Pura Connection · Viktor Doria
ADCC ou Craig Jones? Viktor Doria, empresário de atletas, explica a escolha
Manager de cerca de 50 lutadores de jiu-jitsu conta como negocia bolsas, por que recusou contratos e o que disse a quem tinha de escolher entre o milhão e o legado.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 ago 2024 (1:38:31).
Em 2024 o jiu-jitsu ganhou um problema que ninguém tinha visto antes: dois grandes eventos no mesmo fim de semana, na mesma cidade. De um lado o ADCC, pagando a mesma premiação desde 1998. Do outro, o evento de Craig Jones, com 10 mil dólares só para entrar e 1 milhão para o campeão. E no meio, os atletas tendo que escolher.
Quem ajudou muita gente nessa decisão foi Viktor Doria, faixa-preta com 30 anos de jiu-jitsu e manager de uns 50 lutadores. Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a franqueza. Ele deu razão ao Craig na reclamação, criticou o ADCC, e mesmo assim disse que vai estar na arena vendo o ADCC de perto.
“Quando a luta não faz sentido pra sua carreira, ela tem que fazer sentido pro seu bolso.”
Viktor Doria, no Pura Connection · 0:32:44
Um cozinheiro que virou restaurante
O Viktor conta que nunca planejou ser empresário de atleta. A comparação que ele usa é a do cara que cozinha bem para os amigos até alguém mandar abrir um restaurante. Começou olhando o contrato de um brother, depois de outro, ligando para o organizador do evento para tirar uma cláusula que dava ao evento as imagens do lutador para sempre.
Foi assim que ele percebeu o que chama de amadorismo absurdo dos contratos no jiu-jitsu. Hoje tem advogado no Brasil e nos Estados Unidos, e segundo ele o advogado brasileiro chega a montar o contrato do próprio evento, sem cobrar nada. O ganho, diz o Viktor, é credibilidade e relacionamento.
O caso mais citado foi o do ONE FC. Ele contou que o evento tinha um contrato de 23 páginas, cheio de exclusividade, que classificou como leonino, todo a favor do evento. Segundo o Viktor, nenhum atleta dele assinou aquele modelo, e ele passou suas críticas ao Leozinho Vieira, que trabalha no evento. Hoje, diz ele, o contrato já melhorou para os grapplers.
Carreira primeiro, bolsa depois
A regra que ele repete a conversa inteira é simples. Se a luta ajuda a carreira, o dinheiro fica em segundo plano. Se não ajuda, o atleta tem que ganhar bem para entrar.
O exemplo foi a estreia de Ana Rodrigues num evento de luta casada. O Viktor contou que aceitou a primeira proposta sem negociar, porque a luta fazia tudo que a Ana queria: era de kimono, ela já estaria nos Estados Unidos por causa do Mundial, ia lutar o ADCC em seguida e a adversária tinha nome grande no país. Já uma luta que não fizesse sentido, duas semanas antes do ADCC contra uma faixa-marrom, ele diz que só toparia por 10 ou 15 mil.
Teve também o evento estreante na Arábia Saudita. Segundo ele, a única luta que significava alguma coisa no card era a do atleta dele. Então pediu o dobro, passagem executiva e metade adiantada na assinatura. Os organizadores toparam.
“Eu prefiro tentar frear um touro indomável do que botar para andar uma mula empacada.”
Viktor Doria, no Pura Connection · 0:55:15
Quem quer muito ganha atenção
O Viktor diz que trabalha por demanda. Atleta que liga todo dia recebe atenção todo dia. Atleta que some por três meses recebe ligação no aniversário. E ele confere o Instagram de todo mundo toda semana, como termômetro de quem está levando a própria carreira a sério.
A cobrança mais comum é de rede social: no mínimo três posts por semana no feed e uns oito stories por dia, falando com a câmera. Ele lembrou uma viagem na Inglaterra, de trem entre Londres e um seminário, em que Melqui Galvão mandou Mica, Fabrício Andrey, Dioguinho e Luis Paulo largarem o joguinho e responderem 50 mensagens cada no Instagram.
