Pura Connection · Wendell Alexander
Wendell Alexander conta como o subúrbio do Rio criou a Nova União
O cofundador da equipe lembra das crianças do Mello Tênis Clube, da parceria com Dedé Pederneiras e do racha com a confederação.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 23 set 2024 (1:33:14).
Quando a Nova União começou a assustar as grandes academias do Rio, a base do time era um bando de moleques do subúrbio. Quem montou essa base foi Wendell Alexander, que dividiu com Dedé Pederneiras a fundação de uma das equipes mais fortes da história do jiu-jitsu. Na conversa com o André no Pura Connection, ele contou como tudo aconteceu, de onde veio e o que pensa do esporte hoje.
Assisti à entrevista e o que mais me chamou atenção foi o jeito como ele tomou uma decisão cedo. Ainda muito novo, o Wendell percebeu que não seria um multicampeão e resolveu apostar tudo nas crianças. Segundo ele, os adultos da academia eram bons, mas trabalhavam fora e não iam chegar ao nível das academias da Zona Sul. As crianças iam.
“Eu sabia que não ia ser um multicampeão, mas alguém ia ser por mim.”
Wendell Alexander, no Pura Connection · 0:26:56
Uma raiz diferente dentro do jiu-jitsu
O Wendell vem da linhagem de Oswaldo Fadda. O professor dele era Geraldo Flores, aluno do Fadda. Ele lembra que o dia do treino sem kimono era chamado de dia da taparia: tapa na cara, tapa nas costas, e ele voltava para casa com a orelha doendo e chorando. Quase desistiu.
Quando o Fadda aparecia na academia, o Wendell conta que parecia que tinha um rei no tatame. O mestre corrigia o aluno e só saía de perto depois que ele repetisse o movimento muitas vezes, num estilo que ele compara ao militar. Foi ali que decidiu que queria ser professor daquele jeito.
Por isso ele faz questão de dizer que a Nova União é a única equipe formada pela união da linhagem Gracie com a do Fadda. O Dedé veio do lado de Carlinhos Gracie, e ele veio do Fadda.
“Não existe outra no mundo. O Dedé veio dos Gracie e eu vim do Fadda.”
Wendell Alexander, no Pura Connection · 0:12:56
O Mello Tênis Clube e os meninos do morro
A virada veio no Mello Tênis Clube, em frente à casa dele. O Wendell foi para lá só para treinar, com bolsa. O professor do clube, Sebastião Ricardo, viu o jeito dele explicando as posições e o chamou para trabalhar junto. Pouco tempo depois graduou o Wendell faixa-preta e se aposentou, deixando a academia com ele.
O começo foi duro. Muita gente saiu quando viu um professor novo, e teve dia em que quase ninguém apareceu para treinar. Ele insistiu, e a academia chegou a ter 300 alunos entre manhã, tarde e noite. Já naquela época ele separava as turmas em iniciante, avançado e graduado, com a ajuda do faixa-preta Cláudio Joanino na turma dos iniciantes.
A história mais forte da entrevista é a dos garotos que ficavam na frente do clube tomando conta de carro. O Wendell perguntou se eles queriam treinar, conseguiu com a diretoria 20 bolsas e depois percebeu que ninguém tinha kimono. Contou que subiu o morro, pediu para falar com quem mandava ali e explicou o projeto: os meninos teriam que estudar e mostrar a nota para continuar. Voltou com o dinheiro na mão, foi a Madureira comprar os 20 kimonos e ainda devolveu o troco.
“Eu nunca subi nenhum morro. Foi o primeiro, para pedir pras crianças.”
Wendell Alexander, no Pura Connection · 0:23:52
Segundo ele, todos esses meninos viraram campeões estaduais e brasileiros, e hoje moram fora do Brasil ou dão aula. A regra da nota continuou valendo: abaixo de cinco no colégio, o aluno ficava fora do treino. E falta de educação em casa também tirava o menino do time.
Ele também dá muito crédito aos pais, em especial ao Luizinho, pai de aluno que virou patrocinador e incentivador da equipe. O Wendell sentava com ele para explicar a regra ponto por ponto, e o Luizinho passou a saber exatamente o que gritar na beira do tatame.
