Pura Connection · Rogério Camões
Rogério Camões, preparador de Anderson Silva, abre o método que usa no UFC
Do judô ao powerlifting aos 66 anos, ele explica como treina força, quando tira um atleta da luta e por que quase se aposentou.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 7 jun 2024 (1:27:10).
Rogério Camões está no UFC desde o UFC 15 e diz que só passou a ser conhecido de verdade quando chegou a Anderson Silva. Faixa-preta de judô, ex-fisiculturista e hoje com 66 anos, ele foi o preparador físico do Anderson do começo ao fim da passagem dele pelo UFC. No Pura Connection, contou como montou um método quando não havia informação nenhuma, por que quase se aposentou depois do Anderson e como decide se um atleta está pronto para lutar.
“Até chegar no Anderson, cara, eu vim lá do UFC 15. Demorou. O Anderson chancelou o trabalho.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 0:33:55
Assisti à conversa e gostei porque o Camões fala de preparação física sem mistério, com número, e ao mesmo tempo com muito coração. A parte técnica é ótima para quem treina jiu-jitsu, e a parte humana, no fim, me pegou de surpresa.
Do judô ao fisiculturismo: o lutador que não queria ser fraco
O Camões contou que, ainda juvenil, estava na seleção carioca de judô como peso leve, lá embaixo na categoria de 66 quilos. Num campeonato de jogos estudantis, um faixa-preta sênior treinou com ele e disse que ele estava fraco demais. Na época, segundo ele, todo mundo era contra musculação para luta, porque achavam que deixava o lutador preso e sem flexibilidade. Ele fez por conta própria.
Foi subindo de peso até chegar a quase 86 quilos no judô e, depois, a 120 quilos no fisiculturismo. Mais tarde foi para o powerlifting, onde diz ter sido campeão brasileiro duas vezes. Aos 66 anos voltou a competir, venceu o estadual e, na data da gravação, estava a três semanas do brasileiro. Ele treina num instituto que atende atletas com deficiência, ao lado de cadeirantes, e diz que isso mudou a forma como ele escuta atleta reclamando.
O jiu-jitsu que ninguém conhecia nos Estados Unidos
Nos anos 80, segundo o Camões, karatê, jiu-jitsu, judô, boxe e muay thai conviviam na mesma rede de academias no Rio, todo mundo trabalhando para a mesma empresa. Havia rivalidade do lado de fora, mas por dentro a turma trocava treino.
Foi nesse ambiente que ele refinou o chão. O Camões contou que, por volta de 1985 e 1986, dava aula na Corpore do Flamengo e, depois da aula, treinava com Pedro Sauer, que saía do treino do Rickson e ia rolar com ele. Não era aula, era rola, e o Pedrinho, como ele chama, tinha uma guarda que ninguém passava.
“Um dos caras que mais refinou meu chão foi o Pedro Sauer. Ele tinha uma paciência...”
Rogério Camões, no Pura Connection · 0:05:46
Em 1987, ele foi aos Estados Unidos disputar um campeonato internacional de judô. Segundo o Camões, derrubava, levava para o chão e ganhava de todo mundo por lá, e foi assim até as semifinais. Os americanos perguntavam o que era aquilo. Quando ele respondia que era jiu-jitsu, ninguém sabia do que se tratava.
Como o preparador do Anderson Silva treina força
A parte que mais serve para quem treina jiu-jitsu é a explicação sobre força. Para o Camões, não adianta só levantar peso: o segredo é a transferência do que se faz na academia para a luta. O jiu-jitsu, diz ele, tem muita isometria, momentos de explosão e força dinâmica, e o erro comum é treinar só um tipo.
“Você tem todas as variações de força numa luta de jiu-jitsu. Você vai ter que treinar todas.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 0:12:03
O método dele começa por um exercício básico, como o levantamento terra, em que o atleta descobre a carga máxima que levanta uma vez. A partir desse número ele trabalha por porcentagem: cerca de 70% para hipertrofia, 75% a 80% para manter a força. Ele explica que o lutador não precisa ficar buscando recorde, porque não é levantador de peso, e que séries de seis repetições já melhoram muito a força com menos risco de lesão. Tudo isso periodizado conforme o calendário de lutas, com fases de recuperação.
Ele também separa carga interna, que é o treino, de carga externa, que é trabalho, filho, noite mal dormida. Para o Camões, o atleta amador que trabalha o dia inteiro precisa levar isso em conta, porque a fisiologia é a mesma para todo mundo.
Avaliação, coração e o atleta que não luta
Hoje, segundo ele, cada atleta é avaliado no começo do camp, durante e antes da luta, com apoio de médicos do esporte e um avaliador que faz medições semanais. Ele diz que avalia até o coração dos lutadores. Se o atleta não chegou onde deveria, ele não luta. No passado, lembra o Camões, o cara lutava pela honra e ia de qualquer jeito, mesmo sem treinar direito.
Ele contou que o Dana White costuma elogiar a forma física dos atletas dele, e citou Mackenzie Dern, que segundo ele aguenta cinco rounds girando. Também disse que um preparador hoje tem tudo pronto no site do UFC Performance Institute, enquanto ele precisou criar o próprio método com um "laboratório" de atletas.
“Os números estão aqui. Não dá para cansar. Se cansar, é a cabeça.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 0:40:40
Depois do Anderson, a vontade de outro cinturão
Sobre o Anderson, o Camões diz que o mais importante foi ter trabalhado com ele da primeira à última luta no UFC, sem que o lutador trocasse de treinador, mesmo com acesso aos melhores do mundo. Para ele, o auge do Anderson foi por volta dos 35, 36 anos, e o desgaste depois disso veio da pressão acumulada: patrocinador, entrevista, família, negócios e fã chegando na hora errada.
Quando a carreira do Anderson acabou, ele pensou em se aposentar, porque sabia que não haveria outro Anderson. Mudou de ideia. Disse que não quer parar sem conquistar outro cinturão com outro atleta, e que hoje trabalha com uma geração de 23, 24 anos que chega ao UFC pensando também no marketing pessoal. Quem precisa se adaptar, na visão dele, é o treinador.
No fim, o Camões contou que acordou no dia da gravação com uma mensagem da esposa do seu único mestre de judô, faixa-coral de 78 anos, que tinha recebido um diagnóstico de câncer. Ele disse ao mestre que agora vinha a luta verdadeira. É a imagem que fica da conversa: um preparador que mede tudo em número, mas que trata a arte marcial como família.
“Tudo que ele fez por mim, agora é minha vez de ser o cara forte ali do lado dele.”
Rogério Camões, no Pura Connection · 0:59:08
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.