Tem até figurino. Na primeira edição de um evento em Abu Dhabi, no ano anterior, segundo o Viktor, ele tinha nove ou dez atletas num card de 30 e pediu que todos fossem bem vestidos à coletiva. Os outros zoaram. No evento seguinte, conta ele, quem zoou apareceu de terno.
“Eu faço por eles o que eu gostaria que tivessem feito por mim quando lutava.”
Viktor Doria, no Pura Connection · 1:15:11
ADCC contra Craig Jones Invitational
Aqui a conversa esquentou. O Viktor contou que esteve no ADCC de 2017, em Helsinque, o último evento pequeno. Naquela época, segundo ele, o campeão de categoria levava 10 mil dólares, valor que não mudou desde 1998. O que mudou foi a estrutura: Anaheim, na Califórnia, em 2019, com palco, rampa, fogo e DJ; Las Vegas em 2022, cinco vezes maior; e em 2024 a T-Mobile Arena, onde acontecem os maiores UFCs.
Por isso ele dá razão ao Craig: é um absurdo o ADCC gastar tanto em produção sem mexer em um centavo da premiação. Mas, para o Viktor, essa não é toda a verdade. Ele lembra uma rixa antiga entre o Craig e Mo Jassim, organizador do ADCC, desde a época em que a equipe de John Danaher treinava em Porto Rico e o Mo tinha preferência declarada por Gordon Ryan. E questiona: se era só pelo atleta, por que marcar na mesma data?
Na hora de aconselhar, a resposta dele foi caso a caso. Para quem sabia que não ganharia o ADCC e precisava de dinheiro, o Craig Jones era a melhor escolha: 10 mil garantidos mesmo perdendo cedo. Para quem tinha chance de título e não precisava da grana, ele disse que o milhão viria construindo a carreira. O ADCC, lembra ele, tem o legado e o livro oficial onde o nome do atleta fica registrado por décadas.
Ele ainda deixou uma ironia. Segundo o Viktor, o próprio Craig só virou alguém por causa do ADCC: em 2017, em Helsinque, finalizou Leandro Lo na primeira luta e Murilo Santana na segunda, e saiu de lá famoso.
“O ADCC tem o legado. Daqui a 20 anos você tá nessas páginas aqui.”
Viktor Doria, no Pura Connection · 1:27:33
Mestre, disciplina e o que vem pela frente
A conversa abriu justamente pelo lado oposto do dinheiro. O Viktor acha que o maior benefício do jiu-jitsu é o empurrão na formação do caráter e na autoconfiança, e se preocupa com o que vê nos Estados Unidos: muito atleta sem mestre, aprendendo pelo YouTube, sem cumprimento no tatame e, no sem kimono, sem nem faixa para mostrar hierarquia. Ele usa a imagem do ronin, o samurai sem mestre.
O exemplo dado foi a turma que saiu do time do John Danaher para formar o B-Team, com Craig, Nicky Rodriguez e Nicky Ryan, irmão do Gordon. Segundo ele, treinam entre si sem professor. O Viktor diz que é válido e pode até ser um caminho comercial, mas que o mercado vai ter de aprender a conviver com isso.
Ele cita os próprios mestres, Carlson Gracie, Marcelo Alonso e Carlson Gracie Júnior, e diz que no tempo dele também tinha gente pegando faixa-preta cedo, como Vitor Shaolin, Robson Moura e Léo Santos. Para ele, o que conta é a intensidade da formação, e esses caras viraram grandes professores e pais de família.
O próximo passo do negócio, contou, é o que mais chega hoje: pais de crianças de 10 e 11 anos pedindo empresário. Ele estuda um contrato mais longo, que não seja leonino, para preparar a molecada para rede social, patrocínio e eventos. O que fica da entrevista é a bússola que ele mesmo resumiu: quando pensa na carreira do atleta, acerta; quando pensa no próprio bolso, se perde.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.