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Pura Connection · Marinho Filho

Marinho Filho conta como enfrentou a Globo para mostrar o jiu-jitsu na TV

Jornalista e faixa-preta, ele fala do preconceito dentro da emissora, da coragem de Royce Gracie e do jiu-jitsu que virou só competição.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 30 set 2021 (1:28:13).

Durante anos, falar de jiu-jitsu dentro da Globo era comprar briga. Quem conta é o Marinho Filho, jornalista e faixa-preta, que passou 12 anos no SporTV. Segundo ele, a ordem que vinha de cima era direta: não põe. Para a emissora, jiu-jitsu, vale-tudo e MMA eram tudo a mesma coisa, e a mesma coisa ruim.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me pegou foi a teimosia do Marinho. Ele diz que a cabeça dele foi colocada a prêmio várias vezes lá dentro, e que quanto mais isso acontecia, mais motivado ele ficava. Ele sabia que o jiu-jitsu educa, levanta a autoestima e ensina respeito e hierarquia. Faltava a televisão enxergar.

“Minha cabeça foi colocada a prêmio várias vezes, e quanto mais a minha cabeça era colocada a prêmio, mais me motivava.”

Marinho Filho, no Pura Connection · 0:21:36

Do surf para a luta, dentro do SporTV

O Marinho conta que entrou no SporTV em 1999, se não se engana, graças ao Antônio Ricardo e ao Ricardo Bocão. Ainda moleque, ele fazia por conta própria uma revistinha de bolso, inspirada na Trip, e distribuía para quem podia abrir porta. A revista chegou às mãos do diretor artístico do canal, ele fez um teste para o Zona de Impacto, programa de esportes radicais, e ficou.

Ele já treinava jiu-jitsu e, sempre que dava, enfiava as artes marciais no meio do surf. Botou Murilo Bustamante, Royler e Pedro Rizzo num programa que era de prancha e onda. Para quem viveu o Rio daquela época, a mistura faz todo sentido: surf e jiu-jitsu cresceram juntos na praia.

Segundo o Marinho, o SporTV já tinha material antigo de luta, feito por um pioneiro da casa. Quando a Globo assumiu o canal, achou aquela linguagem imprópria e, nas palavras dele, esterilizou tudo que era de arte marcial. Ele cansou de ouvir que era para cortar, porque jiu-jitsu era igual a vale-tudo.

A campanha que virou o jogo

O que mudou a cabeça da emissora, para o Marinho, foi uma campanha de três palavras: Não Brigue, Lute. A ideia era separar a briga de rua da luta de verdade. Ele foi atrás de gente conhecida da própria Globo que praticava arte marcial e pediu para cada um contar o que a luta fazia pela vida dele.

Ele pensou que teria umas dez pessoas e que o quadro não se sustentaria. Vieram muitas mais, de atores a jogadores de futebol. Quando o público viu gente influente defendendo a luta, a resistência baixou. Ele cita também Flávio Canto entre os que brigaram por essa conquista lá dentro.

“Depois ficou menos difícil. Não ficou fácil, mas ficou menos difícil.”

Marinho Filho, no Pura Connection · 0:27:23

O Marinho usa o surf como comparação. Nos anos de preconceito, surfista era chamado de vagabundo e desocupado. Hoje o maior herói do esporte individual brasileiro é surfista, com patrocínio milionário. Para ele, as artes marciais fizeram o mesmo caminho: o público foi se acostumando, entendeu que existe técnica, preparo e acordo entre os lutadores, e a violência deixou de parecer gratuita.

O desafio que a Globo quis cortar e o Royce de 1993

O apresentador lembrou do desafio entre jiu-jitsu e luta livre que a Globo transmitiu, com Murilo, Fábio Gurgel e Wallid Ismail de um lado e a turma de Eugênio Tadeu do outro. Segundo ele, no meio da transmissão a emissora quis cortar, porque ninguém entendia o que estava vendo. O Marinho brinca que, se aquele evento acontecesse hoje, venderia pay-per-view demais.

Mas a grande virada, para ele, foi 1993. O Marinho descreve o raciocínio de Rorion: criar um torneio que misturasse artes marciais, vender para a televisão e, na hora de escolher o representante da família, deixar Rickson de fora. Com Rickson, o resultado seria esperado. Com um lutador menor e mais magro, a técnica ficaria evidente.

Foi assim que Royce entrou, de quimono, contra caras duas vezes maiores. O Marinho considera o Royce o segundo maior atleta de todos os tempos, atrás só do surfista Kelly Slater, pela coragem e pelo que ele mudou no mundo. E conta que, quando pergunta ao Royce o que ele fez, a resposta é sempre a mesma: nada, quem fez foi o pai, Hélio.

“Quem fez foi meu pai. Eu só fui um veículo do que o meu pai ensinou.”

Royce Gracie, no Pura Connection · 0:44:11

Berimbolo, fifty-fifty e defesa pessoal

A parte mais divertida da conversa é sobre o jiu-jitsu de hoje. O Marinho conta que perguntou ao Royce se ele sabia o que era berimbolo. O Royce disse que não e nem quis tentar pronunciar a palavra. Emendou que o que ele sabe fazer é ganhar luta, e que o berimbolo não funciona numa briga de rua.

O Marinho concorda que a posição não serve para a rua, mas não compra o discurso de que o jiu-jitsu perdeu a essência. Para ele, viver de seminários, patrocínio e superluta é uma escolha honesta. Faixa-preta que não sabe sair de uma gravata existe, diz ele, mas é exceção. A crítica dele vai para as regras: luta que fica cinco minutos no fifty-fifty, que ele chama de gangorra, é pura estratégia e péssima para quem pagou para assistir.

Onde ele quer crescer é na camada mental da defesa pessoal. O Marinho conta que vai fazer o curso de Sylvio Behring, que trabalha linguagem corporal e controle emocional antes da briga. E dá o exemplo da própria vida: antes do jiu-jitsu, se alguém mandava ele sair da água, ele saía para brigar por insegurança. Depois do jiu-jitsu, sai para conversar olho no olho.

“Antes de eu fazer jiu-jitsu, pela minha insegurança, eu saía da água e ia para a briga.”

Marinho Filho, no Pura Connection · 1:09:50

Assédio: o líder não pode se omitir

No fim, o apresentador puxou um tema pesado: o assédio no jiu-jitsu. O Marinho diz que estudou o assunto e que o problema maior é o tabu. A luta agarrada não tem culpa, mas facilita para quem já tem propensão a cometer esse crime. A mudança que ele defende começa na academia: o professor e o líder da equipe não podem mais se omitir.

Segundo ele, sem a omissão do líder, o agressor perde a certeza de que vai sair impune, e a vítima ganha voz para denunciar ao professor, à professora ou à comissão de mulheres do jiu-jitsu. O Marinho se diz otimista e conta que ouviu líderes de várias equipes apresentando soluções.

O que fica da conversa é o retrato de alguém que brigou por dentro para o jiu-jitsu aparecer direito na televisão e que, hoje, com o próprio canal no YouTube, continua cobrando a mesma coisa: informação correta sobre a arte.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.