Podcast Nem Me Viu · Rafael dos Anjos
Rafael dos Anjos conta o pé quebrado que tirou a luta milionária do UFC
No Nem Me Viu, o ex-campeão peso leve do UFC fala da lesão a 12 dias da luta, do cinturão conquistado com o joelho machucado e de como começou no MMA por 600 reais.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 17 ago 2022 (1:55:18).
Faltavam 12 dias. Rafael dos Anjos era o campeão peso leve do UFC, estava no polimento final do camp e ia enfrentar Conor McGregor, que subia do peso pena para tentar o cinturão dele. No último sparring, um chute bloqueado quebrou o pé do brasileiro, e a luta mais rica da carreira dele acabou ali. Em 2016, segundo ele, a bolsa fixa era quase três vezes o que ganhava como campeão, e com o pay-per-view a conta podia chegar perto de 5 milhões de dólares.
Assisti ao segundo episódio do Nem Me Viu, o podcast de Fabricio Werdum, e o Rafa contou essa história com uma calma que me impressionou. Ele diz que nem pensou no dinheiro que estava perdendo. O que pegou foi a cabeça.
“Foi a parte hormonal. A mesma vontade de lutar, de você estar a mil, e de mil a zero, ficar em casa sentado com o pé para o alto.”
Rafael dos Anjos, no Podcast Nem Me Viu · 0:40:52
O sparring que ele não queria fazer
O detalhe mais curioso é que o Rafa já tinha pedido para tirar do camp o parceiro que acabou quebrando o pé dele. Segundo ele, dias antes o rapaz tinha dado um chute rodado maluco, errou, caiu no chão, e ele comentou com o treinador que o achava estabanado demais. O cara foi afastado, mas no último sparring, no quinto round, os parceiros foram sendo divididos e só sobrou ele. O Rafa contou que não quis ser grosso e recusar. Chutou, o rapaz bloqueou e o pé quebrou.
Ele disse que chegou a falar com o UFC que, se fosse só não conseguir chutar, lutaria assim mesmo. O problema é que não conseguia nem andar: teria de chegar ao octógono de muletas. Mesmo assim, o Rafa acredita que essa luta ainda tem chance de acontecer no futuro.
O cinturão veio com o joelho estourado e uma página da Bíblia
Se a luta com o McGregor foi embora por lesão, o cinturão peso leve veio apesar de outra. O Rafa contou que, na última semana de camp antes de enfrentar Anthony Pettis, estourou o ligamento colateral medial do joelho no último sparring. Não conseguia descer escada nem se deslocar para os lados, fez o corte de peso caminhando e treinou só manopla de mão.
Uma madrugada, descendo a escada de casa com dor, ele decidiu ligar para o empresário e cancelar. Antes, fez o que a mãe ensinou: orou, abriu a Bíblia numa página aleatória e pôs o dedo num versículo. Segundo ele, caiu em Ezequiel 37, no trecho que fala em reconstituir tendões e pele. Ali ele virou a chave, dormiu em paz e foi lutar. Contou que não sentiu nada nos cinco rounds e ganhou o cinturão. Ele lembrou ainda que o evento tinha o apelido do adversário, Showtime, e que o cartaz mostrava a cabecinha dele pequena ao lado do americano grandão.
“Falei: meu irmão, vou lutar. A partir daquele momento ali eu virei a chave.”
Rafael dos Anjos, no Podcast Nem Me Viu · 1:18:18
600 reais, um ônibus e uma derrota na estreia
A parte que eu mais gostei foi a do começo. O Rafa morava com o pai em Belo Horizonte, dava aula de jiu-jitsu cobrando 30 reais por aluno e não tinha condição nenhuma de alimentação ou acompanhamento médico. O pai bancava a casa e levava a turma da academia de van para os campeonatos.
Com 19 anos, recebeu numa quarta-feira a ligação de um tal Ebenézer oferecendo uma luta de MMA no sábado. Nunca tinha colocado uma luva de MMA. A proposta era 600 reais para lutar e mil se ganhasse. Ele pegou o ônibus para Juiz de Fora e perdeu. Duas semanas depois lutou de novo, ainda com o olho marcado da primeira.
