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Podcast Nem Me Viu

Werdum conta como voltou de três anos parado para lutar sem luvas

Com o olho fechado e dedos quebrados, ele disse ao mestre que estava bom até ali e voltou atrás em segundos.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 27 out 2023 (1:58:50).

O Fabrício Werdum contou uma coisa que não aparece na transmissão da revanche contra o Junior Cigano: no intervalo entre o segundo e o terceiro round, ele chegou a dizer ao córner que estava bom até ali. O mestre fez sinal ao árbitro para encerrar, e foi o próprio Werdum quem voltou atrás em dois ou três segundos e pediu para continuar.

A história saiu no Nem Me Viu, o podcast dele, num episódio em que o convidado era o humorista gaúcho Marcito Castro. A maior parte da conversa foi sobre comédia e gírias do Sul. Mas, no meio, o Marcito perguntou da luta que tinha acabado de acontecer, e o Werdum abriu tudo: o camp, as lesões, o olho fechado, a rivalidade de 15 anos e o documentário que vai mostrar os bastidores. Assisti à conversa e separei o que interessa para quem gosta de luta.

Dois meses nos Estados Unidos depois de três anos parado

Segundo o Werdum, o convite para enfrentar o Cigano de novo veio quando ele estava longe da luta. Ele tinha acabado de fazer um desafio de 60 dias de dieta e musculação e estava forte, mas contou que essa força não servia para lutar. Fazia três anos que ele não treinava nada de luta.

“Fazia três anos que eu não treinava, zero jiu-jitsu, nada.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:15:26

Ele passou dois meses nos Estados Unidos com o professor de sempre, o Rafael Cordeiro, e com o Babalu, a quem chama de irmão, na equipe. Segundo ele, se machucou já no primeiro dia de treino. No total, contou de cinco a sete lesões em dois meses: pulso, dedos quebrados, quadrado lombar, cabeça, joelho.

Mesmo assim, disse que não faltou a nenhum treino. Treinava de segunda a sábado, marcava cada dia num calendário e fez 61 dias assim. Uma vez por semana ainda fazia trabalho mental com o Eric Faro, de foco e performance.

Sem luva, osso com osso

A revanche foi numa luta sem luvas, e o Werdum explicou que achava que a diferença para a luva pequena do MMA seria pequena. Não foi. Segundo ele, sem luva a luta fica mais segurada: ninguém vai muito para frente, porque sabe o estrago que um soco pode fazer. Ele resumiu dizendo que os dois lutaram com a cabeça no lugar o tempo todo.

O momento que mais impressionou quem assistiu foi o corte no olho. O Werdum contou que o soco não foi forte, que ele nem ficou tonto, mas o olho fechou e o sangue tomou a visão daquele lado por completo. Ele disse que não tinha noção do tamanho do estrago, porque no meio da luta não há espelho.

“Não tem luva, é osso com osso.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:20:06

Na leitura dele, o Cigano viu que o olho tinha caído e mesmo assim não veio para cima encerrar a luta, porque sabia que chegar perto também era perigoso. Segundo o Werdum, os dois ficaram na distância, sem luta no chão, na área do Cigano, que é o boxe. Ele deu o mérito ao adversário por manter a estratégia até o fim. A decisão foi dividida.

O quase abandono entre o segundo e o terceiro round

Essa é a parte que ele diz que vai estar no documentário. Do segundo para o terceiro round, tudo doía: dedos, canela, olho. O Werdum contou que falou ao mestre que estava bom até ali. O Cordeiro perguntou se ele tinha certeza e, na hora da resposta meio hesitante, já foi até o árbitro sinalizar o fim. Quando o árbitro perguntou o que estava acontecendo, o Werdum ouviu e mudou de ideia.

“Não, mestre, tô aqui, tô bem.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:21:08

Segundo o Werdum, o Cordeiro disse depois que ainda bem que ele voltou, porque se tivesse desistido ali ia carregar aquilo pelo resto da vida. Ele tratou o episódio como uma vitória contra ele mesmo.

“Foi mais uma superação, eu comigo mesmo.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:22:10

Sobre o resultado, ele não deu desculpa. Disse que fez tudo o que tinha para fazer na preparação, de jiu-jitsu, preparação física e boxe, e que as lesões não explicam a derrota.

“Ele foi melhor que eu naquele momento ali.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:16:28

Quinze anos de rivalidade que viraram amizade

O trecho mais honesto da conversa foi sobre a relação com o Cigano. O Werdum admitiu que, se tivesse vencido, talvez nem falasse com ele. Segundo ele, a rivalidade de 15 anos era real, com besteira dita dos dois lados, e ele não queria papo mesmo com amigos em comum, como o Buchecha e o Marreta, dizendo que o Cigano era gente boa.

O que mudou foi a atitude do Cigano depois da luta. O Werdum contou que ele pegou o microfone para elogiá-lo na frente de todo mundo e foi duas vezes falar com ele e com o mestre. Para o Werdum, aquilo foi genuíno, porque o Cigano não precisava fazer média com ninguém.

“A primeira luta do Cigano no UFC foi comigo.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 1:18:31

Ele lembrou que, depois daquela estreia, o Cigano seguiu em linha reta até o cinturão, enquanto ele saiu do UFC, deu a volta e também virou campeão. Nas palavras dele, os dois fizeram praticamente o mesmo caminho por estradas diferentes. O Werdum disse que quer levar o Cigano ao podcast para perguntar por que ele não foi para cima quando o olho fechou.

O documentário e o que fica

O documentário vai se chamar Acima da Dor e, segundo o Werdum, estava em negociação com o Canal Combate, onde ele já trabalha como comentarista de eventos como Jungle Fight e PFL. Ele contou que existem 20 horas de material para caber em cerca de uma hora.

Outras histórias apareceram de passagem. Ele lembrou a chegada a Porto Alegre depois de virar campeão do UFC em 2015, com carro de bombeiro no aeroporto, carreata e a chave da cidade. Contou que, na preparação para enfrentar o Cain Velasquez, passou dois meses no México e foi de carro visitar o Ronaldinho Gaúcho. E listou gaúchos que brilharam na luta, como o Mário Reis, campeão mundial de jiu-jitsu, e o Nicholas Meregali, ex-aluno do Mário.

O que eu levo da conversa é o Werdum falando de uma derrota sem esconder nada. Aos 46 anos, ele sabe que o tempo de lutar está acabando e disse que já estão chamando para lutas só de grappling. Mas a história daqueles segundos no corner mostra por que ele durou tanto: quase parou, e não parou.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.