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Connect Cast · Reila Gracie

Reila Gracie: a filha que não deixou apagarem Carlos Gracie do jiu-jitsu

Autora da biografia do pai, Reila conta a infância de Carlos, a dieta, o invencível Rolls, a briga pelo nome Gracie e como ajudou a formar o filho Roger.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 22 jun 2023 (2:30:43).

Tem gente que conhece o jiu-jitsu pela metade. Foi mais ou menos isso que a Reila Gracie sentiu quando ouviu o Royce entrar no ringue do UFC dizendo que o pai dele tinha aprendido jiu-jitsu com um viajante japonês. Filha de Carlos Gracie e mãe de Roger Gracie, ela largou o trabalho de editora de arte e foi atrás da geração do pai antes que ela morresse. O resultado virou o livro "Carlos Gracie: o criador de uma dinastia".

“Eu não vou deixar tirar o meu pai da história do jiu-jitsu.”

Reila Gracie, no Connect Cast · 1:09:44

Assisti às duas horas e meia de conversa dela no Connect Cast e saí com a sensação de ter lido o livro de novo, agora com os bastidores. Tem infância em Belém, espiritismo, dieta, casamentos, a disputa pelo nome da família nos Estados Unidos e uma defesa firme do Rolls como o lutador que ninguém da família venceu.

Um menino de rua de boa família

Reila começa pelo contexto, porque, como o pai dizia, o ser humano é fruto do meio. Carlos era miúdo: segundo ela, adulto, tinha 1,70 m e pesava 60 quilos. Cresceu numa família que mudava de casa o tempo todo. Pela pesquisa que ela fez em Belém, nenhum filho do avô, Gastão Gracie, nasceu na mesma casa, e Carlos morou em nove endereços antes de vir para o Rio.

O avô é descrito como um aventureiro: falava oito idiomas, morou dez anos na Alemanha e chegou a ter uma fábrica de dinamite dentro de casa, com as crianças ajudando a encher as bananas. Reila gostou da definição que ouviu de um parente para o pai: "um menino de rua de boa família". Hiperativo, sonâmbulo, cheio de pesadelos. Anos depois, lendo sobre xamãs, ela diz ter reconhecido ali os sinais de uma sensibilidade que ninguém em casa sabia explicar.

Foi desse menino que saiu a ideia do jiu-jitsu como ofício. Carlos comparava a arte ao trabalho do sapateiro: em qualquer lugar do mundo as pessoas usam sapato, então quem sabe consertar sapato nunca fica sem trabalho. Com o jiu-jitsu era igual.

“O meu corpo é a minha ferramenta.”

Carlos Gracie, no Connect Cast · 0:09:42

Segundo Reila, Carlos aprendeu com o Conde Koma (Mitsuyo Maeda) e os irmãos mais novos aprenderam no Rio com Jacyntho Ferro, assistente do Koma. As mulheres da família também treinavam, mas para se defender. Ela conta que a tia Helena derrubou um homem que a abordou na rua, aplicou uma chave de braço e chamou a polícia.

Oscar Santa Maria, a dieta e o lado místico

A virada espiritual de Carlos tem nome: Oscar Santa Maria, funcionário do Banco do Brasil que começou a treinar com ele em 1928. Estudioso de esoterismo, Santa Maria levou Carlos a um centro espírita, onde um médium teria dito que ele era acompanhado por um espírito de luz muito forte. Os dois viraram amigos, depois sócios numa empresa de importação e exportação. Reila conta ainda que Santa Maria patrocinou o campeonato de jiu-jitsu contra capoeiristas em 1931 e depois atuou como juiz de mesa.

Daí vieram o vegetarianismo, a numerologia (a letra R nos nomes dos filhos, viagem adiada até a meia-noite quando a data não era boa) e a famosa dieta. Reila diz ter achado uma matéria de 1935 em que o pai conta que levou o Hélio para uma fazenda e montou um cardápio para prepará-lo para uma luta. Ela lembra do pai comendo 12 ou 15 mangas sentado num caixote no meio da feira, e conta que, nos anos 40, ele passou dez anos vestindo só branco e sem tocar em dinheiro, deixando as contas com Santa Maria e depois com Hélio. Andava de sandália de couro porque, segundo ela, achava que a borracha cortava o magnetismo entre o corpo e a terra.

