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Pura Connection · Demian Maia

Demian Maia conta como quase perdeu o jiu-jitsu no UFC e virou o jogo

Depois da primeira derrota, ele foi a fundo no boxe, virou um lutador híbrido e só voltou a vencer em sequência quando fez o caminho de volta ao tatame.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 14 out 2021 (1:18:02).

Demian Maia chegou ao UFC voando. Segundo ele, foram 11 lutas sem perder, quase todas terminadas em finalização. Aí veio a primeira derrota, um nocaute, e com ela uma decisão que ele mesmo conta ter afastado ele do jogo que o levou até ali: treinar boxe a sério, imerso numa academia só de boxe. Assisti à conversa dele no Pura Connection e foi essa parte que mais me pegou, porque é a história de um especialista em jiu-jitsu que quase deixou de ser especialista.

O papo passa por muita coisa: humildade, competição, as brigas entre academias nos anos de campeonato amador, calma em situação de desespero e o risco de o jiu-jitsu virar só esporte. Mas o fio que amarra tudo é a ideia de que a luta mostra a verdade, e que o lutador precisa ter coragem de aceitar o que ela mostra.

“Não tem espaço para ilusão dentro da luta, é a verdade.”

Demian Maia, no Pura Connection · 0:11:14

Três lutas numa noite e a descoberta do MMA

Demian contou que o MMA era um sonho, mas que ele não queria lutar no evento que acabou abrindo a porta. Era o Super Challenge, em São Paulo, organizado pelo empresário Paulo Vasconcelos, com três lutas por noite para cada atleta. Segundo ele, a chave da categoria tinha lutadores muito duros e ele tinha só uma ou duas lutas de MMA no cartel. Pediu para fazer uma luta de jiu-jitsu sem kimono no evento, mas o Paulo insistiu e convenceu.

Ele foi sem muita esperança, pelo que contou. A primeira luta foi à meia-noite, a segunda às duas da manhã e a última às quatro. Ganhou as três e saiu campeão.

“Nesse dia eu falei: eu levo jeito para esse negócio.”

Demian Maia, no Pura Connection · 0:57:59

Depois disso, segundo ele, vieram o título do ADCC, o mundial de jiu-jitsu sem kimono e a entrada no UFC em 2007. A sequência invicta só parou em 2009, numa luta no Oregon, nos Estados Unidos, quando ele tomou o primeiro nocaute da carreira.

O conselho do Minotauro e a imersão no boxe

Na porta do hotel, ainda chateado, Demian ouviu de Rodrigo Minotauro que aquela derrota não era das piores. Segundo o Demian, o Minotauro disse que a derrota que abala é a de quem apanha a luta inteira sem ver a cor da bola, e que ele só tinha entrado num momento errado. Demian pediu ajuda para melhorar a trocação e os dois chegaram a planejar uma temporada de boxe em Cuba.

O plano não deu certo, e o Minotauro mandou ele para Salvador, para treinar com Luiz Dórea, que segundo o Demian foi o treinador de boxe do Minotauro desde os 16 anos. Lá ele ficou cercado de campeões olímpicos, com muito volume de treino e quase nada de jiu-jitsu. E foi aí que o problema apareceu.

“Acabei virando um híbrido, um cara que não era eu.”

Demian Maia, no Pura Connection · 1:01:38

Ele explicou que ficou bom na trocação, mas nunca foi o lutador que derruba o adversário no soco, e ao mesmo tempo foi perdendo o fio do jiu-jitsu. Pela leitura dele, isso é comum: o atleta de grappling vira trocador e deixa de usar a ferramenta que tinha de melhor.

A volta às origens e a sequência de sete vitórias

A virada, segundo ele, veio quando desceu de categoria, do peso 84 para o 77. O treinador principal, que também é médico dele, propôs voltar ao jiu-jitsu. A trocação continuou, mas sempre com entrada de queda misturada. Demian insistiu muito nisso: no MMA, um direto tem que vir junto com a ameaça de queda e com a defesa de queda, e quem treina boxe puro perde essa costura.

