Podcast Nem Me Viu · Vitor Miranda
Vitor Miranda conta o mês de treino com Cro Cop e a final do TUF Brasil
O analista de luta relembra a coxa arrebentada na Croácia, a tentativa frustrada no primeiro TUF e o erro de estratégia na final.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 9 fev 2023 (2:27:00).
Quem conhece o Vitor Miranda hoje pelas análises de luta no YouTube talvez não saiba o que ele passou antes de virar comentarista. No Nem Me Viu, sentado ao lado do Fabricio Werdum, ele contou que em 2007 foi para a Croácia passar um mês fazendo sparring com o Mirko Cro Cop, três vezes por semana. Nas palavras dele, foi um sofrimento.
Assisti à conversa inteira e esse trecho foi o que mais me prendeu. O Werdum, que conviveu com o croata por dois anos, foi completando as histórias do lado de lá. E o papo ainda passou pelo TUF Brasil, pela chegada ao UFC aos 35 anos e pelo jeito que o Vitor analisa uma luta.
Um mês apanhando do Cro Cop
Segundo o Vitor, ele chegou à Croácia junto com um russo campeão mundial de muay thai. O Cro Cop quebrou o nariz do russo no primeiro treino e o russo foi embora. Sobrou ele. O Werdum emendou que isso acontecia direto: tinha parceiro que chegava do aeroporto, largava a mochila, subia no ringue e voltava para casa no mesmo dia.
“No primeiro dia o cara chegou do aeroporto, largou a mochila, pegou o equipamento, entrou no ringue, pum na cabeça, já voltou no avião.”
Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:34:31
O Vitor contou que o croata se preparava para o GP do Pride e sabia que precisava dele inteiro. Por isso, em vez de mirar na cabeça, marcava a coxa um pouco todo dia. No último sparring antes da viagem para a luta, veio o chute que rompeu o músculo da perna, mesmo com duas caneleiras. Ele disse que ficou mais de duas semanas sem conseguir andar direito.
O frio também pesou. Ele ficou hospedado no apartamento do Igor, parceiro de treino do Cro Cop, e às 5h30 da manhã já estava na academia, com a temperatura entre cinco e dez graus negativos. Segundo o Vitor, a pressão psicológica era enorme porque ele nunca sabia o que ia ser o treino: o Cro Cop aquecia calado e de repente chamava "Miranda" para o ringue.
“Com 20 dias eu liguei chorando para casa.”
Vitor Miranda, no Podcast Nem Me Viu · 0:38:45
Mesmo assim, ele saiu de lá impressionado com a disciplina. O Vitor contou que o Cro Cop tinha um dos diretos mais perigosos do MMA e que fazia aquecimento com direto todo santo dia. Coisa simples, repetida até ficar automática. E o Igor marcou tanto que o Vitor deu o nome dele ao próprio filho.
“Ele tinha um dos diretos mais perigosos do MMA e não era à toa: ele fazia todo santo dia aquecimento com direto.”
Vitor Miranda, no Podcast Nem Me Viu · 0:50:15
O que o Werdum viu em dois anos de Croácia
O Werdum brincou que, se um mês foi duro, ele aguentou dois anos. Contou que o Cro Cop era de lua: tinha dia que chegava tentando falar português e fazendo piada, tinha dia que nem olhava na cara dele. Também lembrou que dava aula toda quarta-feira na Lučko, unidade de polícia que ele comparou ao BOPE, e em troca aprendia a atirar.
Uma das histórias mais engraçadas foi a do basquete de aquecimento. Segundo o Werdum, a bola bateu no pé do Igor e subiu no rosto do Cro Cop, que xingou o parceiro e ameaçou cortar metade do salário dele. Para o Werdum, o Igor foi forjado na porrada.
Do fundo do poço ao TUF Brasil
A parte mais pesada da entrevista veio quando o Vitor falou da primeira seletiva do TUF Brasil, no fim de 2011. Ele tinha acabado de voltar dos Estados Unidos depois de perder um filho, sem dinheiro, morando de favor na casa do cunhado. Segundo ele, a única coisa que fazia era treinar.
