Dos Nossos Podcast · Márcio Faraco
Respiração no MMA: Márcio Faraco e Werdum contam como o fôlego decide luta
O preparador respiratório de Maurício Ruffy explica por que o lutador sufoca no primeiro round, e o Werdum lembra do dia em que pediu para parar embaixo de um medalhista olímpico.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 8 set 2025 (1:15:27).
Todo mundo que já treinou sabe o que é ficar sem ar embaixo de alguém pesado. O que pouca gente para para pensar é que isso se treina. No Dos Nossos Podcast, o Fabrício Werdum recebeu o gaúcho Márcio Faraco, que hoje trabalha como preparador mental e respiratório de lutadores, entre eles o Maurício Ruffy, e a conversa girou em volta de uma ideia simples: tem luta que se perde pelo fôlego antes de se perder pela técnica.
Assisti ao episódio e o que mais me chamou atenção foi o próprio Werdum. Ele, que lutou 28 anos, contou sem vergonha nenhuma que já pediu para parar um treino por desespero, sem conseguir respirar.
“Foi no cem quilos, na montada, pedi para parar por desespero, por não estar respirando.”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:21:58
O dia em que Werdum pediu para parar
A história é de muito tempo atrás, quando o Werdum ainda era faixa-azul e morava em Madri. Segundo ele, não havia onde treinar jiu-jitsu, então ele foi parar no treino da seleção olímpica de judô da Espanha, só com faixas-pretas. Num desses treinos, rolou com o Ernesto Pérez, que o Werdum descreve como medalhista de prata olímpico e com uns 130 quilos, contra os noventa e poucos dele na época.
O judoca passou a guarda, montou no cem quilos e o Werdum, segundo ele mesmo, se fez de louco e pediu para parar. Sensação de sufocamento. Ele ri da cena hoje, mas lembra que isso é justamente o que não pode acontecer numa luta.
O Márcio usou essa história para explicar o trabalho dele. Segundo ele, uma das coisas que ele monta com os atletas é um protocolo de aquecimento para o lutador não sentir essa asfixia logo no começo. O Werdum concordou na hora: contou que chegava a aquecer uma hora no vestiário, começando devagar, para entrar no octógono como se já estivesse lutando.
Freio e acelerador
O Márcio compara o corpo a um carro com dois pedais, o freio e o acelerador. Segundo ele, a respiração é o que decide qual dos dois o atleta vai pisar, e isso muda de lutador para lutador. Tem o mais introspectivo, que demora a acelerar, e tem o que já chega elétrico e precisa se acalmar. Cada um recebe uma técnica diferente.
A primeira coisa que ele procura no atleta é a respiração pela boca. Segundo o Márcio, é a disfunção campeã, e a boca foi feita para comer e falar. O nariz filtra, aquece e umedece o ar, e ainda ajuda a controlar o gás carbônico. Para ele, a chave do gás de um lutador costuma estar em aumentar a tolerância ao gás carbônico.
“A gente respira aproximadamente 20 mil vezes por dia.”
Márcio Faraco, no Dos Nossos Podcast · 0:02:23
A conta dele é simples: se o hábito está errado, o erro se repete 20 mil vezes por dia. Por isso ele diz que começa pelo dia a dia e só depois pensa no round. Também contou que tem um protocolo de recuperação para o intervalo entre os rounds, quando o lutador sente aquele gás acumulado e a sensação de sufoco.
O Werdum emendou com a leitura que ele sempre teve no rola. Contou que, na final do ADCC em Barcelona contra o Roberto Cyborg, grampeou o adversário no cem quilos, sentiu que ele estava ofegante e ainda ouviu dele que o Werdum estava forte demais. Segundo o Werdum, ali ele ficou mais forte ainda. Ele também contou um detalhe técnico que usa no cem quilos: levantar um pouco as costas do adversário e pesar a mão ali para travar o diafragma. Segundo ele, os caras batem.
Altitude, México e o desmaio do mestre
Um dos momentos mais engraçados foi quando o assunto virou altitude. O Werdum disse que a preparação no México para a luta contra o Cain Velasquez foi a melhor da vida dele, e que no começo não conseguia correr cem metros.
Aí veio a história. O Rafael Cordeiro, o mestre do Werdum, resolveu dar um susto no Babalu, que segundo o Werdum tem medo de rato. Agarrou a canela dele na saída, o Babalu gritou, o mestre teve uma crise de riso e caiu desmaiado. Segundo o Werdum, por sorte ele já estava na grama e não na pedra.
O Márcio explicou o que aconteceu: quando a saturação cai muito, o corpo coloca a pessoa na horizontal para mandar oxigênio ao cérebro. Ele contou que o método em que se formou, o Oxygen Advantage, de uma escola da Irlanda voltada para atletas, tem exercícios que simulam a altitude sem o atleta sair do nível do mar.
Ruffy, Burns e os atletas de agora
O Márcio contou que já está indo para a terceira luta na preparação respiratória do Ruffy, e que passou o dia da gravação inteiro com ele. Disse que tem convicção de que o Ruffy vai ser campeão. Também contou que, segundo o que sabe, o Ruffy recusou patrocínio de casas de aposta com valores de milhões, porque não considera isso alinhado com a fé dele.
Ele também citou que já preparou o Gilbert Burns, o Durinho, e que passou um dia com o professor Melqui Galvão e os atletas dele. Na conversa sobre o Wanderlei Silva, que vai fazer uma luta de boxe contra o Vitor Belfort no dia 27 de setembro, o Werdum confirmou que vai estar no corner dele.
Sobre o Mica Galvão, o Werdum lembrou que conheceu o garoto criança, com uns 8 ou 10 anos, na academia do Cobrinha. O Márcio chamou o Mica de exemplo para as crianças, um guri disciplinado, e comentou a coragem dele de encarar o evento em equipes do Craig Jones em Las Vegas, com lutas de 8 minutos, só finalização e contra adversários de qualquer peso.
“O guri é um samurai.”
Márcio Faraco, no Dos Nossos Podcast · 0:50:48
O que fica da conversa
O Márcio contou que começou no jiu-jitsu em 1998, em Porto Alegre, com o Flávio Ferreira, faixa-preta do De La Riva. Treinou uns seis meses e parou, num ambiente que ele descreve como muito hostil naquela época. Voltou há três anos, treina com dedicação, compete de vez em quando e colocou os dois filhos no judô e no jiu-jitsu desde os 3 anos.
Ele também é obcecado por sono. Segundo o Márcio, o atleta raramente chega atrasado no treino, mas não tem o mesmo compromisso com a noite dormida. O Werdum deu o exemplo mais claro possível: contou que, na defesa de cinturão no Brasil, estava desfocado, com 20 a 30 pessoas entrando e saindo do quarto na madrugada antes da luta, e foi dormir às 4 da manhã.
“Eu tava pensando em tudo, menos na luta.”
Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 1:02:12
Saí da conversa com vontade de prestar atenção em como eu respiro no rola. Se até o Werdum já bateu por falta de ar, qualquer um de nós tem o que aprender.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.