Muito Mais Ação Jiu-Jitsu
Mica Galvão, faixa-marrom aos 17, finaliza três faixas-pretas em GP
No B-Cast, os apresentadores analisaram a maratona de lutas do Mica, lembraram lutas históricas e discutiram o nome brazilian jiu-jitsu e o exame de faixa.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 21 jun 2021 (1:35:53).
O assunto que abriu o quinto episódio do B-Cast foi um menino de 17 anos. Micael Galvão, o Mica, era o único faixa-marrom num GP de faixas-pretas e saiu campeão finalizando os três adversários. Para os apresentadores, a surpresa foi menor do que parecia: a expectativa de quase todo mundo era uma final entre ele e Roberto Jimenez.
Assisti ao programa e o que mais me chamou atenção foi a leitura que eles fizeram da fase do Mica. Segundo o comentarista Jaime Júnior, foram sete eventos em pouco mais de 20 ou 30 dias, com uma única derrota. E por trás da maratona, contou o Jaime, existe um plano do pai e professor, Melqui Galvão.
A maratona planejada por Melqui
O Jaime disse que conversou com o Melqui uns 15 ou 20 minutos antes do evento começar. O Mica e o companheiro Diogo estavam dormindo de cansaço, depois de muita viagem para conseguir lutar. Quando o Jaime achou aquilo uma loucura, ouviu do Melqui que era de propósito, e que não seria para sempre.
“Eu tenho que fazer isso agora porque eu preciso da experiência para o Mica.”
o apresentador, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:07:26
O apresentador Carlos Arthur resumiu o caminho recente do Mica: primeiro venceu Tainan Dalpra de forma marcante, depois fez uma boa luta com Johnatha Alves e acabou parado na experiência do faixa-preta, e por fim finalizou três faixas-pretas no GP. Segundo o Arthur, as finalizações vieram de guilhotina, chave de calcanhar e chave de braço. Ele comparou a carreira do Mica a um supletivo: de faixa-azul já enfrentava faixa-preta, de roxa lutou um grande evento, e de marrom estava pegando vários pretos cascudos.
O Jaime aposta que o Mica não vai precisar de seletiva para o ADCC de 2022: deve ir direto, por convite. Ele também comentou a parte física: com 17 anos, o Mica já lutava até 185 libras e, na opinião do Jaime, ainda nem tinha a musculatura toda desenvolvida.
A derrota para o Johnatha rendeu uma análise interessante. Na visão do Jaime, na luta anterior o Mica tinha vencido o Tainan muito na força física, e contra o Johnatha percebeu que isso não bastaria na faixa-preta. O adversário fez dois pontos, segurou a luta, e o Mica teve de correr atrás. Os apresentadores concordaram que não deixar o outro lutar também é jiu-jitsu, e que a rodagem contra faixas-pretas antigos, que puxam posições do baralho velho, só se ganha lutando.
Os outros resultados do fim de semana
O programa também passou por outras lutas. Craig Jones e Tye Ruotolo fizeram uma luta decidida pelos árbitros, sem pontos, num formato que só vale finalização ou decisão por combatividade. A apresentadora Mayara Munhoz achou que a luta poderia ter sido de qualquer um. Segundo ela, o combate já devia ter acontecido antes e foi adiado porque um dos dois passou mal depois da segunda dose da vacina.
A Mayara também comentou a primeira derrota de Rafaela Guedes na faixa-preta, numa luta sem quimono de decisão dividida. Ela lembrou que as duas já se enfrentaram na faixa-roxa, num Brasileiro, e que perdeu por 2 a 0. Em Oklahoma, Xande Ribeiro finalizou a final com um katagatame, e Rafael Lovato lutou no absoluto.
A Mayara, que tinha acabado de gravar com o Xande para o canal dela, contou que ele pediu para repetir todas as posições durante a gravação e que o combinado de meia hora virou uma hora. Ela lembrou ainda que a escola dele é a da Gracie Humaitá, ao lado de Saulo Ribeiro, famosa pelos estrangulamentos, e que num treino com ele foi estrangulada três vezes em quatro minutos.
