Pura Connection · Rafael dos Anjos
Rafael dos Anjos conta por que parou de treinar jiu-jitsu no UFC
O ex-campeão dos leves relembra o começo na Gracie Barra, a profecia da esposa, a troca pela luta em pé e a volta ao Brasil para treinar na Nova União.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 dez 2022 (1:32:49).
O Rafael dos Anjos chegou ao MMA como faixa-preta de jiu-jitsu e virou campeão dos leves do UFC trocando socos. No Pura Connection ele contou a decisão que explica essa virada: depois da segunda luta no UFC, parou de treinar jiu-jitsu.
Assisti à conversa e gostei do jeito direto dele. O Rafael contou que, logo que entrou no MMA, o que mais o aterrorizava era tentar derrubar um cara bom em pé, de mão pesada, e não conseguir. Aí vinha a pressão, o cansaço, o chute na perna.
“Eu tô treinando jiu-jitsu há 15, 20 anos, dois horários por dia. Como é que eu vou melhorar na parte em pé treinando duas, três vezes por semana?”
Rafael dos Anjos, no Pura Connection · 0:18:15
Foi aí, segundo ele, que largou o chão e passou a treinar só boxe, muay thai e wrestling. A luta seguinte, contra Tyson Griffin, foi toda em pé. Ele perdeu, mas disse que, sem aquele treino, o americano o teria engolido. Dali em diante, a trocação dele começou a evoluir.
Um começo forjado no fogo
O Rafael contou que estreou no UFC perdendo por nocaute, algo que nunca tinha acontecido, e achou que seria mandado embora. Ganhou outra chance justamente contra o Griffin, que ele considera um dos melhores do peso na época. Perdeu de novo, mas a luta levou o prêmio de melhor da noite, e ele lembra que o Dana White o abraçou ao descer do octógono. Só na terceira chance veio a primeira vitória.
Antes disso, a estrada foi bem mais humilde. Ele contou que morou em Belo Horizonte, onde pegou a faixa-preta, e fez quatro lutas de MMA, com duas vitórias e duas derrotas. Na primeira nunca tinha calçado uma luva de MMA: recebeu a ligação numa quarta-feira, com a proposta de mil reais se ganhasse e 600 se perdesse, e topou. Perdeu. Duas semanas depois, ainda de olho roxo, lutou de novo e venceu.
Aos 21 anos veio para o Rio, para a Gracie Barra do Gordo, onde treinavam nomes como Cacareco e Babalu. Segundo ele, entrou no lugar de um atleta patrocinado que tinha sido suspenso, e chegou logo no dia da taparia, o treino de MMA em que a turma trocava tapa em vez de soco com luva. Pensou: se voltar amanhã, é porque quero mesmo. Voltou.
A frase da esposa que ficou na cabeça
O Rafael contou que, naquela época, o objetivo era dinheiro e o sonho era só entrar no UFC. Até que a esposa perguntou qual era o sonho dele. Ele respondeu que era lutar no UFC.
“Ela falou: não, tu não vai lutar. Tu vai ser campeão do UFC.”
Rafael dos Anjos, no Pura Connection · 0:29:45
Ele morava num quarto e sala alugado nos fundos de uma oficina no Largo da Barra. Disse que a frase ficou na cabeça e que a esposa acreditou nele até quando ele mesmo desacreditou. Hoje, a ordem na vida dele é Deus, família e trabalho, nessa sequência. Até a data da última luta, em dezembro, foi escolhida para ele poder aproveitar as férias dos filhos em janeiro.
O curioso é que o cinturão veio quando ele parou de pensar nele. Segundo o Rafael, depois de perder uma luta quando estava obcecado pelo título, decidiu ir uma luta de cada vez. Venceu Benson Henderson, Jason High e Nate Diaz, e numa coletiva o Dana White apontou o nome dele para a disputa dos leves. Ele contou que o Anthony Pettis tinha ligado para o Dana pedindo a luta.
Cerrone, McGregor e o lado negócio do UFC
O Rafael não gosta de vender luta com ofensa. Ele disse que quer ser assistido por quem torce por ele. Quem xinga a família do adversário, segundo o Rafael, atrai um público que paga para vê-lo perder. Mas contou que perdeu a paciência uma vez: antes da primeira defesa de cinturão, Donald Cerrone falava besteira nas coletivas, e ao cruzar com ele num Starbucks, em Orlando, o Rafael foi tirar satisfação. Segundo ele, o americano recuou dizendo que era só negócio, e ali a luta já estava ganha.
Sobre o Conor McGregor, ele reconheceu a precisão e a visão de negócio do irlandês, e lembrou que os dois tiveram luta marcada cerca de sete anos antes. Segundo o Rafael, ele quebrou o pé num treino e a luta caiu. Depois houve conversa sobre uma disputa nos 77 kg que também não saiu. Para ele, o McGregor foi um divisor de águas no salário dos lutadores, e o caminho dele foi mais fácil que o dos outros. Na análise do Rafael, o José Aldo que foi nocauteado pelo irlandês era um lutador mais completo.
Ele também contou que cortou a orelha ajudando Michael Bisping a se preparar para uma luta contra Georges St-Pierre, e que o corte reabriu duas semanas antes da disputa de cinco rounds contra Robbie Lawler. Passou a luta fugindo das posições agarradas para a orelha não abrir.
A volta ao Brasil e a Nova União
Depois de dez anos nos Estados Unidos, o Rafael voltou para o Rio. Tudo começou na pandemia, com dores na virilha que nenhum médico americano resolvia. Segundo ele, no Brasil uma clínica abriu até meia-noite e meia para atendê-lo, veio o diagnóstico de hérnia esportiva, e a cirurgia foi feita aqui.
Ele gostou tanto do camp com o Dedé Pederneiras para a luta contra Paul Felder, que venceu, que decidiu ficar e treinar na Nova União, equipe que foi rival dele a vida toda no jiu-jitsu. Contou que foi muito bem recebido por Léo Santos, Aldo e pela turma, e que os meninos chegaram a fazer bolão apostando que ele nunca mais voltaria depois do primeiro camp, de tão duro que foi.
Hoje, aos 38 anos e com 46 lutas, ele diz ter batido o recorde de tempo dentro do octógono. O treinador Paulo Caruso o fez treinar menos, com camps de cinco a seis semanas no lugar dos antigos oito a dez. E ele garante que o nervosismo antes de lutar continua igual.
“Eu não tô correndo uma corrida de 100 metros. Eu quero ter longevidade na minha carreira.”
Rafael dos Anjos, no Pura Connection · 0:07:59
Quando parar, ele quer abrir uma academia. Disse que 99% das pessoas com quem se relaciona vieram das artes marciais, e o que quer deixar é o exemplo de quem não se desviou dos próprios valores.
“O jiu-jitsu só me trouxe coisa boa na minha vida, e eu quero passar isso.”
Rafael dos Anjos, no Pura Connection · 0:40:47
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.