 2021. Ele contou que só treinou esse ataque quando fez MMA. O Feijó disse que conheceu bem as chaves de perna quando treinava com o Brigadeiro, da luta livre, e que dá pelo menos duas aulas por ano de golpes proibidos em competição, como chave de calcanhar e cervical, porque fazem parte do jiu-jitsu histórico.

Depois veio a pergunta de um seguidor: e o graduado que visita a academia e quer passar o carro nos alunos iniciantes? O Feijó chamou de falta de respeito. Ele recomenda aos alunos que visitem outras academias, mas sempre com humildade. Quando recebe alguém que não conhece, costuma colocar primeiro um aluno menos graduado para sentir o visitante. O Alexandre disse que nunca passou por isso e que acha a comunidade bem mais respeitosa hoje.

E o faixa-azul que está apanhando do marrom? Para o Feijó, a missão é sobreviver e resistir o máximo possível. Ele lembrou que o jiu-jitsu também serve para defesa pessoal e que numa agressão ninguém vai pegar leve. Por isso, na visão dele, o cara grosso e o que amarra têm lugar na academia: ensinam a lidar com a pressão.

Nesse ponto ele citou uma entrevista de Pedro Valente sobre amarração que mudou a visão dele. Segundo o Feijó, o Pedro disse que a competição pune a amarração, mas que, se um cara leve consegue amarrar alguém muito mais pesado ou graduado e não se deixa bater, o jiu-jitsu dele já funcionou.

Quem acha que não evolui e quem cobra faixa

O Feijó acha graça no iniciante com três ou quatro meses de treino que reclama de não evoluir. Ele contou que tem 20 anos de jiu-jitsu e também sente que ainda tem muito a aprender. Para ele, aprender a técnica no treino é uma coisa e aplicar na luta é outra, e o processo é longo. Ele comparou com os amigos que jogam futebol duas vezes por semana: ninguém ali quer se comparar com um jogador profissional.

O assunto seguinte foi o aluno que pede grau ou questiona a graduação do colega. O Feijó foi duro: disse que, no dia em que precisar da opinião de aluno sobre faixa, vai chamar e perguntar. Até lá, a decisão é dele. Segundo o Feijó, dar a faixa-preta é quase assinar como avalista de alguém, e ele já perdeu aluno por não ter dado a preta.

“Quando eu boto a preta na cintura de alguém, eu estou assinando por essa pessoa.”

Jean Feijó, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:57:15

O Alexandre acrescentou um cuidado: proteger o aluno recém-graduado dos comentários de corredor, explicando a ele por que recebeu a faixa. Para ele, quem treina duas vezes por semana, como lazer, merece a graduação tanto quanto quem treina três vezes por dia, cada um no seu tempo.

Sobre desculpas, o Feijó repetiu a frase que diz aos alunos: quem quer dá um jeito, quem não quer arruma desculpa. Ele contou que a própria esposa, que treina na academia, machucou o ombro e continuou treinando só para ele não achar que era desculpa.

“Quem quer dá um jeito, quem não quer arruma desculpa.”

Jean Feijó, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:08:11

Professor de jiu-jitsu é profissão

O último ponto foi o que mais incomoda o Alexandre: o aluno que acha que o professor dá aula por diversão. Ele contou que se formou em Educação Física e decidiu ser professor de jiu-jitsu para passar o conhecimento e ser remunerado por isso. Disse também que paga mensalidade desde que começou a treinar, com muita honra.

“Eu me considero um profissional dessa modalidade.”

Alexandre Vieira (Blumenau), no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:13:53

O Feijó explicou que isso vem da cultura antiga, quando a academia funcionava como um clube e alguém perguntava quem ia puxar o treino do dia. Segundo ele, isso está mudando porque os professores passaram a trabalhar com metodologia e o aluno percebe o valor. Ele contou ainda que tem alguém que faz a cobrança por ele, justamente para não misturar a relação com o aluno.

O apresentador lembrou uma história que ouviu do ator Cássio Reis sobre entrar numa academia antiga e dar de cara com Carlão Barreto, Vitor Belfort e Murilo Bustamante treinando. Um ambiente intimidador, como disseram, bem diferente do que um empresário que busca uma válvula de escape espera encontrar hoje. Para o Alexandre, que começou a treinar aos 10 anos, aquele era o público que as academias atraíam na época.

O que fica, para mim, é que as irritações do professor quase sempre escondem uma preocupação com o aluno. O sabe-tudo, o que dá desculpa e o que desiste na primeira semana ruim estão perdendo a chance de evoluir. E quem ensina, como os dois deixaram claro, precisa ter coragem para decidir, cobrar e sustentar as próprias escolhas.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.