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Dos Nossos Podcast · Viktor Doria

Viktor Doria diz que a soberba derrubou Nicholas Meregali no ADCC 2024

No Dos Nossos Podcast, o empresário de atletas elogia a virada de Meregali no no-gi, critica o post de campeão antes da luta e explica por que Mica contra Meregali não sai.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 4 dez 2024 (2:15:40).

Viktor Doria tem uma frase pronta para explicar a queda de Nicholas Meregali no ADCC 2024, e ela vem da Bíblia. Convidado do Dos Nossos Podcast, de Fabricio Werdum, o empresário de atletas e comentarista disse que o Meregali entrou no campeonato convencido de que o título já era dele, e que foi esse estado de espírito que o derrubou logo na segunda luta.

“A soberba precede a ruína, e a altivez de espírito, a queda.”

Viktor Doria, no Dos Nossos Podcast · 0:50:36

Assisti à conversa inteira, mais de duas horas gravadas em São Paulo às vésperas do BJJ Stars, e o trecho sobre o Meregali foi o que mais me prendeu. O Viktor, que mora em Miami há 11 anos e acompanha o ADCC desde 1998, segundo ele mesmo, defendeu o atleta e criticou a postura dele na mesma resposta. É raro ouvir alguém fazer as duas coisas sem escorregar para o lado do fã ou do crítico.

Do quartinho na academia ao jiu-jitsu sem kimono

A pergunta partiu do Werdum. Ele contou que conhece o Meregali há muito tempo, desde a época em que o garoto morava na academia do Mário Reis. Segundo o Werdum, foram cinco anos dormindo num quartinho da academia, e por isso a cara de playboy engana: "o guri é guerreiro". A dúvida dele era onde termina a confiança e começa a prepotência.

O Viktor respondeu com outro versículo: conhecereis a árvore pelos seus frutos. Para ele, a postura mais contundente que o Meregali assumiu deu fruto bom. Rendeu milhares de seguidores, muito dinheiro e uma notoriedade enorme. E o caminho até ali, na visão dele, foi de humildade.

“Requer muita humildade para um cara que é multicampeão no kimono falar assim: agora eu vou ficar bom no no-gi.”

Viktor Doria, no Dos Nossos Podcast · 0:43:45

O Viktor lembrou que o Meregali saiu do país, foi para uma academia estranha, passou a ouvir um mestre que nem conhecia e aprendeu inglês. No primeiro evento sem kimono, o Who's Number One, venceu Arnaldo Maidana, ex-campeão mundial de kimono, numa luta que o Viktor achou feia. Finalizou o segundo adversário e depois ganhou de Rafael Lovato Jr. trocando em pé, logo ele, que sempre foi guardeiro. O Viktor confessou que tinha apostado na derrota: "Eu falei, já era, agora ele perde".

No ADCC de 2022, segundo o Viktor, veio a prata no absoluto, com derrota apertada para o Yuri Simões, e uma derrota para o Craig Jones na categoria até 99 quilos. O resumo dele: o cara saiu de casa e virou um craque do no-gi.

O post de campeão antes da luta

Em 2024 a história mudou de tom. O Viktor contou que o Meregali publicou, antes do evento, um post agradecendo pelo título do ADCC, como se já tivesse vencido. Para o Viktor, foi uma aposta alta: o atleta quis carregar a pressão nas próprias costas, coisa que aprendeu andando com o Gordon Ryan. "Ele foi all in na parada", resumiu.

O embalo vinha de antes. Segundo o Viktor, o Meregali tinha finalizado o Kaynan Duarte, que ele via como o adversário mais duro, e depois o Felipe Preguiça, "com uma facilidade muito grande que o Gordon nunca teve". Com vários pesados indo lutar o evento do Craig Jones, a leitura do Meregali, na interpretação do Viktor, era simples: o ADCC seria dele de qualquer jeito.

Aí entra a crítica. Na primeira luta, contou o Viktor, o Meregali dominou o adversário, parou por cima, olhou para a câmera, riu, mexeu no nariz e só depois finalizou. Entrou na segunda luta com a mesma postura. Na opinião do Viktor, esse comportamento não combina com um campeão.

