Podcast Nem Me Viu · Wallid Ismail
Wallid Ismail, o Gracie Killer, conta por que Carlson foi seu segundo pai
No Nem Me Viu, o dono do Jungle Fight lembrou a chegada ao Rio aos 15 anos, as lutas contra Ralph, Renzo e Royce Gracie e a noite em que defendeu a academia de Rickson.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 18 mai 2023 (2:36:45).
O Wallid Ismail chegou ao Rio de Janeiro com 15 anos, sem dinheiro para pagar academia, depois de dois dias e duas noites de ônibus desde Fortaleza. Parou na casa de uma irmã, que por sorte morava perto da academia do Carlson Gracie. Ele contou ao Fabrício Werdum, no Nem Me Viu, que o Carlson deixou ele treinar duas vezes por semana de graça. No primeiro dia, ele chegou de manhã e só saiu à noite.
“Falou que é duas vezes, mas não falou quanto tempo, né?”
Wallid Ismail, no Podcast Nem Me Viu · 1:15:04
Assisti às duas horas e meia de conversa e o Wallid é aquilo que todo mundo conhece: fala alto, briga com meio mundo e agradece a quem ajudou. Mas no meio das histórias do Jungle Fight tem um pedaço grande da história do jiu-jitsu contada por quem estava no centro das brigas entre as academias nos anos 90.
De Manaus à academia do Carlson
Segundo o Wallid, tudo começou em Manaus. Ele brigava o tempo todo na rua, e um primo chamado Mohamed, que hoje produz o Jungle Fight no Amazonas, levou o menino para treinar jiu-jitsu. Aos 15 anos, ele pediu ao pai para ir ao Rio. O pai queria o filho cuidando das lojas da família e não bancou a viagem. Um empresário deu a passagem até Fortaleza, e o resto foi de ônibus.
O Carlson virou, nas palavras dele, o segundo pai. O Wallid disse que o mestre não cobrava de quem queria treinar, que ensinava para quem não tinha dinheiro e que por isso formou o maior time da história. Ele contou que, nos campeonatos de jiu-jitsu, se juntassem todas as outras academias, não faziam os pontos da equipe do Carlson.
“Esse foi meu segundo pai. Me ensinou tudo da luta, me protegeu muito.”
Wallid Ismail, no Podcast Nem Me Viu · 1:37:42
O Wallid também disse que muitos alunos, quando começaram a ganhar dinheiro, pararam de pagar o Carlson, e que ele ficou ao lado do mestre até o último dia. A última grande homenagem pública ao Carlson, segundo ele, foi no Jungle Fight. Foi do Carlson que ele herdou o apelido de vira-lata e a frase de que o guerreiro de verdade fica feliz na hora da luta.
Ralph, Renzo e Royce
O Wallid contou que a primeira luta contra os Gracie foi com o Ralph, e que ganhou. Depois veio o Renzo, na época em que havia uma rivalidade forte entre a Gracie Barra e a academia do Carlson. Segundo ele, o outro lado mudava as regras a toda hora: dois tempos de 15 minutos, depois 30 minutos, depois uma hora. Ele aceitou tudo e disse que venceu por cima, atacando o tempo todo.
Ele lembrou que foi nessa luta que o jornalista Marcelo Alonso começou a cobrir o assunto e que a repercussão foi gigante numa época sem internet. Depois, segundo o Wallid, a rivalidade com o Renzo foi para o lado pessoal, com gente da família inventando histórias sobre ele, e uma revanche nunca saiu.
O Royce veio depois. O Wallid contou que o Royce chegou ao Brasil desafiando todo mundo para uma luta sem tempo e sem pontos, na praia de Copacabana, com o público lotando tudo desde a tarde. Ele fez o Royce apagar e diz que foi o dia mais feliz da vida. Hoje a relação é outra: ele contou que já deu carona ao Royce em Los Angeles e que a rivalidade passou.
“Quando eu botei ele para dormir, foi o dia mais feliz da minha vida.”
Wallid Ismail, no Podcast Nem Me Viu · 2:08:12
A noite na academia do Rickson
A história que mais me chamou atenção foi a do Rickson. O Wallid admitiu que, mais novo, falou muita bobagem do Rickson. Mas contou que, depois de uma briga na praia com a turma da luta livre, correu a notícia de que iam invadir a academia do Humaitá. Ele foi com mais quatro no carro, e na hora ficaram só ele e mais dois ao lado do pessoal da casa.
Anos depois, no Japão, o Rickson lembrou disso. O Wallid disse que se emocionou porque achou o Rickson parecido com o Carlson no jeito de falar, e que hoje tem carinho e respeito por ele. Também elogiou o Kron, filho do Rickson, por ter ido lutar MMA sem precisar.
“Quando os caras foram invadir a academia lá do Humaitá, você foi lá e ficou com a gente até o final.”
Wallid Ismail, no Podcast Nem Me Viu · 2:03:57
O desafio de 1991 e o Jungle Fight
O Wallid considera o maior legado dele o desafio de 1991, quando tinha 23 anos. Segundo ele, a turma brigava na rua e dentro das academias, e ele propôs fazer aquilo de forma profissional. A Globo transmitiu ao vivo o jiu-jitsu contra a luta livre, e o jiu-jitsu ganhou por 3 a 0. Ele venceu o Renan Pitanguy numa luta que chamou de duríssima. Para o Wallid, aquele evento serviu de modelo para o UFC, criado dois anos depois.
O Jungle Fight nasceu em 2003, num hotel no meio da floresta amazônica, com apoio do japonês Antonio Inoki. O Werdum lutou na primeira edição contra o Napão, e o Wallid contou que o Werdum ligou da Espanha pedindo vaga. Segundo o Wallid, mais de 450 lutadores passaram pelo evento e seguiram carreira internacional, entre eles José Aldo, Renan Barão, Lyoto Machida e Deiveson Figueiredo.
O Lyoto entrou por telefone e confirmou uma história: o Wallid avaliou o Lyoto num treino na academia do Inoki e praticamente obrigou o rapaz a fazer MMA. A regra do Wallid para os atletas dele também ficou marcada: se perder saindo na porrada, volta; se ganhar amarrando por pontos, não volta.
O que fica
O Wallid passou boa parte do programa falando de gratidão, e o jiu-jitsu aparece como a raiz de tudo: o Carlson que não cobrava, a lealdade que o fez ficar ao lado do mestre, as lutas contra os Gracie que abriram caminho para o vale-tudo na TV. Ele também contou que deu um relógio ao Minotauro quando ele já era campeão, para ensinar que o lutador precisa se vestir bem e saber se vender. Goste ou não do jeito dele, é difícil contar a história do vale-tudo brasileiro sem passar por ele.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.