Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Tainan Dalpra
Tainan Dalpra diz que viver de patrocínio no jiu-jitsu é uma ilusão
Faixa-preta aos 20 anos, o aluno de Guilherme Mendes explica como divide a vida entre competir, dar aula e construir o próprio nome.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 5 jul 2021 (2:04:02).
Tainan Dalpra tinha acabado de pegar a faixa-preta, aos 20 anos, quando sentou para uma live de duas horas no B-Cast. E a coisa mais forte que ele disse não teve nada a ver com técnica. Para o Tainan, o atleta que conta com patrocínio para se sustentar depois que parar de lutar está se enganando.
“Esperar que o patrocínio vai sustentar minha família depois que eu parar de competir, acho que isso é uma ilusão.”
Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:29:24
Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi a clareza de alguém tão novo. Ele fala de marca, de produto e de cliente com a mesma naturalidade com que outros atletas da idade dele falam de campeonato. Ele mesmo explica de onde vem essa cabeça: do professor Guilherme Mendes e dos pais, que são empresários no Brasil.
De Florianópolis aos Estados Unidos
A família da mãe é de Florianópolis, e foi lá que ele começou a treinar, aos 15 anos. Quem levou foi o pai, que sempre gostou de esporte e entrou no jiu-jitsu primeiro. Como não havia turma infantil onde eles treinavam, o Tainan passou a acompanhar o pai nos treinos da tarde. Segundo ele, dividir o tatame com o filho foi a maior realização do pai naquele começo.
A mudança para os Estados Unidos foi pensada. Ele contou que passou uma temporada lá em 2014, voltou ao Brasil para ter certeza de que não estava enganado na avaliação e se mudou de vez em 2015. O motivo, disse, foi o treino, mas também as oportunidades: nos Estados Unidos ele viu o atleta sendo valorizado pelo trabalho, coisa que não enxergava no Brasil naquela época.
Ele admite que, se tivesse ficado, provavelmente seria outro atleta. No Brasil a cabeça dele estava toda voltada para títulos: Mundial, Pan-Americano, Europeu. Para o Tainan, o risco era focar só nisso, deixar a carreira profissional de lado e chegar à aposentadoria sem saber viver do jiu-jitsu.
O que aprendeu com Guilherme Mendes
O Tainan contou que ele e o professor sempre planejaram a carreira com cinco a dez anos de antecedência. Hoje, além de competir em tudo, ele faz o que chamou de faculdade de jiu-jitsu dentro da academia: aprende a dar aula e a ganhar dinheiro com o esporte. Daqui a cinco ou dez anos, se vê dando aula, cuidando do lado de negócio e com uma academia.
Quando perguntaram qual foi a maior lição do Guilherme, a resposta veio rápido. Segundo ele, qualquer um que treina e se dedica já é atleta, e por isso o Guilherme insistia num ponto.
“A dica que ele sempre me deu foi tentar construir habilidades que outras pessoas não têm.”
Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:45:12
Ele também lembrou que o Guilherme ensina pelo exemplo, e não só pela palavra: está todo dia nas aulas, e o aluno vê de perto o que ele faz. O único curso de professor que o Tainan diz ter feito foi com o Guilherme, que já entregou a ele a receita da aula infantil sem que ele precisasse errar sozinho até acertar.
Durante a live, a apresentadora Mayara lembrou que Guilherme e Rafael Mendes pararam de competir antes dos 30 anos e continuaram fortes porque construíram uma marca. O Tainan concordou e disse que tenta fazer o mesmo com o próprio nome. Os pais, contou, têm uma empresa fora do esporte, e foi olhando para eles que entendeu que uma academia de jiu-jitsu é uma empresa como qualquer outra.
Patrocínio, marca e o título mundial
Para o Tainan, patrocínio é um apoio momentâneo, de gente que vê o seu trabalho e quer ajudar. Ele disse que tenta nunca contar com isso e que conhece campeões mundiais que tiveram dificuldade para viver do jiu-jitsu justamente porque dependiam desse dinheiro. O caminho que ele escolheu é construir o nome, para que um dia ele mesmo sustente o futuro.
“O que vai garantir meu futuro vai ser o que eu faço no dia a dia, não o fato de eu vencer o campeonato mundial.”
Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:30:58
Por isso ele trata competição como vitrine. Em suas palavras, é ali que ele mostra o produto e o serviço que quer vender mais adiante. E o produto é o próprio corpo: faz preparação física três vezes por semana, tem massagem marcada toda semana e segue dieta.
“Eu tenho que cuidar do produto que eu quero vender.”
Tainan Dalpra, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:48:53
A lesão na final do Mundial de 2019
A lição mais dura, segundo ele, veio na final do Mundial de 2019. O Tainan contou que vinha vencendo todos os campeonatos que disputava e que, na final, enfrentou um adversário que já tinha batido duas vezes. Acabou se machucando. Ficou uma temporada parado, sem treinar e sem competir. O professor pediu que ele continuasse trabalhando de alguma forma, e ele passou a acompanhar os treinos e as aulas do lado de fora, estudando.
Ele disse que a derrota acabou valendo mais do que o título. Se tivesse ganhado, teria guardado a medalha em casa; perdendo, aprendeu a se recuperar e a se prevenir. Sobre derrota em geral, a visão dele é seca: não gosta que o consolem depois da luta, porque a responsabilidade é de quem está lutando. Quando perde, conversa com o professor, que vê a luta de fora e costuma apontar um motivo diferente do que ele imaginava.
Para relativizar, ele usa um exemplo próprio: quando foi campeão mundial na faixa-azul, a categoria dele tinha 118 atletas. Só um sai campeão. Na conta do Tainan, é muito mais fácil perder do que ganhar, e quem abandona o jiu-jitsu por causa de uma derrota esqueceu disso.
Aula para crianças e academia como negócio
Na academia onde ensina, os programas são separados por idade, com turmas a partir dos três anos, e cada aluno recebe um folheto explicando como funciona a graduação do seu programa. Nas turmas infantis, o grau vem mais rápido e depende da frequência, porque o objetivo é manter a criança treinando. Ele descreveu a aula infantil como uma troca: a criança faz o exercício difícil sabendo que depois vem o jogo de que gosta. Nos adultos que competem, a graduação segue o nível técnico.
O Tainan também explicou por que não faz corredor na academia, a tradição de bater no aluno recém-graduado. Ele disse que gosta da brincadeira como atleta, mas que um pai que traz o filho para aprender disciplina e defesa pessoal não entende adulto batendo em adulto. Pelo mesmo motivo, só se usa quimono branco, para o ambiente ficar limpo e neutro para qualquer pessoa.
Na mesma conversa, o apresentador Ronaldo Aoki contou uma história que ouviu de Rorion Gracie num seminário: nos primeiros anos nos Estados Unidos, o Rorion dava aula particular das 7 ou 8 da manhã até as 8 da noite e caía umas 50 vezes por aula, porque quem tinha de cair era o professor, e o aluno estava lá para aprender a derrubar.
O que fica da entrevista é o retrato de uma geração que chegou à faixa-preta já pensando no dia seguinte à última luta. O Tainan contou que ele e o Guilherme começaram a publicar aulas em português no YouTube, de graça, para o público brasileiro. É o mesmo raciocínio de toda a conversa: mostrar o trabalho hoje para ter do que viver amanhã.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.