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Pura Connection · Sérgio Malibu

Sérgio Malibu conta como sobreviveu a um tiro no peito e a um infarto

Surfista antes de ser lutador, Sérgio Malibu lembrou a confusão com um surfista havaiano, os tempos de Rolls Gracie, o tiro no peito e o infarto de 2023.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 8 fev 2024 (1:20:15).

Sérgio Malibu era surfista e não queria saber de luta. Mudou de ideia no dia em que viu Rickson Gracie estrangular um surfista havaiano de 130 quilos no meio da rua até ele apagar. Foi assim, contou Malibu no Pura Connection, que ele entendeu que o golpe funcionava e resolveu entrar no jiu-jitsu.

“O cara acabou desmaiando. Aí eu entendi que o golpe funcionava. Então aquilo fez eu entrar no jiu-jitsu.”

Sérgio Malibu, no Pura Connection · 0:17:33

Assisti à conversa inteira e é daquelas que parecem roda de amigos na praia. Malibu, hoje faixa-coral e com mais de 60 anos, passou pela ligação entre o surfe e o jiu-jitsu no Rio, pelas aulas de Rolls Gracie, pelo açaí que a turma tomava perto da academia, pelo tiro que levou no peito e pelo infarto de 2023. Separei o que mais me marcou.

A prancha quebrada e o estrangulamento de Rickson

A história começa em São Conrado. Segundo Malibu, ele tinha emprestado uma prancha ao amigo Foca, a prancha escapou do pé dele e bateu na cabeça de um havaiano. O havaiano, com raiva, quebrou a prancha com a quilha. Malibu tinha 17 anos, o outro tinha 130 quilos, e ele admite que amarelou. Na época, lembra, prancha era como um troféu.

Dias depois, segundo o relato, Rickson apareceu na praia da Barra, chamou Malibu de frouxo e disse que o havaiano estava por ali. O grupo foi até a oficina do shaper Rico, onde o havaiano estava fazendo prancha. A ideia era levar a prancha dele como compensação. Rico não deixou, dizendo que aquilo seria roubo, e então um dos surfistas do Arpoador quebrou a prancha do havaiano na calçada.

Aí o havaiano desafiou: um de cada vez. Abriram a roda, e Malibu conta que achou que era hora de todo mundo ajudar o Rickson. Não foi preciso. Rickson agarrou a cintura, passou para as costas e encaixou o estrangulamento, enquanto alguém gritava para manter o golpe. Malibu diz que não entendia nada de jiu-jitsu, e que aquela briga virou a propaganda que ele faz até hoje.

Arpoador, Rolls Gracie e o açaí com tâmara

Segundo Malibu, a ligação entre surfe e jiu-jitsu nasceu quando Rickson e Rolls conheceram uma turma do Arpoador numa viagem ao Peru. Dessa turma, Álvaro Romano e Fábio Santos foram treinar com Rolls. Malibu, que se diz medroso na época, começou a treinar na Barra com Crolin Gracie, seu primeiro professor. Foi o Álvaro que perguntou por que ele ia tão longe se morava em Copacabana, perto do Rolls.

Ele lembrou que as aulas em Copacabana duravam duas horas e que a turma fazia rateio de frutas compradas no Ceasa, dividindo caixas de mamão e maçã. Um desses encontros, contou, foi no Bairro Peixoto, onde Rolls morava. O açaí entrou por uma loja de produtos do Norte que ficava na mesma rua da academia, na Figueiredo Magalhães. Segundo Malibu, Hélio Gracie, que veio de Belém do Pará, adorava a fruta, e a turma passou a bater o açaí com tâmara e água de coco.

Malibu também contou que treinou com Royce, dez anos mais novo. Para ele, o Royce era um magricelo que acreditava na mentoria do pai e que, na hora de provar, foi mais que um gavião. Na visão dele, era essa a força da escola daquela época.

“Eu acho que o maior poder do jiu-jitsu são os mentores. Os professores que nós tivemos acreditavam de uma forma que fazia um passarinho acreditar que era gavião.”

Sérgio Malibu, no Pura Connection · 0:44:53

O tiro no peito e a filha Geovana

Malibu falou com franqueza da fase ruim. Disse que era brigão, andava perturbado com o poder do jiu-jitsu e se envolveu com drogas, que conseguiu largar. Numa briga, o outro estava armado e deu dois tiros. Um acertou o peito e furou os pulmões. Ele apagou no carro, a caminho do hospital Miguel Couto, e conta que sentiu o corpo virar dois em um, consciente mas sem conseguir se mexer.

Também contou, com carinho, da filha Geovana, que nasceu com deficiência, era cega e não falava. Ele levava a menina à praia de Copacabana para molhar os pés, e diz que sabia quando ela estava feliz com ele. Geovana morreu com quase 13 anos. Malibu ainda tem uma tatuagem com o nome dela.

Defesa pessoal, baratoplata e o infarto de 2023

Sobre o jiu-jitsu de hoje, Malibu se define como um old school apaixonado pelo new school. Acha que a defesa pessoal virou produto em extinção e que hoje um faixa-preta que bate em alguém arruma problema sério, por causa de câmera e processo. Por isso ensina primeiro a abrir a mão e pedir para parar. Lembrou que Rolls dizia, na sexta-feira, que os alunos estavam preparados para o fim de semana, porque o jiu-jitsu ainda não era conhecido e ninguém tinha medo dele.

Ele contou que num seminário no Sul alguém disse para não chamá-lo, porque tudo o que ele mostrava estava no livro do Hélio Gracie. Desde então tenta sempre levar algo moderno, como a baratoplata, que aprendeu há pouco. Quando um rapaz comentou no Instagram que aquilo era básico, respondeu que no tempo dele o joelho na barriga servia para chegar perto e bater, e hoje serve para marcar ponto.

“Eu sou um old school apaixonado pelo new school.”

Sérgio Malibu, no Pura Connection · 0:41:49

Em outubro de 2023, Malibu teve um infarto. Um mês depois viajou para os seminários no exterior e, na Suíça, ainda encarou uma subida na neve à noite para um jantar de negócios, com dor no peito. Hoje faz musculação quase todo dia, nada, corre e pedala, e voltou aos poucos ao tatame. Disse que se inspira em Joe Moreira, que para ele é o coroa mais forte que existe. O que fica da entrevista é isso: um cara que diz não viver do passado e que ainda tem viagem marcada.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.