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Pura Connection · Mário Reis

Mário Reis conta como virou faixa-preta em quatro anos e forma campeões

Aluno de Zé Mário Sperry, o treinador da Alliance diz que já formou quase 60 campeões mundiais e explica o que tira de cada atleta.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 21 jun 2026 (2:02:28).

Mário Reis diz que pegou a faixa-preta de jiu-jitsu em quatro anos e que foi campeão mundial logo no primeiro ano e de novo no segundo. Hoje, do outro lado do tatame, ele conta que já formou quase 60 campeões mundiais. Numa conversa de duas horas no Pura Connection, o treinador da Alliance explicou de onde veio essa pressa e o que ele procura em quem treina com ele.

Assisti à entrevista e o que mais me chamou atenção foi a sinceridade. O Mário fala de raiva, de rebeldia, de sexo e de comida como parte do treino, e conta histórias de bastidor com nomes grandes do esporte. Ele chama o lado mais duro de cada atleta de dark side e diz que é dele que sai o campeão.

“A versão de vocês que tem que entrar para lutar não é a legal, a querida. É a versão que sobreviveu.”

Mário Reis, no Pura Connection · 0:19:43

O guri rebelde nas mãos de Zé Mário Sperry

O Mário se descreve como um guri quase indomável. Os pais trabalhavam o dia todo, e ele diz que a liberdade que a mãe deu ajudou a criar a autoconfiança, junto com alguns tombos. O primeiro mestre foi Zé Mário Sperry, e ele chama isso de o maior presente que teve.

Segundo o Mário, o Zé Mário ensinava a não transar antes de campeonato e cobrava a alimentação sem desconto. Ele contou que, uma vez, pediu comida pouco saudável num restaurante e o mestre mudou de mesa. Quando ele disse que era só naquele dia, ouviu que as coisas que a gente faz só hoje viram hábito para o resto da vida.

Na academia, ele fazia de tudo para ser notado. O Zé Mário viajava muito, estava no auge do Pride e do ADCC, e o Mário conta que exagerava nas comemorações quando finalizava alguém só para o ídolo olhar. Um dia, um colega traduziu o que o Zé Mário tinha dito em inglês para um japonês que visitava a academia: aquele ali vai ser meu campeão mundial.

“Ele me ajudou a encontrar a minha essência e dar o maior valor para ela.”

Mário Reis, no Pura Connection · 1:24:10

O ritmo, segundo ele, era insano: oito horas por dia, de segunda a sexta, entre drill e estudo de posição. O único colega que aguentava junto era um parceiro que ele chama de Verdugo. O hábito do drill, ele diz, veio de observar o mestre Osvaldo Alves.

Quatro mestres de linhagens diferentes

O Mário diz que vem da linhagem de Carlson Gracie, por meio do Zé Mário. Depois foi para Sylvio Behring, que segundo ele ensinou o lado que faltava: ser gentil e dar aula com método. Ele admite que chegou arrogante. Na faixa azul, ia para o Mundial achando que ninguém ganhava dele.

Com o Sylvio ele começou a dar aula e, pelo que contou, aos 20 anos já tinha um salário bom com o jiu-jitsu. Depois veio Carlinhos Gracie, com quem jantou duas vezes a sós. O Mário lembra de ouvir que era burrice jogar fora a semente do mamão e diz que se sentiu diante de um homem espiritualizado. Por último, entrou na Alliance, da linhagem de Rolls, com Fábio Gurgel, que ele descreve como o mestre mais racional e técnico.

Foi o Fábio, segundo ele, quem mandou que virasse head coach. Hoje a função é dividida em três: um treinador no Rio, outro em São Paulo e o Mário em Porto Alegre.

O peso-pena que ganhou o absoluto

A história de competição que ele mais gosta de contar é a do Europeu. O Mário diz que pesava 68 quilos, lutava no peso-pena e ganhou o absoluto finalizando todas as lutas. Na edição anterior, segundo ele, a final do absoluto tinha sido entre Ronaldo Jacaré e Roger Gracie, e foi o Roger quem colocou a coroa na cabeça dele.

Antes da luta, ele conta que Xande Ribeiro brincou que ele ia ser amassado. A resposta dele: gostava justamente de quem vinha para amassar, porque tinha vários contra-ataques dali. A confiança vinha do treino: ele diz que rolava todo dia com Fabrício Werdum, de 120 quilos.

“Eu treino com o Werdum todo dia. O cara tem 120 quilos. Qual a diferença?”

Mário Reis, no Pura Connection · 1:06:56

O Mário diz que competiu por 17 anos, enfrentou Rafael Mendes e Guilherme Mendes já perto dos 30, foi campeão pan-americano aos 34 e se aposentou aos 35.

Meregali, Leandro Lo e o treinador que erra palpite

Como treinador, o Mário conta que foi coach de Cobrinha, Lucas Lepri e Bruno Malfacine. As melhores histórias, porém, são de Nicholas Meregali. Segundo ele, numa roda de conversa quando o Nicholas ainda era faixa azul, o garoto disse ter certeza de que seria campeão mundial absoluto na faixa-preta. Ele ficou em terceiro na azul, mas ganhou absolutos na roxa e na marrom e virou bicampeão mundial na preta.

O Mário também contou que o Nicholas perdeu três vezes para Leandro Lo antes de um Mundial. Segundo ele, o Fábio Gurgel chegou a dizer que o Nicholas iria como time B. O atleta ficou dois meses recluso na academia e ganhou do Leandro no Mundial.

Sobre o Leandro, o Mário diz que dividiu quarto e treinou com ele. Numa visita à academia, conta, o Leandro fez dez rolas de seis minutos contra os melhores da casa e ninguém ganhou dele.

O treinador também admite que erra. Ele diz que olhou para Rafa Gamba, que chegou magrinho e triste à academia, e apostou que ele nunca seria campeão. Segundo o Mário, o Rafa virou bicampeão mundial e finalizou todas as lutas no Europeu e no Brasileiro.

“É onde Deus põe a gente no nosso devido lugar.”

Mário Reis, no Pura Connection · 0:44:52

O que fica da conversa

O Mário tem uma teoria simples sobre carreira: até os 30 anos o atleta vive para o próprio ego, blindado, comendo e dormindo do melhor jeito possível. Depois disso, ele diz, a energia precisa transbordar para os outros. Ele também falou da mudança de gerações, lembrando que Fernando Tererê mudou a passagem de guarda ao jogar em pé, e que os alunos de hoje pedem palavra antes de atitude.

Saí da entrevista com a impressão de que o Mário fala mais como treinador do que como campeão. E ele confirma isso quando compara as duas coisas.

“É muito melhor que ter sido campeão mundial. Não tem comparação.”

Mário Reis, no Pura Connection · 1:18:59

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.