Pura Connection · Antoine Jaoude
Antoine Jaoude conta quem trouxe o wrestling para o jiu-jitsu no Rio
Referência do wrestling brasileiro, Antoine lembra os mestres que abriram as academias para a luta olímpica há mais de 20 anos e explica por que entrou no MMA.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 11 nov 2024 (1:07:53).
Hoje ninguém discute que o wrestling faz diferença no jiu-jitsu e no UFC. O Gordon Ryan veio do wrestling, os campeões de MMA treinam queda o ano inteiro. Só que, segundo Antoine Jaoude, essa ideia tem dono antigo, e quase ninguém lembra quem foi.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi isso: o Antoine, que foi da seleção brasileira de luta olímpica e virou referência do wrestling no país, fez questão de citar nome por nome os professores de jiu-jitsu e luta livre que chamaram ele para dentro das academias no fim dos anos 1990 e começo dos 2000.
“Há 24 anos atrás eles tiveram essa visão e quase nunca ninguém fala sobre isso.”
Antoine Jaoude, no Pura Connection · 0:21:12
Paulo Caruso, Malibu e Brigadeiro: os primeiros a abrir a porta
O primeiro nome da lista do Antoine é o mestre Paulo Caruso. Segundo ele, em 1994 o Caruso convidou a turma do wrestling para um treino aberto na academia que estava inaugurando na Barra da Tijuca. O Antoine conta que o grupo saiu em comboio da Zona Sul, o que naquela época era quase uma viagem. Para ele, ali ficou marcado que o Caruso foi um dos primeiros a colocar o wrestling dentro de uma academia de jiu-jitsu.
Depois veio o Malibu, já falecido. O Antoine lembra que em 1999 ou 2000 o Malibu, junto com o Sylvio Behring, chamou ele para treinar a equipe no Recreio Shopping, que ainda estava começando. Foram três meses passando o wrestling competitivo para os alunos. Ele conta que o Douglas Moura, hoje lutador conhecido, estava naquele grupo e até hoje comenta que lembra dele puxando o treino.
O terceiro é o Brigadeiro, e o Antoine brincou que ia levar bronca se esquecesse dele. Segundo ele, o Brigadeiro ligou dizendo que precisava colocar wrestling na academia, e foi assim que nasceu a Barra Wrestling, a equipe do Antoine, dentro do espaço do Brigadeiro no Riviera.
“Mestre, preciso botar wrestling na minha academia.”
Antoine Jaoude, no Pura Connection · 0:21:45
Ele também lembrou que, antes da geração dele, o Beto Leitão já dava aula de wrestling na academia Carlson Gracie. Foi o Beto, aliás, quem recebeu o Antoine na Budokan quando ele chegou ao Brasil.
A troca com a Alliance que levou Antoine ao ADCC
Tem uma história boa sobre o ADCC. O Antoine conta que, no mesmo período, o Traven estava se preparando para a superluta contra o Zé Mário. Formou-se uma parceria entre a Alliance e o pessoal dele: o Traven, o Castelo Branco e outros atletas treinavam wrestling com o Antoine, e ele fez o camp para o primeiro ADCC treinando com a elite da Alliance.
Segundo o Antoine, quem colocou ele no ADCC foi o Traven, junto com o Kid Peligro. A troca era simples: você me treina, eu tento te colocar na seletiva árabe que estava começando. Como o Antoine tem dupla nacionalidade, deu certo. Ele diz que foi campeão da primeira seletiva árabe do ADCC, em 2001, e depois bicampeão.
Do Líbano à Budokan de Marco Ruas
A história pessoal do Antoine explica muita coisa. Ele nasceu no Brasil mas foi criado em Beirute, no Líbano, onde o wrestling passava na TV. Ele conta que via os caras se jogando naquele círculo e achava que era uma quadra de basquete. Pediu à mãe para fazer aquele esporte, e acabou treinando wrestling dentro de um pequeno quartel onde o pai servia, durante a guerra.
Chegou ao Brasil com 13 para 14 anos, depois de fugir pela Síria. Estudando na Urca, entrou numa academia que tinha a luta livre do Eugênio Tadeu. Um professor achou ele forte e levou para a Budokan, onde ele viu os tapetes de wrestling na entrada e reconheceu o esporte que tinha praticado no Líbano.
A Budokan era a equipe do Marco Ruas. O Antoine conta que teve a honra de ser o sparring de porta fechada do Marco para o primeiro UFC dele. Também ajudou o Pedro Rizzo na primeira luta dele no UFC e o Hugo Duarte na época do Pride. Enquanto isso, perseguia o sonho olímpico: em 1996, com 17 anos, perdeu a vaga por um ponto no pré-olímpico, e aquilo virou obsessão.
MMA para pagar o sonho olímpico
Uma coisa que eu não sabia: o Antoine entrou no MMA por dinheiro, e dinheiro para o wrestling. Segundo ele, não havia investimento na luta olímpica, e era frustrante estar pronto para um torneio e não ter verba para ir. A estreia foi em 2001, num evento em Ribeirão Preto, contra o Cunha, que ele diz ser hoje da Gracie Barra, para bancar a ida a um pré-olímpico.
“Essa migração para o MMA foi mais buscando dinheiro para me apoiar no esporte olímpico do que qualquer outra coisa.”
Antoine Jaoude, no Pura Connection · 0:51:17
O curioso é que ele não ficava nervoso no MMA. Ficava nervoso no wrestling, porque ali representava o país. Em 2000, segundo ele, trouxe a primeira medalha de prata do Brasil no Pan-Americano de wrestling depois de uns 15 anos sem medalha. O Antoine lembra que o Shaolin estava na equipe e chegou a tentar o wrestling no ciclo de Atenas, mas já tinha outros caminhos profissionais no jiu-jitsu e no MMA.
Regras, Pride e o futuro do grappling
O Antoine tem uma leitura interessante sobre regra. Para ele, o jiu-jitsu dá pouco valor à queda: vale dois pontos, e se o adversário vira no meio do caminho, é zero. Por isso o atleta precisa treinar wrestling específico para o jiu-jitsu. No MMA, ele diz que por muito tempo os juízes das comissões americanas eram wrestlers ou boxeadores, e quem derrubava mais levava. No Pride, pela cultura japonesa, o chão era mais valorizado, e ele cita o Minotauro como um dos maiores destaques porque finalizava todo mundo.
O André lembrou uma conversa com o Buchecha e o Demian Maia sobre a dificuldade de derrubar e manter o adversário embaixo em cinco minutos de round. O Antoine completou que hoje os lutadores treinam wrestling o ano inteiro, e não só um ou dois meses antes da luta, e citou Demian, Buchecha, os irmãos Minotauro e Minotouro e o Anderson Silva entre os que sempre buscaram a modalidade.
O fechamento foi um recado. O Antoine acredita que o grappling, que a federação internacional de wrestling abraçou pensando em torná-lo olímpico, pode ser a chance do Brasil. Se jiu-jitsu, luta livre e wrestling se unirem numa seleção, ele acha que o país viraria potência, como no judô.
“Hoje o jiu-jitsu no Brasil é igual o wrestling na Rússia: todo mundo faz, todo mundo é bom.”
Antoine Jaoude, no Pura Connection · 1:05:47
O que fica da conversa, para mim, é o reconhecimento. O Antoine passou anos pagando para apanhar lá fora, como ele mesmo diz, e mesmo assim fez questão de dar o crédito a Caruso, Malibu e Brigadeiro. Quem treina wrestling no jiu-jitsu hoje deve um pouco a esses caras.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.