Podcast Nem Me Viu · Rangel Farias
Rangel Farias explica por que o Muay Thai precisa de adaptação no MMA
O treinador de Florianópolis conta como saiu do taekwondo, analisa Charles, Poatan e Adesanya, e ouve o Werdum lembrar o jiu-jitsu da juventude.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 21 nov 2022 (1:47:45).
O Rangel Farias tem um exemplo pronto para quem duvida do jeito que ele ensina. Ele lembra a luta do ONE em que o melhor lutador de Muay Thai do evento, o Rodtang, enfrentou o melhor do MMA, o Demetrious Johnson, em rounds alternados. No primeiro, de Muay Thai, o tailandês quase nocauteou. No segundo, de MMA, veio um bote certeiro e acabou ali.
“Não tinha adaptação ao jogo, não sabia bater e andar, era só para frente.”
Rangel Farias, no Podcast Nem Me Viu · 0:33:18
Foi com esse assunto que o treinador de Florianópolis sentou no Nem Me Viu com o Fabrício Werdum, que treinou com ele quando se mudou para a ilha, no fim da carreira. Assisti ao episódio e gostei muito de como o Rangel fala de técnica sem enrolação. E de quebra o Werdum contou histórias do jiu-jitsu dele que eu não conhecia.
Do taekwondo ao Muay Thai para MMA
O Rangel contou que a arte marcial entrou na vida dele em 1995, quando foi buscar o irmão num treino de taekwondo e nunca mais parou. Pegou a faixa-preta em quatro para cinco anos e entrou logo na seleção brasileira. Segundo ele, foi campeão brasileiro algumas vezes, sul-americano e pan-americano, e só faltou o título mundial.
Ele diz que o esporte serviu para dominar um monstro que tinha dentro de si. Hoje, no galpão que montou num espaço cedido pela família, sem aluguel, ele dá bolsas para meninos das áreas de risco do sul da ilha. A explicação dele é direta: o adolescente quer adrenalina, e quem não acha na luta pode achar no crime.
Ele lembrou que Rafael Cordeiro tinha acabado de gravar com o Werdum e comentado que muitos praticantes de Muay Thai no Brasil vieram do taekwondo. Entre os mentores, o Rangel citou o primeiro professor, Adriano Zanotto, e um colega que virou o principal rival dele no taekwondo depois da faixa-preta.
O que muda do ringue para o octógono
O ponto central da conversa é postura. O Rangel explicou que, como atleta, ficava muito mais solto no kickboxing. No MMA, a base precisa defender queda, e isso tira liberdade do chute, tanto pelo risco de ter a perna agarrada quanto pelo posicionamento do corpo. Treinar manopla com um professor de Muay Thai sem essa adaptação, disse, só serve para condicionamento, e pode até atrapalhar a postura na luta.
Os dois concordaram que, entre atletas do mesmo nível técnico, a parte física pesa uns 70%. E que acabou o tempo do confronto de estilos: quem vai representar só um estilo já sai atrás. O Werdum admitiu que é horrível na base canhota porque na época dele não se treinava dos dois lados.
“Tu não pode lutar contra oito, tu luta contra o mínimo possível.”
Rangel Farias, no Podcast Nem Me Viu · 1:10:06
O Rangel explicou o que chama de leitura de luta: para cada golpe, entender quais devoluções são mais prováveis e se preparar para elas. Uma regra dele é nunca abrir com o chute. E sobre quem quer chutar alto, ele diz que não há palavra mágica: é trabalho de mobilidade e força para vencer um reflexo do corpo que trava a perna.
O jiu-jitsu do Werdum e a luta no Marrocos
O Werdum contou que começou no jiu-jitsu em 1998 e que foi campeão mundial logo no primeiro e no segundo ano de faixa-preta. Ele e o amigo Mário Reis fizeram o caminho juntos: foram bem nas faixas de baixo, mas nenhum dos dois foi campeão na marrom. Quando pegaram a preta, ouviram que não mereciam. Sete meses depois, segundo o Werdum, os dois foram campeões mundiais.
Ele também lembrou uma luta de free fight no Marrocos, só com golpes no corpo, com o irmão e o Sylvio Behring no canto. O adversário, um francês, aquecia chutando forte para impressionar. O Werdum colou, derrubou e finalizou num triângulo de braço. Depois o francês o desafiou para uma luta de grappling em Barcelona, num campeonato do Robin Gracie, e o Werdum venceu de novo, com uma americana.
No meio da gravação chegou uma lembrança: um amigo avisou que naquele dia fazia 20 anos da faixa-preta do Werdum, pega junto com ele. Era também aniversário do mestre Flávio Behring, pai do Sylvio.
Charles, Poatan e a troca de adversário na pesagem
No quadro de opiniões do programa, o Rangel analisou o Charles do Bronx com olho de treinador. Para ele, o Charles pisou por dentro seguidamente, com a base aberta, e se posicionou onde não devia. Se corrigir isso, é quem pode fazer frente ao russo que tinha o cinturão.
Sobre o Poatan, o Rangel contou que ficou impressionado com o foco: o lutador disse a ele que já tinha visualizado tudo e que ia nocautear. Na opinião do treinador, faltaram dois segundos para o Adesanya acabar a luta no primeiro round, mas o brasileiro voltou bem preparado. Ele também disse ter feito o camp do Paulo Borrachinha e descreveu o lutador como alguém que vive o esporte 24 horas e é muito ligado à família.
A história mais bonita veio quando apareceu a foto do Rafael Cordeiro. O Rangel contou que, na luta mais importante da vida dele, aos 28 anos, o adversário foi trocado na hora da pesagem por um lutador que vinha de oito vitórias seguidas. Ele gelou. O Rafael, segundo o Rangel, olhou para ele e mandou ir, que estava pronto.
O que fica
Saí da conversa com a impressão de que o Rangel é um professor que pensa a luta como xadrez. Ele fala de pé de apoio, de meio passo, de reflexo do músculo, e ao mesmo tempo de tirar menino da rua. Para quem treina Muay Thai pensando em MMA, a lição é simples: a técnica bonita do ringue precisa ser ajustada para quem pode ser derrubado.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.