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Pura Connection · Royler Gracie

Royler Gracie conta como perdeu o ADCC depois de largar o quimono

Campeão três vezes seguidas treinando quase só de quimono, o filho de Hélio Gracie diz que o conforto sem ele custou o quarto título.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 31 jan 2022 (1:15:43).

Royler Gracie ganhou o torneio de Abu Dhabi, o ADCC, três vezes seguidas treinando quase só de quimono. Na quarta, resolveu se dedicar ao sem quimono dois meses antes. Perdeu. Na conversa com o André no Pura Connection, ele contou essa história sem rodeio e tirou dela uma lição que vale para qualquer lutador: sair do lugar onde você é forte pode ser mais perigoso do que parece.

Assisti à entrevista e gostei muito do jeito direto do Royler. Ele fala de competição, de defesa pessoal, do pai, o Hélio, e de como começou a dar aula ainda garoto limpando banheiro na academia. Separei o que mais rendeu.

Três títulos de quimono e uma derrota sem ele

O Royler contou que, no primeiro Abu Dhabi, foi chamado para lutar duas semanas antes. Não treinou nada específico, não conhecia nem a regra, e foi campeão. No segundo, tirou três semanas para treinar sem quimono e ganhou de novo. No terceiro, um mês. Campeão outra vez.

“No primeiro Abu Dhabi, eu fui chamado duas semanas antes. Eu não sabia nem qual era a regra e fui campeão.”

Royler Gracie, no Pura Connection · 0:55:43

No quarto, ele largou o quimono dois meses antes da competição e perdeu. Para o Royler, o quimono dá muito mais detalhe técnico, e quem tem habilidade de jiu-jitsu consegue levar isso para o sem quimono com facilidade. O problema, segundo ele, foi outro: sair do campo de conforto e se sentir confortável demais no campo novo.

“Talvez isso tenha me sobrepujado, ficar muito confortável achando que eu era o cara. E aí eu paguei.”

Royler Gracie, no Pura Connection · 0:56:46

Ele comparou com o lutador de vale-tudo que ouve o professor de boxe dizer que está derrubando todo mundo em pé. Aquilo entra na cabeça, o cara passa a trocar soco e deixa de lado a arma mais forte, que é o jiu-jitsu.

O ano de 1999 e a luta com Sakuraba

Para mostrar como o lutador de quimono se adapta, o Royler lembrou um ano muito forte da carreira, no fim dos anos 1990. Segundo ele, foi campeão carioca, pan-americano e mundial de jiu-jitsu, ganhou o Abu Dhabi sem quimono e, no fim do ano, lutou com Sakuraba no vale-tudo. Três regras completamente diferentes no mesmo ano.

Ele também contou que, no último Mundial que disputou, estava voando baixo porque sabia tudo da regra. Brincava com o juiz e com a torcida, e conseguia botar na cabeça do árbitro uma dúvida sobre lances que às vezes nem eram ponto. Para quem é do meio, é um retrato engraçado de como a competição virou jogo de detalhe.

E lembrou os campeonatos da infância, quando a luta estava marcada e o tatame ainda estava sendo carregado de caminhão. Segundo ele, no Mello Tênis Clube, o moleque ia jogar bola na quadra enquanto montavam o tatame e era chamado para lutar na hora. Hoje, com áreas numeradas e horário para tudo, ele diz que o jiu-jitsu competitivo se organizou muito.

Hélio Gracie: aprender a se defender primeiro

O Royler insistiu que a competição nunca foi o objetivo do pai. Segundo ele, o Hélio nunca disse que o filho seria campeão. A medalha virou consequência.

“Meu pai nunca falou para mim que eu ia ser campeão. Ele falava que você tem que aprender a se defender.”

Royler Gracie, no Pura Connection · 0:51:01

Ele contou uma cena de treino que diz muito. O Hélio olhou para ele rolando e disse que ele estava tranquilo demais. O Royler não entendeu. O pai explicou: ele estava dando o rosto para o outro bater. Na competição ninguém soca, então o atleta relaxa. Numa briga de verdade, isso custa caro. Para o Royler, o faixa-preta pode competir ou não, mas tem que saber defesa pessoal.

“Essas medalhas vão ficar na parede. Na rua, ninguém sabe que faixa você é.”

Royler Gracie, no Pura Connection · 0:53:06

Outra regra do Hélio que ele repete: toda vez que alguém se machuca no treino, a culpa é do mais graduado, porque é ele quem tem que controlar a força. E outra ainda: para ser aluno, tem que ser amigo primeiro. Sobre a relação do pai com Carlos Gracie, o Royler contou que nunca ouviu o Hélio dizer que o irmão estava errado. O que o Carlos falava, o Hélio fazia.

O contrato de 35 anos que começou no banheiro

Aos 13 ou 14 anos, num domingo em casa, o Royler disse ao pai que queria ser professor. O Hélio respondeu que então ele estaria na academia na segunda às sete da manhã e ficaria até o último aluno sair, com duas horas de almoço. O Royler achava que ia trabalhar meio expediente e surfar no outro. Não foi assim.

“Quando eu falei com ele isso, eu assinei um contrato de 35 anos.”

Royler Gracie, no Pura Connection · 0:22:12

O primeiro serviço foi limpar o banheiro. O pai olhou e mandou fazer de novo. Ele lembra de ter limpado três ou quatro vezes seguidas até ficar bom. Ser Gracie, segundo ele, não dava privilégio nenhum. Depois veio o cargo de assistente, as aulas, e o gosto pela profissão. O Royler diz que nunca bebeu nem fumou, e que deixava de sair para festa para treinar no dia seguinte.

Polícia, estrada e o que fica da conversa

Hoje, nos Estados Unidos, o Royler dá cursos de cinco dias para policiais, focados em controle da própria arma. Ele contou que esse trabalho também é feito por Royce e outros irmãos, e que veio do pai. Pela estatística que ele citou, algo entre 60% e 65% dos policiais mortos no país morrem com a própria arma.

A conversa começou pela viagem de carro que ele fez saindo de San Diego rumo ao Brasil, parada na Colômbia. Segundo o Royler, o jiu-jitsu funcionou como passaporte: na Nicarágua, a polícia apareceu no hotel com ordem do chefe, fã de jiu-jitsu e da família, e escoltou o carro por quatro horas até a fronteira. Na Guatemala, um seminário marcado de véspera e alunos ligados aos Valente abriram portas pelo país.

O que fica é a visão de um campeão que nunca separou o esporte da raiz. O Royler ganhou quase tudo que disputou, mas fala de defesa pessoal, de disciplina e de humildade com a mesma energia com que fala das medalhas. E a derrota no quarto ADCC, contada por ele mesmo, é talvez a melhor aula da entrevista.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.