Connect Cast · Rodrigo Comprido, Ítalo Vilardo
Rodrigo Comprido rebate Fábio Gurgel e defende jiu-jitsu nas escolas
Ao lado do preparador físico Ítalo Vilardo, o campeão mundial falou de escola pública, faixa-preta banalizada, lesões e da pressão sobre as crianças no tatame.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 6 nov 2025 (2:02:34).
Rodrigo Comprido sentou no Connect Cast com o joelho recém-operado e saiu da conversa com uma das opiniões mais fortes do episódio. Quando o assunto chegou numa entrevista em que Fábio Gurgel disse ser contra o jiu-jitsu nas escolas, o Comprido foi direto: disse que não tinha visto a declaração, que todo mundo sabe que ele não morre de amores pelo Fábio, que considera o Fábio um excelente professor, e que mesmo assim a opinião estava errada.
“Esse tipo de opinião é uma coisa egoísta e que não foi bem pensada.”
Rodrigo Comprido, no Connect Cast · 1:08:11
Assisti à conversa inteira e esse foi o trecho que mais rendeu. Mas tem muito mais coisa ali. O Comprido dividiu a mesa com Ítalo Vilardo, preparador físico que trabalha com gente como Rodolfo Vieira e Caio Borralho, e os dois passaram duas horas falando de treino, de professor ruim, de acidente no tatame e de criança sendo tratada como atleta profissional.
Jiu-jitsu na escola pública
Quem puxou o tema foi o apresentador, que contou ter treinado jiu-jitsu numa escola pública, a mesma onde Rafael dos Anjos treinava. Segundo ele, o Rafael depois foi para a Gracie Barra porque queria algo além, e virou o lutador que virou. Para o apresentador, a escola funciona como porta de entrada e manda aluno para as academias.
O Comprido concordou e foi além. Para ele, quanto mais gente praticar jiu-jitsu no mundo, melhor fica economicamente para os bons professores. Ele disse que o jiu-jitsu nas escolas, nas Olimpíadas ou em qualquer lugar ajuda na autoconfiança, no autocontrole e na saúde de uma criança, mesmo que ninguém ali vire campeão. E puxou um exemplo da própria carreira para mostrar que dá para pensar no esporte acima do bolso.
“Tem anos que eu sou a favor de acabar com a vantagem de meia-guarda. Você tem noção de quantas lutas eu ganhei com a vantagem de meia-guarda?”
Rodrigo Comprido, no Connect Cast · 1:10:15
O raciocínio dele é simples: para ele, pessoalmente, seria melhor a regra continuar, porque ele ainda luta e ainda ganha assim. Para quem assiste e não entende jiu-jitsu, segundo o Comprido, o esporte fica melhor sem ela. Na mesa, a ideia foi que o mesmo vale para a escola: o que é bom para uma academia pode ser pequeno perto do que é bom para o esporte. O Ítalo lembrou que na escola dá até para filtrar melhor quem vai ensinar, com ficha criminal e diploma exigidos em edital.
Faixa-preta não faz professor
Esse foi o outro assunto que esquentou. Os dois reclamaram da faixa-preta banalizada: gente que pega a preta em pouco tempo, gente que treinou pouco e aparece dando aula em outra cidade com graus na faixa. O Ítalo, que é formado em educação física, disse que a faculdade melhorou muito o jeito dele de dar aula e separou três papéis diferentes: o faixa-preta, o professor e o treinador.
Ele contou que um aluno faixa-preta, bom de jiu-jitsu, pensou em abrir academia nos Estados Unidos, e ele respondeu que o aluno não tinha condição nenhuma de dar aula. Segundo o Ítalo, liderar uma academia pede bem mais do que ensinar uma posição a um iniciante.
O Comprido achou legal a ideia de regulamentar, mas não viu quem faria isso. Ele lembrou que a IBJJF é o órgão máximo e que, se alguém não gosta de uma regra, pode simplesmente dizer que não segue a federação e botar na cintura a faixa e os graus que quiser. A saída que sobrou na conversa foi o próprio aluno pesquisar: redes sociais, filiação da academia e antecedentes criminais.
Sobre graduação, o Comprido falou da faixa-coral com uma tranquilidade que me chamou atenção. Disse que ainda faltam uns cinco anos para ele, que nem pensa nisso e que ela não faz diferença para ele, como não fez para Rickson. Segundo o Comprido, quando ofereceram a faixa ao Rickson, ele agradeceu e disse que ia guardar no cofre, porque sabe quem é. Na mesma conversa, o Ítalo contou que acabou de receber do Comprido o quinto grau da faixa-preta, depois de quase 20 anos na faixa.