O adversário da segunda luta era Michael Pixley, que o Viktor chamou de "zebra da zebra da zebra" e descreveu como faixa-roxa. Segundo ele, os sinais de alerta apareceram cedo. O Meregali tentou trocar em pé e tomou uma queda, sentou para fazer guarda e teve a guarda passada com o pescoço já preso. Na tentativa seguinte de single leg, levou um quedão, machucou o ombro e o Pixley foi direto no pescoço.

O Werdum perguntou se a lesão explicava a derrota. O Viktor acha que não: o Meregali caiu justamente na posição do adversário, e ali o Pixley era muito perigoso. Para ele, foi o grande momento do ADCC daquele ano. "Acho que Las Vegas inteiro ouviu", contou.

Para o Viktor, derrota não ensina nada

Quando o Werdum quis saber se a derrota ia fazer bem ao Meregali, o Viktor avisou que ia ser polêmico.

“Derrota é uma merda. É horrível.”

Viktor Doria, no Dos Nossos Podcast · 0:48:31

Para ele, dá para aprender sem perder, e é melhor que seja assim. O que ele espera é que o Meregali escolha melhor as palavras e o comportamento da próxima vez, e que outros atletas tirem a lição sem precisar passar pelo mesmo. "Aprender com os próprios erros é bom. Agora, aprender com os erros dos outros é ideal", disse.

O Werdum emendou com uma história dele. Contou que, antes de enfrentar o Stipe Miocic em Curitiba, fez homenagem ao Ayrton Senna e entrou ao som da música da vitória. Depois, um fã mandou mensagem lembrando que o Maldonado tinha feito a mesma coisa contra o Miocic e também perdido. A lição que o Werdum tirou virou piada na mesa:

“Perdi também. Não bota mais a música, só depois.”

Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:47:59

Mica contra Meregali, a luta que só interessa a um lado

O Meregali voltou à conversa por causa de uma pergunta feita por telefone. O apresentador do Connect Cast, chamado ao vivo pelo Werdum, pediu ao Viktor as três lutas que ele montaria no BJJ Stars se tivesse dinheiro infinito. A primeira foi Mica Galvão contra Meregali, de kimono. E o Viktor explicou por que essa luta não sai do papel.

Segundo ele, o Meregali é 20 quilos mais pesado e não tem nada a ganhar. O Viktor fez a conta assim:

“Se ganhar de pouco, mérito do Mica. Se finalizar, não fez mais que obrigação. Se perder, caiu no abismo.”

Viktor Doria, no Dos Nossos Podcast · 1:04:02

Para o Mica, qualquer resultado é lucro: perder de pouco rende aplauso, ser finalizado mostra coragem e vencer faz dele herói. Por isso, disse o Viktor, se fosse manager do Meregali, só aceitaria com muito dinheiro. Ele prefere a luta de kimono porque acha os dois muito técnicos e acredita que haveria mais luta com pano do que sem.

As outras duas escolhas dele foram Kaynan Duarte contra Nicky Rodriguez, o campeão absoluto do ADCC contra o campeão do Craig Jones Invitational, e uma luta que ele mesmo chamou de hipotética: Rodolfo Vieira contra Roger Gracie, de kimono. Os dois nunca se enfrentaram.

O que fica da conversa

Terminei o vídeo com a impressão de que o Viktor julga o Meregali pela mesma régua que usa com qualquer atleta. No fim da entrevista, ele disse que o lutador precisa ser profissional num ambiente amador: cuidar da aparência, aprender inglês, saber dar entrevista e trabalhar as redes para quem o patrocina. Citou o Gordon Ryan, que segundo ele fez 36 posts em 24 horas depois da superluta com o André Galvão, em 2022.

“O lutador que só luta é muito pouco. É quase nada.”

Viktor Doria, no Dos Nossos Podcast · 2:07:41

Por essa régua, a marra do Meregali faz sentido para o Viktor, porque ajudou a construir o nome e trouxe dinheiro. O problema apareceu quando a postura entrou no tatame junto com ele. Perder para um atleta que o próprio Viktor chamou de faixa-roxa, depois de anunciar o título, virou um aviso que vale para muita gente. E, como o Viktor fez questão de dizer, sem demérito nenhum para a carreira do Meregali.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.