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Pura Connection · Daniel Sabbá

Daniel Sabbá e a briga com Rolls Gracie que levou surfistas ao jiu-jitsu

O surfista e pioneiro do voo livre lembra a queda que tomou no Arpoador, o primeiro dia na academia Gracie e a convivência com Hélio e Carlos Gracie.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 24 mai 2024 (1:21:40).

O Daniel Sabbá tem uma tese que ele repete com orgulho: se hoje surfista do mundo inteiro treina jiu-jitsu, a culpa é de uma briga na praia. No Pura Connection, o surfista, pioneiro do voo livre e ex-repórter de televisão contou como apanhou do Rolls Gracie no Arpoador e, no dia seguinte, estava dentro da academia Gracie.

Assisti à conversa sabendo que o Sabbá é um contador de histórias sem freio. Ele fala de tudo, pula de assunto, xinga, ri. Mas quando o papo chega na família Gracie, aparecem detalhes que pouca gente viveu tão de perto: o dia a dia na Avenida Rui Barbosa, as compras do Hélio na Ceasa e os chás do Carlos Gracie.

A briga no Arpoador

Segundo o Sabbá, tudo começou com uma briga entre duas outras pessoas, e ele acabou envolvido por engano, porque tinha o mesmo nome de um dos brigões. A turma do Rolls marcou o acerto de contas. De um lado, uns 12 ou 15 caras. Do outro, os surfistas. A regra combinada era mano a mano.

O Sabbá contou que na época lutava caratê Shotokan e se garantia na briga de longe, mas não sabia nada de perto. Foi para o meio da roda cheio de moral, começou a quicar na frente do Rolls e partiu para o soco.

“Ele me bloqueou, me deu uma queda e montou. Isso já era o início da briga.”

Daniel Sabbá, no Pura Connection · 0:05:39

Ele disse que pediu para parar ali mesmo e que a briga generalizada que estourou em volta acabou com ele e o Rolls separando todo mundo. No dia seguinte, ainda de manhã, segundo o Sabbá, os dois se encontraram surfando no Píer, em 1972, e o Rolls pegou todas as ondas. A leitura dele, décadas depois, é de que o Rolls sabia muito bem o que estava fazendo.

“Aquilo tudo foi marketing, o maior marketing da academia Gracie.”

Daniel Sabbá, no Pura Connection · 0:08:17

O primeiro dia na academia Gracie

O convite veio logo. O Sabbá contou que foi de bicicleta até a academia da Figueiredo Magalhães, em Copacabana, e que, quando subiu a escada, uma turma de surfistas foi atrás achando que ia ter outra briga. O que o Rolls fez surpreendeu todo mundo.

“Ele me levou pro banheiro e botou o kimono dele, com a faixa-preta, em mim.”

Daniel Sabbá, no Pura Connection · 0:10:34

Segundo o Sabbá, no tatame estavam nomes que depois ficariam conhecidos, como o Pinduca e o Jacaré, que ele lembra ainda de faixa azul. A primeira lição, contou, foi o upa: o Rolls montou nele, ele se debateu sem conseguir sair e só então recebeu a explicação de onde pôr o braço e o pé.

“A primeira coisa que eu aprendi na vida no jiu-jitsu foi a defesa pessoal.”

Daniel Sabbá, no Pura Connection · 0:11:37

Daí em diante ele virou uma espécie de recrutador. O Sabbá disse que levava dois ou três amigos por dia e que botou entre 200 e 300 pessoas na academia em mais ou menos um mês. A frase que ele usa para resumir é que os surfistas foram para a academia Gracie aprender a lutar. Ele também virou amigo do Rolls, dividiu com ele uma casa alugada em Búzios e diz que ensinou o Rolls a voar.

Vizinho dos Gracie na Rui Barbosa

A convivência ficou ainda mais próxima quando, segundo o Sabbá, ele descobriu que os Gracie moravam a dois prédios dele, na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. Ele contou que o Relson o chamou para surfar e que, na época, o Rickson e o Royler ainda eram garotos. O Carlinhos também morava por ali.

O Rickson aparece no relato como o Gracie da noite. Segundo o Sabbá, era o único da família que frequentava a vida noturna e tinha fama de encarar segurança de boate. No tatame, a lembrança é outra.

“Nunca vi ninguém passar a guarda do Rickson.”

Daniel Sabbá, no Pura Connection · 0:09:31

Com o Hélio, as histórias são de rotina. O Sabbá contou que tinha uma picape C10 e que várias vezes foi com ele à Ceasa fazer as compras da família: dezenas de caixas de mamão papaia, melancias, tâmaras, requeijão cremoso, goiaba e água de coco. Ele lembra da vitamina de melancia com torrada que o Hélio tomava ao chegar do mar e de uma temporada na casa de campo do Hélio, onde não se podia sair à noite e a rotina era treino e alimentação, como num quartel.

A dieta e os chás do Carlos Gracie

O Sabbá se orgulha de estar no livro do Carlos Gracie e diz que voltou a seguir a dieta Gracie, com mamão, água de coco, requeijão e mel. A história que ele conta com mais emoção é a do irmão, que pegou hepatite.

“O Carlos Gracie curou meu irmão em três meses com chá.”

Daniel Sabbá, no Pura Connection · 0:46:36

Segundo o Sabbá, a doença levava cerca de um ano para passar e o chá veio do Pará, onde, na versão dele, o Carlos aprendeu remédios com os índios. Ele lembra também de uma pomada de planta amassada que o Carlos mandava passar em quem se machucava no treino.

Das rixas antigas ao jiu-jitsu no mundo

O Sabbá lembrou que havia uma turma que não gostava dos Gracie, com nomes como Hugo Duarte e Eugênio Tadeu, e citou o Waldemar Santana, que enfrentou o Carlson. Para ele, a família queria mostrar que o jiu-jitsu era eficaz. E contou, como prova de que essa fase passou, que o Renzo, que brigou com o Hugo Duarte, depois o levou para dar aula em Miami.

A conversa também passa pelo acidente de carro que deixou o Sabbá tetraplégico, pela recuperação e pela fé. Esse é o lado mais forte do episódio para quem gosta de histórias de superação. Para quem gosta de jiu-jitsu, o que fica é o retrato de uma época em que surfista era visto como bandido e uma queda seguida de montada no Arpoador abriu a porta da academia Gracie para uma geração inteira da praia.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.