O acidente que mudou a forma de treinar
O momento mais pesado foi quando o Comprido contou o que aconteceu com Feijão, seu parceiro de treino. Segundo ele, os dois treinavam para o Mundial, no último treino. Feijão era faixa-roxa, dos mais duros da academia, com condição de ser campeão mundial. O Comprido entrou num tomoe-nage, o Feijão estava com a mão presa na faixa e caiu de testa num tatame de encaixe já gasto. A data ficou em dúvida na mesa, entre 1996 e 1999.
“Ele bateu de cabeça numa queda. Ele é tetraplégico até hoje.”
Rodrigo Comprido, no Connect Cast · 0:54:01
O Comprido contou que o Feijão saiu andando da academia, foi de carro até outro lugar e só depois foi levado ao hospital. Ele disse acreditar que houve erro no atendimento, do socorro à cirurgia, e que se o procedimento certo tivesse sido feito, talvez o Feijão estivesse bem hoje. Por isso ele insiste: com dor no pescoço, o aluno fica parado e a ambulância é chamada. Ele contou que teve alunos que saíram da academia com colar cervical, reclamando, e que hoje estão todos bem. Ele disse também que desde então ficou encucado com essa história de último treino.
Preparação física, lesão e idade
O Comprido disse que a geração dele foi a primeira a fazer preparação física no jiu-jitsu. Contou que era patrocinado pelo Vasco em 1999 e fazia o treino físico junto com o time de judô do clube, que tinha a maior parte da seleção brasileira antes da Olimpíada de 2000. Lembrou de treinar judô com o peso pesado Daniel Hernandes e passar o treino inteiro agachado. O preparador dele na época era Marquinho Tatu, com quem o Ítalo também trabalhou.
Sobre lesões, ele deu uma explicação que todo faixa-preta mais velho vai reconhecer. Quando machucou o ombro, começou a colar o cotovelo no corpo, esgrimou melhor e passou a pegar mais as costas. Quando torceu o joelho, trocou a guarda de gancho pela meia-guarda.
“Cada lesão fecha uma porta e abre uma janela.”
Rodrigo Comprido, no Connect Cast · 0:30:05
Agora ele se recupera de um ligamento cruzado rompido, que tirou ele do Mundial Master. Contou que nunca ganhou um Mundial Master e que perdeu na final da última vez. Disse que ele e Xande Ribeiro são cria de competição e que ficar longe de campeonato é estranho. Também admitiu que o jiu-jitsu dele é muito mais eficiente hoje do que aos 20 anos, mas que o corpo já não chega com a mesma velocidade.
O Ítalo trouxe o lado do preparador. Contou que Caio Terra e Felipe Costa, alunos do Comprido, treinaram com ele muitos anos e usavam a preparação física como complemento. Disse que o Rodolfo, perto de luta, faz musculação só duas vezes por semana. E lembrou que Leandro Lo o procurou algumas vezes, mas dizia que não ia ter disciplina e malhava do jeito dele. Segundo o Ítalo, funcionou para o Leandro, mas ninguém deve se espelhar nisso.
Criança no tatame e o peso do pai
A parte final foi sobre crianças. O Ítalo contou que não aceita treinar atletas de 10 a 12 anos, porque quem quer o treino costuma ser o pai. Falou de um menino levado aos Estados Unidos para treinar, que ficou sem escola, se machucou e voltou sem lutar o Mundial. E de uma menina cuja mãe queria mantê-la na categoria de baixo com sauna, sem entender que a filha estava crescendo.
“Minha obrigação é pensar no seu depois. Eu não quero só o resultado.”
Ítalo Vilardo, no Connect Cast · 1:28:13
O Comprido fechou esse assunto com a própria trajetória. Disse ter certeza de que tirou muita gente boa do caminho, atletas melhores que ele que pararam depois de uma derrota, de uma lesão ou porque precisaram trabalhar. Para ele, a criança precisa ter opção: competir, sim, mas também ir para a faculdade e escolher outra coisa se quiser.
O que fica da conversa é a visão de dois caras que viveram o jiu-jitsu de dentro e continuam cobrando mais dele: professor preparado, escola pública com tatame e pai que cuida em vez de pressionar. Dá para discordar de um ponto ou outro, mas o Comprido deixou claro de que lado está na discussão com o Fábio Gurgel.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.