Como nasceu a Nova União
O Wendell conheceu o Dedé num torneio beneficente que o Dedé organizava no Flamengo. Levou os alunos, voltou no torneio seguinte e as duas academias começaram a treinar uma na casa da outra. Num campeonato, juntaram as equipes com o nome André Pederneiras e Mello Tênis Clube e ficaram em terceiro. No seguinte, ficaram em segundo. Em Teresópolis, num campeonato cheio de gente dura, ganharam.
Depois disso ele, o Dedé, o Luizinho e o Jucão se reuniram para escolher um nome que não fosse de nenhuma das duas academias. Saiu Nova União: uma coisa nova na cidade e a união de duas pessoas. A ideia era só ganhar o Rio, mas o Wendell brinca que eles ganharam o mundo.
Ele garante que a equipe nunca pagou atleta para vestir a camisa e que os dois nunca brigaram por dinheiro. O acordo foi simples: o Dedé cuidava do MMA, ele cuidava do jiu-jitsu, e o que cada um ganhava era de cada um. Para mostrar o tamanho da amizade, ele contou que voltou de viagem com o braço machucado, sem dinheiro para uma ressonância, e o Dedé mandou fazer o exame na hora e pagou.
A briga da confederação
Um trecho que pouca gente conhece é a história da confederação que o Luizinho montou. Segundo o Wendell, o Luizinho e o Dedé foram ao Carlinhos com uma proposta: premiar em dinheiro os faixas-pretas campeões e não cobrar a carteirinha deles. O Carlinhos, pelo relato, respondeu que o jiu-jitsu ia continuar amador.
Aí o Luizinho decidiu criar a própria confederação. O Wendell conta que avisou que ia dar confusão, e deu: a Nova União se afastou, algumas equipes racharam por causa disso e ele passou uns seis anos como diretor de arbitragem da entidade nova. Depois se aposentou da arbitragem e a equipe voltou para a confederação do Carlinhos, que ele considera o título que vale.
Mesmo nesse período ele nunca deixou de pagar a própria carteirinha, e hoje prega isso nos seminários. Ele contou que quando chegou a hora da faixa-coral foi a própria confederação que entrou em contato, e que a vermelha e branca vem em 2025, na data certa.
Léo Santos, o melhor que ele treinou
O Wendell diz que Léo Santos foi o melhor lutador que ele treinou na vida. Aos 15 anos, quando o Mundial ainda não tinha categoria juvenil, ele precisou ir ao Conselho Tutelar com o pai do Léo para liberar o menino para lutar no adulto. O Léo ganhou a seletiva, teve overtraining, descansou e foi campeão mundial na faixa-azul, até 61 kg.
Quando o Léo anunciou que ia trocar o jiu-jitsu pelo MMA, o Wendell foi contra e ficou chateado. Ele não gostava do sofrimento do corte de peso e achava que o primo, como ele o chama, nunca tinha levado soco na cara. Mudou de ideia quando viu o Léo feliz e trazendo resultado para a equipe e para a família.
“A gente não consegue prender nem nossos filhos. Deixa o cara treinar.”
Wendell Alexander, no Pura Connection · 1:05:59
O que fica da conversa
No fim, o Wendell mostra uma tristeza com o jiu-jitsu atual. Segundo ele, a Nova União não está conseguindo amarrar a faixa-preta nos próprios alunos, porque eles são levados para outras academias ainda na marrom. Ele disse que conversou sobre isso com Sérgio Bolão e que hoje, antes de treinar uma criança para competir, senta com os pais para deixar claro o compromisso.
O que eu levo da conversa é a filosofia que ele repete para a turminha de 3 a 7 anos e para os adultos. Ele diz que veio só de derrota e que foi perdendo que aprendeu a ganhar. Aos 57 anos, contou que não consegue tirar férias sem levar o kimono na mala.
“Vamos aprender a perder para depois a gente aprender a ganhar.”
Wendell Alexander, no Pura Connection · 1:30:02
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.