Pura Connection · Léo Santos
Léo Santos conta como a Nova União nasceu no subúrbio e o levou ao UFC
O campeão de jiu-jitsu fala da infância na Penha, da briga com a CBJJ, da troca do quimono pelo MMA e do TUF Brasil que quase não aconteceu.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 13 jun 2022 (1:30:34).
Léo Santos estava fazendo curso de piloto de helicóptero em Jacarepaguá quando o TUF Brasil apareceu. O filho tinha acabado de nascer, o MMA não pagava as contas e ele já pensava em arrumar emprego. Deu certo: ele venceu o reality e entrou no UFC. Mas, antes disso, contou, esteve a ponto de abrir mão da vaga por causa dos amigos.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me pegou foi como tudo na vida do Léo passa por gente. O primo que botou o jiu-jitsu na família, o patrocinador que ele chama de pai, o treinador que o conhece desde moleque. Ele mesmo resume: viaja o mundo dando seminário mais por amizade do que pelo nome.
Da Penha para a Zona Sul
O Léo cresceu na Penha, no subúrbio do Rio, numa família humilde. Segundo ele, quem levou o jiu-jitsu para dentro de casa foi o primo Del, que dava aula no Mello Tênis Clube, conhecido pelos bailes do bairro. Naquela época, conta, quando dizia aos amigos que fazia jiu-jitsu, ninguém sabia o que era. Isso só mudou quando o desafio entre jiu-jitsu e Luta Livre passou na Globo.
Aos 16 anos ele perdeu o pai e pensou em largar tudo para entrar nas Forças Armadas. O Del não deixou: abriu uma academia em Valqueire para o primo continuar. Ao lado dele estava Luizinho, patrocinador que o Léo trata como pai e que, pelo relato dele, pagava prêmio em dinheiro para a molecada que finalizasse no campeonato. Numa revista, o Luizinho chegou a desafiar qualquer adulto peso pluma a vencer o Léo, então com 16 anos.
“Eu não estaria no jiu-jitsu até hoje se não fosse o Del e ele.”
Léo Santos, no Pura Connection · 0:20:04
O grupo cresceu com a garotada de Valqueire, da Penha e de Niterói. O Léo conta que foi campeão adulto aos 14 anos e campeão mundial adulto aos 15. Quando o Del se juntou a André Pederneiras, o Dedé, que tinha muitos adultos, nasceu a Nova União. A meta, segundo ele, era ganhar da Zona Sul, das academias de Carlson, Gracie Barra e Gracie Humaitá. O Dedé liberava chave de pé, coisa proibida em muita academia, e já treinava com gente de fora do jiu-jitsu, como Marco Ruas e Luiz Alves.
A briga com a CBJJ e o título que faltou
O Léo conta que a Nova União foi a primeira equipe a cobrar da CBJJ remuneração para os faixas-pretas. Na época só se ganhava medalha. A cobrança virou briga, a equipe se afastou da confederação e ele pagou caro por isso.
“Eu me arrependo um pouco, porque eu não tive o título mundial de preta da CBJJ por conta disso.”
Léo Santos, no Pura Connection · 0:40:23
A compensação veio no evento Black Belt, que reuniu os 16 melhores leves do mundo numa chave só. Ele ganhou e diz que, para ele, valeu mais do que o título da CBJJ. Na final enfrentou Reinaldo Ribeiro. Saiu dali sentindo que era o rei dos leves e que não tinha mais o que provar no quimono.
A troca pelo MMA
Foi o Dedé quem sugeriu o MMA. Segundo o Léo, o Del foi totalmente contra, e ele só se decidiu depois de ouvir o irmão, Wagnney Fabiano, e o Luizinho. Ele já tinha feito uma luta de teste em 2000, contra Takanori Gomi. Na estreia depois da mudança, tomou um nocaute e diz que ficou com a cabeça no chão.
Ele também lembra do convite para lutar no Japão com só 20 dias de preparação. Ele aceitou porque sonhava conhecer o país. O primeiro treino de MMA terminou com ele deitado no tatame, sangrando. O Dedé mandou voltar no dia seguinte e depois o jogou na academia de Boxe Thai do Luiz Alves, onde apanhou de todo jeito. Quando o Léo disse que não ia conseguir lutar, o Dedé explicou por que confiava nele.
“No dia do primeiro treino, você tomou aquela surra, fechou a cara e foi para dentro.”
André Pederneiras, no Pura Connection · 0:54:31
O jogo também teve de mudar. Guardeiro de gancho, ele queria repetir no MMA o que Minotauro e Royce fizeram por baixo. Mas os adversários aprenderam jiu-jitsu, e ele teve de aprender queda, entrada de perna e a lutar por cima.
O TUF que quase não aconteceu
A vaga no TUF Brasil era na categoria de cima, até 77 kg, e quatro atletas da Nova União entraram na seletiva. O Léo conta que avisou os colegas antes de tudo.
“Se eu pegar um de vocês, eu não luto, eu saio.”
Léo Santos, no Pura Connection · 0:58:12
Não precisou. Na casa, ele era dos menores entre adversários que chegavam a 90 kg. Um irmão mais novo, evangélico, disse ter tido uma visão dele no time do Minotauro, com uma coroa de fogo. Pouco depois, o Minotauro o escolheu. O Léo perdeu a semifinal para um argentino, numa guerra eleita a melhor luta da temporada, mas o adversário quebrou o braço e, pela regra do programa, o Léo voltou para a final. Ganhou do Patolino, que hoje, segundo ele, treina na Nova União.
No UFC, a estreia foi um empate, depois de um corte de peso ruim. Vieram então sete vitórias seguidas na categoria leve, incluindo um nocaute em Las Vegas num rapaz falastrão que o evento vinha promovendo e uma vitória sobre Adriano Martins, que deveria colocá-lo no top 15 e não colocou. Ele acha que o jeito discreto pesou contra numa época de lutadores que vendiam luta no microfone. A última derrota, contra Clay Guida, ainda o incomoda: segundo o Léo, depois de um chute no corpo e dezenas de socos, até o diretor da comissão atlética se levantou pedindo para parar, e o árbitro deixou seguir. O Guida se recuperou e venceu.
O que fica da conversa
Aos 42 anos, o Léo diz que sabe que tem pouco tempo de carreira, mas continua acordando cedo para brigar com a garotada no treino e quer parar em paz, sem aquela mágoa que diz ver em ex-lutadores. Por isso conversa com gente como Pedro Rizzo e Murilo Bustamante. Com José Aldo, mantém um projeto de jiu-jitsu para crianças carentes em São Gonçalo. E tem uma regra para o futuro.
“Eu não quero ser um velho vaidoso.”
Léo Santos, no Pura Connection · 1:28:24
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.