Ele contou que ouviu isso lá atrás, em 2005 ou 2006, de um grande técnico de wrestling na Califórnia: o campeão é quem sabe fazer a transição entre as modalidades. Para quem vem do jiu-jitsu, a parte mais importante, na opinião dele, é ficar bom de queda, porque é ela que deixa o lutador usar o próprio jogo.

Depois de três vitórias e duas derrotas, Demian foi treinar wrestling em Nova Jersey em 2014. Foi quando, segundo ele, emendou sete vitórias seguidas, chegou ao maior número de vitórias da história da categoria e disputou o cinturão. Nas idas a Nova York, treinava jiu-jitsu com o amigo Marcelo Garcia, antigo parceiro de treino no Brasil.

Briga de academia, soco em jornalista e tiro em casa

Quando o André puxou o assunto dos primeiros campeonatos, Demian lembrou de um jiu-jitsu bem mais pesado. Ele contou que o primeiro Paulista que ganhou foi de faixa-azul, com cinco ou seis lutas, e que logo depois estourou uma briga entre a turma da academia do Ryan Gracie e a de uma academia rival. Segundo ele, cenas assim eram comuns em São Paulo e no Rio.

Num Brasileiro no Clube Jardim Guanabara, contou, viu um homem dar um soco no jornalista Marcelo Alonso por causa de uma matéria que o Marcelo tinha feito sobre o professor desse homem. Ele também citou histórias de gente passando e dando tiro na casa de atletas de outra equipe. A equipe do Fábio Gurgel, disse ele, ficava fora dessa guerra.

O lado bom daquela época, na visão dele, é que tudo se treinava pensando em briga de verdade: defesa pessoal, taparia, luta sem kimono. O lado ruim era a rivalidade fora do tatame, que afastava muita gente que hoje treina tranquila.

Faixa-branca aprende a se defender antes de pontuar

Aqui o Demian foi muito claro. Para ele, o jiu-jitsu é a arte marcial mais eficiente que existe, e o perigo é esportivizar demais e virar o que, na opinião dele, aconteceu com o caratê e com o judô, que perderam a parte marcial. Ele citou o judô, que proibiu agarrar a perna depois que o leste europeu começou a ganhar muita luta, e chamou isso de decisão política.

O jiu-jitsu, segundo ele, tem a vantagem de a regra seguir a lógica do vale-tudo: montada e costas valem mais porque decidem uma briga de verdade. E quando apareceu a guarda 50/50, ninguém proibiu. Deixaram a técnica evoluir até a resposta surgir.

Na academia dele em São Paulo, contou, o primeiro ano do aluno é todo de arte marcial. Ele nem faz questão de que o faixa-branca compita. A guarda é pensada como posição de defesa contra soco, o aluno aprende a levantar rápido porque pode haver mais de um agressor, e há treino de dois atacando um.

“A luta mais comum é dois contra um, é três contra um.”

Demian Maia, no Pura Connection · 1:13:13

Humildade, calma e o que fica da conversa

Demian contou que o Fábio Gurgel, seu professor, recusava ser chamado de mestre, mesmo com vários títulos mundiais, por achar que tinha muito a aprender. Demian diz o mesmo sobre si. Lembrou também de um aluno que ganhava de todo mundo na academia, perdeu no segundo ou terceiro campeonato e nunca mais quis competir. A teoria dele é que o cara competitivo demais nem sempre é bom competidor, porque não sabe lidar com a derrota.

Ele ainda contou que conseguiu manter a calma quando o sogro entrou em pânico num rio em Bonito, mesmo de colete, e atribuiu isso ao jiu-jitsu. Citou a fala do Rickson Gracie sobre respiração, que acalmou ele só de ouvir enquanto dirigia.

“O primeiro socorro vem sempre do cara que te bota para dormir.”

Demian Maia, no Pura Connection · 0:15:56

O que fica para mim é a honestidade do relato. Um dos maiores nomes do jiu-jitsu no MMA admitindo que se perdeu tentando ser outro lutador, e que só voltou a ganhar em sequência quando assumiu de novo quem era. Para quem dá aula, a lição da faixa-branca vale ouro: antes de ensinar a pontuar, ensine o aluno a não levar um soco.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.