Pura Connection · Ricardo Libório
Ricardo Libório troca rotina de lutas por aulas de jiu-jitsu para crianças
Cofundador da Brazilian Top Team e da American Top Team, ele conta como levou o jiu-jitsu para uma universidade americana e por que hoje só quer viver bem.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 28 mar 2024 (1:24:07).
Durante anos, a semana de Ricardo Libório tinha sempre o mesmo roteiro. Quarta viajava com um lutador, quinta ajudava a perder peso, sexta pesava, sábado era a luta e domingo voltava para casa. Segundo ele, foram mais de 100 lutadores. Hoje, depois de passar pela equipe de Carlson Gracie, pela Brazilian Top Team e pela American Top Team, ele conta no Pura Connection que o que mais o acende é dar aula para criança.
“Uma coisa que eu nunca pude fazer e que estou fazendo agora é dar aula para criança. Isso me acende de uma forma que eu não tinha noção.”
Ricardo Libório, no Pura Connection · 1:08:24
Assisti à conversa e o que me pegou foi a calma. Libório fala de negócio, de pedagogia, de universidade americana e de ego, mas sempre volta ao mesmo ponto: o jiu-jitsu brasileiro tem uma coisa que o resto do mundo quer, e a gente ainda sabe pouco organizar isso.
Do Banco do Brasil ao tatame do Carlson
Pouca gente sabe que Libório era concursado do Banco do Brasil. Ele contou que passou no concurso para gerente, tinha carreira garantida e, mesmo assim, saiu. Segundo ele, foi uma calamidade em casa: a mãe chorou, e o pai, que se aposentou como superintendente do banco, amava aquele trabalho. Libório contou que o pai morreu de derrame cinco anos depois de se aposentar, e ele liga isso ao fim da paixão.
“Eu nunca ia ser bom naquilo. Podia ganhar dinheiro, mas nunca ia amar.”
Ricardo Libório, no Pura Connection · 0:41:51
O jiu-jitsu que ele escolheu era duro. Libório lembrou da academia de Carlson como um lugar onde não havia como não apanhar. A escolha era voltar no dia seguinte ou desistir. Ele voltava porque amava aquilo, e os amigos dele estavam todos ali: nomes como Peixotinho, De La Riva, Pinduca, Murilo e Bolão, que ele chama de ídolos. Carlson, para ele, foi o mentor e o grande maestro disso tudo.
Libório também disse que teve sorte de pegar a federação que Carlinhos Gracie criou, e com ela foi campeão brasileiro, campeão mundial e lutou o ADCC. Mesmo quando André lembrou que todo mundo da equipe Carlson o descreve como o mais duro do grupo, ele recusou o rótulo: diz que era bom tecnicamente, mas nunca foi de cara feia.
Jiu-jitsu com crédito na universidade
Depois que saiu da ATT, Libório se mudou para Orlando. O motivo foi familiar: segundo ele, a filha, que é deficiente visual e foi identificada como aluna superdotada, precisava de um programa de ensino adequado, e Orlando tinha um dos melhores da Flórida. Ele foi morar ao lado da University of Central Florida, que tem 78 mil alunos.
Lá ele encontrou o Dr. Fukuda, faixa-preta de judô e faixa-roxa de jiu-jitsu, que chefiava a área de educação física da universidade. Segundo Libório, a faculdade tinha judô, mas nunca tinha tido jiu-jitsu como disciplina com crédito acadêmico. Ele montou o programa, teve que provar a experiência que tinha e começou com uma aula. Hoje, contou, são seis aulas por semana, e o clube de jiu-jitsu brasileiro que ele criou com seis alunos virou o maior clube esportivo da universidade, com 750 membros.
“É o único produto de exportação brasileiro onde o brasileiro é tido como mestre.”
Ricardo Libório, no Pura Connection · 0:24:34
Para ele, o que encanta o americano é o jeito brasileiro: o abraço, o interesse por como o outro está, o hábito de dividir. Na universidade, os alunos fecham o semestre com churrasco, açaí, pão de queijo e tentando falar português. Ele contou que muitos desses alunos, aos 18 anos, nem sabiam se no Brasil se falava português ou espanhol.
Pedagogia, comunidade e o recado para os professores
Libório acha que o jiu-jitsu está uns 50 anos atrás de outras artes marciais na parte de ensinar. Segundo ele, só 3% dos praticantes competem com frequência, e os outros 97% treinam por saúde, terapia ou educação. Por isso ele defende formar professores, ter manuais de marketing, venda, aula e retenção, e ensinar a história aos alunos, incluindo quem são os fundadores. Ele deixou claro que isso não é papel da IBJJF, que ele vê como uma organizadora de eventos de alto nível.
Ele deu exemplos práticos. A aula de criança nunca termina com luta, porque metade perde e alguém sai chorando; termina com brincadeira. A graduação é sempre no Dia das Mães, com as mães entregando as faixas. No Dia dos Namorados, os pais deixam os filhos dormindo no tatame até meia-noite. Libório usou até Marcelo Garcia para ilustrar: segundo ele, mesmo um campeão desse tamanho não vende nada se não houver alguém cuidando do negócio.
Ele também contou que está abrindo uma academia na Medical City, em Orlando, em parceria com uma neurologista que atende pacientes com Parkinson e outras condições neurológicas. O projeto, segundo ele, ainda está em fase de teste.
Confiança é saber que vai sobreviver
Libório está trazendo os alunos americanos para uma graduação no Rio. Ele contou que o americano tem medo da violência da cidade, mas que queria que eles andassem na rua, sentissem o calor das pessoas e conhecessem os mestres dele. Também disse que espera que os brasileiros não precisem sair do país para ter o sucesso que teriam lá fora.
“Confiança não está em saber que você vai ganhar. Está em saber que, se você perder, vai sobreviver.”
Ricardo Libório, no Pura Connection · 1:15:14
O que fica da conversa é um homem que já viveu todas as metas que o jiu-jitsu competitivo oferece e resolveu trocar de objetivo. Ele disse que hoje o gol dele é viver bem, em paz, com gente de quem gosta, e que parar de ser aluno, para ele, é morrer. Vindo de alguém que passou a vida no canto do ringue, é um recado que vale ouvir.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.