“A única coisa que eu tava fazendo era treinar e isso me salvou literalmente, salvou minha vida.”
Vitor Miranda, no Podcast Nem Me Viu · 1:02:39
Na seletiva em São Paulo, ele fez o rola de jiu-jitsu de um minuto e meio, não foi finalizado, mas o nome dele não foi chamado. Contou que estava chorando no hall do hotel, decidido a parar, quando um preparador físico da equipe dos Nogueira o procurou. O Pezão tinha contado a história dele, e os irmãos queriam levá-lo para o Rio, pagando os primeiros meses.
Ele passou a treinar na equipe Nogueira e, na terceira edição do reality, conseguiu entrar. Segundo o Vitor, ganhou a luta para entrar na casa e mais duas lá dentro, até chegar à final contra o Cara de Sapato.
O erro de estratégia na final
Sobre a final, o Vitor foi sincero. Contou que quase não havia vídeo do adversário, que tinha vencido rápido dentro da casa. A única coisa que ele achava que podia usar era o lado emocional: o Cara de Sapato se importava muito com o jeito que os outros o tratavam. Então o Vitor tentou fazer um personagem na semana da luta. Deu errado.
“A gente não pode sair da nossa essência, e eu tentei sair e aí me ferrei.”
Vitor Miranda, no Podcast Nem Me Viu · 1:08:21
Ele disse ainda que treinou para bater e sair, quando o jogo dele sempre foi bater e continuar indo para frente. Como o adversário tinha a base aberta de quem treinava com o Cigano, um golpe só não chegava. Ele precisava de combinações maiores e não fez. Os dois conversaram depois e, segundo o Vitor, são amigos até hoje.
UFC aos 35 e o vídeo de 18 milhões
O Vitor contou que entrou no UFC com 35 anos e desceu para os 84 kg, peso que não batia desde os 17. Segundo ele, o médico que o acompanhava recomendou reposição de testosterona, que na época era permitida, e ele foi testado umas 15 vezes durante o contrato. Venceu as três primeiras lutas por nocaute, em Barueri, no Rio e em Las Vegas, uma delas com bônus em dez segundos.
Na preparação para a quarta luta, contra um adversário ranqueado, machucou o ombro. Em vez de avisar, quis mostrar serviço: treinou de canhoto para esconder a lesão, fez sauna três vezes no mesmo dia para bater o peso e perdeu. Foi dessa luta que saiu o vídeo de corte de peso, filmado pela esposa, que passou de 18 milhões de visualizações no YouTube.
Ele também relembrou a derrota por pontos para o Marvin Vettori. Contou que vinha de cirurgia, marcou a luta rápido demais e achava que estava ganhando dois rounds. No fim, sentiu o italiano cansado, tentou uma queda que nunca tinha dado, caiu por baixo e perdeu na decisão.
O olhar do lutador na análise
O canal nasceu em 2017, inspirado no que ele aprendeu no TUF: mostrar o dia a dia do lutador traz fã para o esporte. Quando o UFC Brasil o chamou para um quadro, ele não quis fazer a resenha de jornalista. Resolveu passar a luta devagar e explicar o que o fã não vê. Contou que um treinador disse que ele ajudava técnicos sem saber.
No quadro de opiniões do programa, ele analisou o Paulo Borrachinha: força de músculo, muita pressão e volume, jogo de contra-golpe. Para vencer, disse, é preciso bater primeiro e sair. Fechou explicando de onde vem o cuidado com quem está no octógono.
“Se eu não posso falar bem, eu não vou falar nada.”
Vitor Miranda, no Podcast Nem Me Viu · 2:02:19
O que fica da entrevista é um cara que apanhou do Cro Cop, quase largou a luta no hall de um hotel e hoje explica o MMA com a paciência de quem sabe o que custa cada round.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.