As lutas que marcaram os apresentadores
Cada um escolheu as lutas que mais marcaram. O Jaime ficou com a final do absoluto do Mundial de 2012, quando Buchecha venceu Rodolfo Vieira, campeão do ano anterior, no primeiro absoluto dele. O Jaime torcia pelo Rodolfo e disse que foi uma derrota com gosto bom.
A Mayara citou a final do Mundial em que Michelle Nicolini quebrou o braço de Tammy: segundo ela, a Michelle avisou o árbitro, o árbitro não parou, e ela foi até onde precisava. O Arthur, que trabalhava como fotógrafo, lembrou de ter registrado Rodolfo Vieira contra Leandro Lo na Copa Pódio, Rodolfo contra Felipe Preguiça na final do ADCC de 2015 e, acima de todas, Roger Gracie contra Buchecha no Gracie Pro. Quando o Roger pegou as costas do Buchecha, contou, ele gritou atrás da câmera.
O Arthur também destacou a luta entre André Galvão e Ryron Gracie no Metamoris, 20 minutos só de finalização. Todo mundo esperava que o André passasse o carro, e a luta terminou empatada, sem finalização.
Brazilian jiu-jitsu ou só jiu-jitsu?
O apresentador Ronaldo Aoki lembrou que o UFC foi idealizado por Rorion Gracie para mostrar ao mundo a eficiência do jiu-jitsu, e que Royce Gracie foi anunciado como lutador de brazilian jiu-jitsu. Daí veio o debate sobre o nome. O Ronaldo disse que no Brasil sempre chamou de jiu-jitsu, e fez uma comparação.
“Como é que se chama o pão francês na França? Chama-se pão.”
o apresentador, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:46:01
Lá fora, porém, ele prefere brazilian jiu-jitsu, e não gosta de ouvir falar em American jiu-jitsu. O Arthur concordou: para ele, o nome reforça que a arte foi refinada no Brasil, e lembrou que o Lovato, americano apaixonado pelo Brasil, usa brazilian jiu-jitsu. A Mayara citou os mais de 90 anos de desenvolvimento da família Gracie desde a data de 1925 e comparou com o judô, que no mundo inteiro mantém os nomes dos golpes em japonês. Ela contou que Letícia Ribeiro, nos Estados Unidos, ensina as crianças a contar em português.
A conversa descambou para os nomes dos golpes. Baiana ou single leg, triângulo de mão ou os nomes em inglês para cada variação. O Jaime defendeu uma cartilha com os nomes em português no site da Confederação, e a turma lembrou nomes regionais: baianinha, bananinha para uma chave de pé, violino e catraca para chaves de braço, mão francesa para a americana.
Exame de faixa: sim ou não
O último tema foi graduação. O Jaime se declarou a favor da troca de faixa com exame, em que o aluno mostra estrangulamentos, passagens de guarda e raspagens. Ele citou uma ideia que ouviu de Alexandre Marciano: o lutador tem um nível de luta e um nível técnico, e um não garante o outro.
“Eu sou partidário da troca de faixas com exames de graduação.”
o apresentador, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:15:24
O Ronaldo contou que, na academia dele, usava quatro avaliações técnicas por ano, sem valer grau nem faixa, só para corrigir cada aluno de perto, e somava isso ao desempenho no treino. A Mayara disse que não gosta de nada que dependa de um único dia. O Arthur defendeu o exame e contou o caso de um faixa-roxa, o mais duro da academia, que travou na frente de todos e teve de refazer a prova uma semana depois.
O que fica do programa é o retrato de um momento em que o jiu-jitsu discute o próprio tamanho: um faixa-marrom de 17 anos finalizando faixas-pretas, eventos que só valem finalização e uma arte que já se pergunta como deve ser chamada e ensinada fora de casa.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.