Depois veio uma temporada na Europa: foi disputar o Europeu de jiu-jitsu em Lisboa com 300 euros no bolso e acabou ficando seis meses dando aula numa academia na Alemanha. Na volta, com 21 anos e quatro lutas de MMA, decidiu que não queria ser só professor. Foi morar com a mãe em Niterói e atravessava a ponte todo dia de Honda Biz para treinar na Barra da Tijuca, onde conseguiu uma bolsa na academia.
A virada, segundo ele, foi num GP de um evento chamado XFC, no Rio. Ele estava no hospital tomando soro quando o empresário ligou com a notícia boa (ia lutar no fim de semana) e a ruim (seriam duas lutas na mesma noite). Ganhou as duas, levou mil dólares e, na mesma noite, conheceu a Cris, com quem é casado há 15 anos. Mais tarde, diante da escolha entre o Sengoku, no Japão, que pagava melhor, e o UFC, ficou com o UFC por ser um evento mais sólido.
O Rafa também foi honesto sobre os erros. Contou que sempre treinou dois horários, mas saía muito à noite, e acha que isso atrasou a chegada ao objetivo e custou resultados melhores no jiu-jitsu. O pai reclamava, ele achava o pai chato, e hoje quer ir a Belo Horizonte dizer que ele tinha razão.
Treinar menos para render mais
Hoje, aos 37 anos e com mais de 40 lutas, o Rafa voltou a morar no Brasil depois de dez anos na Califórnia. Ele contou que um camp com André Pederneiras, o Dedé, antes da luta com Paul Felder, o convenceu. Para ele, o Dedé é um head coach de verdade, que cuida de chão, trocação, parte física e fala até com o médico e o dentista do atleta. No Brasil também descobriram uma hérnia esportiva que vários médicos nos Estados Unidos não tinham achado.
Ao lado dele está Paulo Caruso, seu treinador de antes da mudança para os Estados Unidos, faixa-preta de judô e de jiu-jitsu. Os dois decidiram fazer camps de seis semanas, menores que os de oito a dez que o Dedé preferia. A lógica, segundo o Rafa, é a do corredor de 100 metros, que não treina para maratona. Ele diz que tem treinado menos e rendido mais.
“O lutador é uma vela acesa. Se deixar aquela vela acesa o tempo inteiro, ela vai acabar muito mais rápido.”
Rafael dos Anjos, no Podcast Nem Me Viu · 0:20:53
Ele também contou que, com três lutas restantes no contrato, procurou Dana White para renegociar. O presidente do UFC mandou áudios agradecendo e, em vez de mexer nas três, deu um contrato novo de seis lutas.
Khabib, Diaz e o top 5 dos pesos leves
Sobre a derrota para Khabib Nurmagomedov, o Rafa fez questão de dizer que não era desculpa. Três meses antes, num sparring, a orelha dele ficou presa na grade e rasgou: levou 14 pontos. Demorou de quatro a seis semanas para ter confiança de treinar agarrado de novo e acabou fazendo um camp quase só de muay thai. Na luta, o Khabib o controlou e ele não conseguiu sair de baixo.
Teve espaço até para história de hotel. Depois de vencer Nate Diaz, que não bateu o peso e o empurrou após a luta, o Rafa percebeu alguém seguindo ele pelo corredor e viu que era Nick Diaz. Ele esperou parado até o outro ir embora, para não mostrar qual era o quarto dele.
No top 5 da história do peso leve, ele pôs BJ Penn em primeiro, por ter sido campeão de duas categorias, e Frankie Edgar em segundo, lembrando que o americano lutava na categoria sem precisar cortar peso. Citou o Khabib também, que para ele se aposentou no auge depois da morte do pai. E fechou com uma opinião que eu assino: a categoria dos 70 kg é a mais difícil do UFC, porque qualquer um do top 10 pode ser campeão.
O que fica da conversa
O episódio foi ao vivo, com problema de som e muita brincadeira do Werdum, mas o Rafa entregou uma coisa rara: um campeão falando sem pose de derrota, de lesão e de dinheiro. Tinha acabado de perder no quinto round e disse que no outro dia o sol nasceu de novo. No fim, a mulher dele mandou um vídeo e um amigo de mais de 20 anos, do tempo da faixa-azul, lembrou as viagens de van de BH para os campeonatos no Rio. O Rafa resumiu: tudo isso é por eles.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.