A relação com Hélio aparece forte. Onze anos mais novo, Hélio seguia o irmão sem questionar. Reila conta que o tio chegou a sentar na janela da academia e dizer a Carlos: "diz para eu me jogar que eu pulo".

Rolls, o invencível

Na parte mais polêmica da conversa, Reila foi direta sobre o irmão Rolls. Para ela, ele era o doce de uma geração bruta, um líder que juntava a família em volta dele, e nunca perdeu para ninguém da família. Quando o assunto chegou ao Rickson, que já disse ter vencido o Rolls, ela não aliviou.

“Isso é mentira. Não tem nenhuma testemunha que comprove a afirmação que o Rickson disse que venceu o Rolls.”

Reila Gracie, no Connect Cast · 0:03:51

Ela reconhece que Rickson estava no caminho, sendo preparado inclusive pelo próprio Rolls, e que ocupou o lugar dele naturalmente depois que Rolls morreu. Reila também conta que Rolls recusou nos anos 70 uma proposta financeira para ir aos Estados Unidos porque se sentia na obrigação de passar o jiu-jitsu adiante. Era ele quem buscava o sobrinho Charles, filho do Robson, em Santa Teresa para treinar.

Sobre quem levou o jiu-jitsu aos americanos, a versão dela é que o Rorion foi para os Estados Unidos querendo ser ator em Hollywood, daí a ligação com Mel Gibson, e o jiu-jitsu foi junto como o ofício que ele carregava no corpo.

A briga pelo nome Gracie e a conversa gravada com Hélio

Um dos motivos do livro, segundo Reila, foi o registro da marca Gracie Jiu-Jitsu nos Estados Unidos por Rorion. Ela conta que o Carlson não podia abrir uma academia com o próprio nome sem pagar royalties. Para ela, o nome que o pai criou virou dono de uma pessoa só.

Durante a pesquisa, Hélio deu uma entrevista à revista Playboy dizendo que a sobrinha não tinha como contar a história de Carlos melhor que ele. Reila pegou a revista, foi ao sítio do tio, colocou um gravador ligado na mesa e cobrou. Ela descreve uma relação carinhosa, de cafuné na careca do tio, e ao mesmo tempo uma disputa, que ela chama de jiu-jitsu mental. No fim, quando um advogado ligado à esposa do Rickson apareceu na editora tentando barrar depoimentos, Hélio assinou na hora uma autorização registrada em cartório.

Reila também contou que, segundo a esposa de Hélio, Vera, ele chorou como criança no dia em que ficou impedido de assistir à luta do Rickson no Japão, por lealdade a Rorion. E que Hélio passou uma noite inteira segurando o pé de um neto que quase perdeu um dedo, porque o médico mandou não deixar encostar em nada.

Roger, a mãe no córner e o que fica

A parte de mãe rende boas histórias. Roger começou aos 13 anos na academia do Carlinhos. Quando decidiu levar a sério, Reila contratou psicólogo e preparador físico. O psicólogo saiu da conversa com uma conclusão simples.

“Seu filho sabe exatamente o que ele quer. Ele quer ser o melhor do mundo.”

Reila Gracie, no Connect Cast · 1:31:51

Como Carlinhos ficava na mesa dos campeonatos, Roger muitas vezes ficava sem ninguém no córner. Reila pendurou uma câmera no pescoço, disse que ia fotografar e ganhou acesso à beira da área de luta. Quando um adversário amigo puxou papo antes de uma luta, ela cortou.

“Na hora de conversinha não tem amiguinho aqui, não.”

Reila Gracie, no Connect Cast · 1:36:41

Segundo ela, até os 26 anos Roger dividia com ela as decisões da carreira, e ela recusou contratos que achava ruins, inclusive uma estreia no vale-tudo para cobrir a vaga de um lutador machucado.

O que mais me marcou foi o fim. Reila diz que o jiu-jitsu corre o risco de virar uma prática mecânica, longe da filosofia do pai, e que o sonho dela é ver a comunidade do jiu-jitsu defendendo a natureza. Ela contou também que vendeu os direitos do livro para uma série, ainda em negociação, e que pretende relançar a biografia. Pelo que ouvi, vale esperar.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.