Pura Connection · Rodrigo Thiago
Traveck, da Alliance Rio: "professor que não treina não é professor"
À frente da Alliance no Rio de Janeiro, Rodrigo Thiago conta o que aprendeu com Malibu, Fábio Gurgel e Rickson Gracie e por que ainda roda com todo mundo.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 14 mar 2024 (1:27:07).
Rodrigo Thiago, o Traveck, tem uma regra que ele não negocia: o visitante que aparece na academia dele vai treinar com ele. Pode ser faixa-branca de outro país, pode ser um pesado de 100 quilos. E se o visitante bater nele, tudo certo. O líder da Alliance no Rio de Janeiro falou disso logo no começo da conversa com o André no Pura Connection, e o tema voltou o tempo todo.
“Professor que não treina, para mim, não é professor.”
Rodrigo Thiago, no Pura Connection · 0:19:18
Assisti à entrevista e me identifiquei muito. O Traveck fala como gente do tatame, sem filtro, e tudo que ele defende ele diz ter vivido. Ele mesmo avisa que não tem costume de ler. O que ele ensina vem da prática.
Treinar com o visitante, machucado ou não
Para o Traveck, não faz sentido alguém viajar do outro lado do mundo, passar um mês na academia e nunca rolar com o professor. Ele contou que aprendeu assim: viu todos os professores dele treinarem com pesado, com leve, com homem e com mulher, sem escolher parceiro.
“Se o cara me bater, tá tudo certo, mas ele vai sempre encontrar um treino duro, um treino leal.”
Rodrigo Thiago, no Pura Connection · 0:08:13
Nem lesão serve de desculpa. Se está com a costela ruim, ele diz, não pega o de 100 quilos, pega uma aluna leve e começa com ela nas costas. E faz o mesmo com o aluno machucado que chega à academia: em vez de mandar encostar, chama para um treino parcial. Na visão dele, professor que manda o aluno sentar muitas vezes só está com preguiça de olhar o treino.
O Traveck contou que teve só uma cirurgia, no joelho. Quando voltou, a perna ainda não mexia direito, e foi aí que mais evoluiu tecnicamente: deu muita aula particular para faixa-branca. Ele também diz que só foi viver de jiu-jitsu depois da faixa-preta. Antes, trabalhava, treinava e competia no mesmo dia, saindo da loja onde trabalhava aos sábados direto para o campeonato.
As lições de Malibu, Strauch e Rickson
Boa parte da formação do Traveck veio da geração que ele chama de "os brabos da época dos brabos". Ele cita Malibu, Fábio Gurgel e Gigi, que levava a turma para treinar em Santos. Do Malibu, guardou duas frases. Numa, ouviu que ninguém leva balança para briga de rua, então tem que saber treinar com qualquer peso. Na outra, estava se alongando quando foi chamado para rolar: na rua, ninguém espera você alongar.
Do primeiro professor, Paulo Maurício Strauch, ficou uma frase que ele repete até hoje.
“A vida é igual a jiu-jitsu, você vai mais perder do que ganhar.”
Paulo Strauch, no Pura Connection · 0:32:10
A melhor história, para mim, é com Rickson Gracie. O Traveck contou que, quando o Rickson voltou a morar no Rio, perto do Arpoador, os dois tomavam café da manhã no mesmo lugar, na Praça General Osório, por volta das seis da manhã. Era a época em que Sakuraba estava batendo em todo mundo. O Traveck perguntou se o mestre ia lutar com o japonês. A resposta:
“Só se me derem um caminhão de dinheiro.”
Rickson Gracie, no Pura Connection · 0:37:52
Ele também lembra do Rickson atravessando a rua na Rivièra para cumprimentá-lo, enquanto os amigos olhavam sem acreditar. E usa a lembrança para cobrar a garotada de hoje, que, segundo ele, mal cumprimenta os mais velhos. O Traveck cita também Royler e Carlinhos, que começou a Gracie Barra em Copacabana, como gente que plantou o que os campeões de agora colhem.
Hierarquia, medalha e o brabo de verdade
O Traveck não esconde a implicância com o atleta que ganha um título e deixa de olhar no olho de quem chegou antes. Para ele, medalha de campeonato é obrigação de quem só treina, e fora do nosso mundinho ninguém conhece esse campeão. Antiguidade, diz, é posto.
“O brabo é o cara que apanha e levanta.”
Rodrigo Thiago, no Pura Connection · 0:34:13
Ele contou que brinca com os alunos que reclamam que ele treina duro, perguntando se a faixa-preta dele caiu da amendoeira em Copacabana. E lembrou que, na geração dele, jiu-jitsu era caro e quase não tinha gente de comunidade no topo: Tererê foi o primeiro a despontar. Hoje ele cita Tainan Dalpra como prova de que a nova geração tem solução. Lembrou ainda de ter visto Xande e Saulo dando aula num corredorzinho em Copacabana, e acha que foi esse aperto que fez os dois.
Como ele reergueu a Alliance no Rio
Quando assumiu a academia, segundo o Traveck, o lugar estava detonado. Ele diz que só aceitou porque Roberto Monteiro, faixa-preta que começou como aluno particular do Gigi e que ele chama de padrinho e melhor amigo, garantiu que era ele o cara certo. Na abertura, Durinho e Cavaca vieram ajudar a abrir a academia sem cobrar um centavo. O Durinho, ele conheceu treinando no Ricardinho, pelas contas dele em 2005, e a amizade veio anos depois num camp da equipe do Cavaca.
A gestão ele foi buscar em São Paulo. Passou o dia com o Fábio Gurgel, que ele chama de referência do negócio, e copiou o que funcionava para o Rio, como separar a turma de faixa-branca. "Só se eu fosse burro", disse sobre não perguntar a quem já fez. Hoje, no terceiro ano, ele conta que a aula das sete da manhã tem umas 50 pessoas no tatame.
Na academia ele também levou para perto de si o Felipinho, que conheceu faixa-azul e chama de uma das joias do Cantagalo. O que mais o emociona, porém, é outro tipo de resultado: o aluno tímido que conta ter conseguido falar numa reunião por causa do jiu-jitsu. Para ele, isso vale mais do que dez medalhas.
O que fica da conversa é um professor que quer devolver ao Rio o que o jiu-jitsu do Rio deu a ele, lembrando que foi ali que a Alliance começou. E que faz questão de dizer que qualquer um, de qualquer equipe, é bem-vindo na academia dele. Só não espere um rola leve.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.