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Pura Connection · Rogério Minotouro

Rogério Minotouro revela os treinos da BTT que o levaram ao Pride e ao UFC

Do quimono no De La Riva à seleção brasileira de boxe, o gêmeo de Minotauro conta como se preparava para a era mais dura do MMA.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 28 jun 2026 (1:51:13).

Faltava um semestre para Rogério Minotouro se formar na Gama Filho quando ele trancou a faculdade. Segundo ele, não dava mais para treinar de manhã, levar porrada à noite, trabalhar e ainda estudar. Poucos anos depois de dar treino de faixa-marrom no Rio, ele estava no Pride, dividindo evento com campeões russos de wrestling e medalhistas olímpicos. Nunca voltou para terminar o curso.

O André, dono do Pura Connection, treinou com o Rogério naquela época, quando os dois eram faixas-marrons, e a conversa tem esse clima de reencontro. Assisti e o que mais me chamou atenção foi a clareza com que ele explica o que fazia a diferença: o ambiente de treino, o estudo do adversário e a cabeça no dia da luta. Ele se aposentou em 2020, com 44 anos, lutando no UFC.

Do quimono no De La Riva à BTT

O começo no Rio, segundo o Rogério, foi com De La Riva, que tinha paciência para ensinar guarda. Ele ia também, pelo menos uma vez por semana, à academia do Brigadeiro, que ensinava as passagens com pressão, meio de judoca. O Rogério gostava de treinar nos dois lugares justamente para pegar jogos diferentes.

Ele defende o quimono como base de quem vai para o MMA. Na visão dele, o quimono refina o jogo e dá uma isometria que quem só treinou sem ele não tem. O Rogério competiu da branca à marrom no Brasileiro de Equipes, no estadual e no Brasileiro, e quase não lutou de faixa-preta: pegou a preta e estreou no MMA.

Por volta de 2000, ele entrou no grupo que depois virou a BTT, puxado por Murilo Bustamante. Olhava para o lado e via Arona, Paulão, Zé Mário e o próprio Murilo. Segundo ele, chegava em casa quebrado todo dia, e na quinta-feira já estava morto.

Ele lembra de ter chegado da Bahia ganhando tudo e ter tomado um passeio do Paulão no primeiro treino. Sentou sem entender nada. Na conta do Rogério, era gente que vinha do judô e do jiu-jitsu e competia em tudo. Ele cita Amaury Bitetti, que segundo ele ganhou num mesmo dia o juvenil e o adulto, peso e absoluto.

“Se você for bom de quimono, sem quimono vai ficar mais fácil.”

Rogério Minotouro, no Pura Connection · 0:39:18

Os treinos que prepararam a guarda para a porrada

O André lembra que o Rogério e o irmão, Rodrigo Minotauro, tinham uma guarda de vale-tudo muito eficiente, coisa que pouca gente fazia. O Rogério explica de onde veio. O Murilo fazia um treino de bloqueio de guarda: você ficava por baixo, e a cada minuto entrava um cara novo por cima, de luva de boxe, batendo. Era defender ou apanhar.

O mestre Luiz Alves, do muay thai, tinha outro treino parecido. A cada 30 segundos ou um minuto entrava um parceiro descansado na mesma posição, e se você estava por baixo, continuava por baixo. No último mês antes da luta, o número de parceiros ia caindo de cinco para um, e aí o Rogério sentia que dava conta.

Isso tinha uma razão. No Pride, o primeiro round era de 10 minutos, e havia pisão e tiro de meta na cabeça. Segundo ele, os lutadores da Chute Boxe, como Shogun e Wanderlei, pisavam muito, e era preciso uma guarda capaz de tirar o pisão. A BTT, na lembrança dele, usava mais finalização. Ele se define, junto com o irmão, como lutador de segundo e terceiro rounds: apanhava no primeiro, cansava o adversário e virava depois.

Sobre a luta com o Shogun, ele diz que foi dura para os dois lados. Ganhou o primeiro round, o segundo foi parelho, e no terceiro, com a luta na mão, tomou um knockdown faltando cerca de um minuto.

A seleção de boxe e os russos na academia

O salto na trocação veio do boxe. O Rogério treinou com Luiz Dórea, a quem conheceu na Bahia, e com ele foi para a seleção brasileira de boxe. Segundo ele, foi campeão brasileiro em 2005, campeão sul-americano e fez cinco, seis lutas em Cuba contra os cubanos. Quando voltou ao MMA, em 2007 ou 2008, era outra pessoa em pé.

No começo, ele conta, levou um jab na barriga de um gaúcho da seleção e ficou sem ar. A primeira meta virou bater no gaúcho. Pouco tempo depois, derrubou o rapaz.

Para o wrestling, o treinador Sérgio Cunha trouxe dois lutadores olímpicos, um da seleção inglesa e um da canadense, este um russo naturalizado. Segundo o Rogério, ele caía umas dez vezes a cada cinco minutos. Com quatro meses parou de cair. Com seis, já derrubava os caras.

Ele também dá crédito ao Zé Mário, que chegava na casa dele às 8 da manhã para acordá-lo para treinar, cuidava de alimentação e horário e mandou ele estudar inglês para negociar com os japoneses. E ao Paquetá, que juntava as lutas dos adversários em fita, cortadas por round, para ele estudar quedas e chutes.

“O conceito de alta performance é você se destacar no meio onde você está.”

Rogério Minotouro, no Pura Connection · 0:47:03

Cabeça é 60% da luta

Para o Rogério, a luta é 60% mental e 40% treino. Ele conta de uma derrota em 2002, na Califórnia, para um medalhista olímpico de greco-romana, quando ainda tinha duas lutas de MMA. Seis anos depois veio a revanche. Tomou um cruzado, viu três adversários na frente, respirou, se manteve presente e ganhou. Segundo ele, foi a respiração que evitou o desespero.

Ele usa como exemplo o Anderson Silva, que, segundo o Rogério, aceitou em cima da hora uma luta com Daniel Cormier depois de três meses sem treinar por causa de uma cirurgia, e aguentou os 15 minutos, perdendo nos pontos.

O corpo também cobra. O Rogério conta que o trabalho com Álvaro Romano e Rafael Romano, de ginástica natural, respiração e recuperação, lhe deu uns quatro ou cinco anos a mais de carreira. Entre os 35 e os 44, ele trocou parte da carga por natação, alongamento e descanso.

Jiu-jitsu obrigatório nas escolas

Hoje, o sonho dele é que o jiu-jitsu seja matéria obrigatória nas escolas do Brasil, como ele diz que acontece em Abu Dhabi. O projeto já passou por Belo Horizonte, Ribeirão das Neves, Vitória da Conquista e Barra do Choça, e tem núcleos no Alemão, no Jacarezinho e na Rocinha, este último para 200 a 300 crianças.

A metodologia, segundo ele, tem uma plataforma em que o professor recebe as aulas da semana, a brincadeira do dia e o "momento do mestre", com um tema por mês, como autocontrole e respeito. No fim da aula, a criança recita um juramento de que vai usar o que aprendeu só para se defender. O Rogério conta de alunos que saíram do tráfico e viraram gerente de banco e de lanchonete.

Saí da conversa pensando que o Rogério de hoje fala de valores com a mesma seriedade com que falava de gás e de estratégia. A lição que ele tirou da época do Pride é a mesma que tenta passar para as crianças: treinar tudo o que precisa, entrar presente e não entregar a luta na cabeça.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.