Pura Connection · Celsinho Venícius
Celsinho Venicius conta como foi campeão mundial com o pé quebrado
O ex-competidor da Gracie Barra quase largou a luta em 2005, foi colocado na equipe B e ganhou o Mundial por raiva. Ele também explica por que abandonou o MMA.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 nov 2023 (1:21:19).
Faltava um mês para o primeiro Mundial de faixa-preta do Celsinho Venicius quando ele quebrou o pé jogando bola. Ele ligou para o mestre, o Roberto Gordo, e avisou que ia tirar o nome da competição. Aí entrou na internet e viu que a Gracie Barra tinha colocado ele na equipe B. Meia hora depois ligou de novo para o Gordo: tinha mudado de ideia. E foi campeão.
Essa é a história mais forte da segunda conversa do Celsinho no Pura Connection, e resume bem o que foi assistir a entrevista: um cara que passou a carreira inteira transformando pressão em combustível. Ele falou da Barra dos anos 90, da visão do Carlinhos Gracie, da derrota que mais doeu, do sonho do MMA que terminou de um jeito triste e do guerreiro que, segundo ele, continua lá dentro.
O Mundial de 2005 com o pé quebrado
O Celsinho contou que tinha ganhado o Mundial de 2004 na faixa-marrom e recebido a preta no pódio. Em 2005 vinha a estreia na faixa nova. Só que ele tinha uns 20, 21 anos e vivia uma cobrança pesada em casa: o pai queria saber de trabalho e faculdade, ele dava aula mas não ganhava o suficiente para se sustentar, e uma temporada dando aula na Costa Rica também não tinha dado dinheiro. Com o pé quebrado, decidiu parar de competir e voltar a estudar. O Gordo passou meia hora tentando convencer o aluno do contrário, sem sucesso.
O que mudou tudo foi ver o nome na equipe B da Gracie Barra, a uma semana do Mundial. Segundo ele, na época não havia mais seletiva interna e a equipe escolhia quem lutava. Ele acha que viram o treino ruim que ele fez machucado e decidiram por ali.
“Agora é pessoal. Agora eu vou lutar e vou ganhar.”
Celsinho Venícius, no Pura Connection · 0:20:05
Ele contou que entrava em todas as lutas pulando, com o pé quebrado, para mostrar ao próprio corpo quem mandava. Na semifinal pegou o Souza, parceiro de treino que sabia da lesão e tinha dito antes que ninguém do jiu-jitsu o derrubaria, porque vinha treinando judô com o Flávio Canto. O Celsinho decidiu lutar em pé só para provar o ponto e, segundo ele, derrubou o Souza três vezes. Quando o adversário foi no pé machucado, ele respondeu indo no pé do outro. Ganhou o título e, quando foi abraçar o Gordo, ouviu a provocação: e aí, vai se aposentar agora?
Lucas Lepri, a derrota que ensinou
O Celsinho ganhou de novo em 2006. Em 2007, no primeiro Mundial disputado nos Estados Unidos segundo ele, caiu na semifinal para o Lucas Lepri, que tinha acabado de pegar a faixa-preta. Ele assume que a culpa foi dele. Pensou que o Lepri era duro para marrom, mas que na preta seria diferente, e entrou com um jogo mais malandro: puxar para a meia-guarda, segurar até uns quatro minutos e raspar na hora certa.
O Lepri tinha estudado o jogo dele. Esperou a raspagem, e o Celsinho, que tinha a fama de nunca bater no pé, deixou o adversário pegar a perna achando que ia devolver no pé do outro, como fazia sempre. O Lepri fez a transição, o joelho estalou e ele bateu. Depois disso mandou um e-mail para o patrocinador pedindo desculpas e prometendo voltar a ser campeão no ano seguinte. Em 2008, segundo ele, cumpriu a promessa, com vitória sobre o Lepri no Pan e no Mundial.
A parte mais bonita veio anos depois. O Celsinho contou que, no primeiro ADCC dele, em 2017, perdeu a segunda luta num empate decidido depois de duas punições nos últimos segundos, que ele considerou injustas. Foi para um canto e chorou, sem saber se teria outra chance naquele torneio. Quem apareceu foi o Lepri, que parou o aquecimento da própria luta para consolar o antigo rival.
“O cara parou de aquecer, foi lá e foi me consolar.”
Celsinho Venícius, no Pura Connection · 1:12:28
Outro adversário que ele citou com carinho foi o Durinho, que segundo o Celsinho foi o único a ganhar dele duas vezes seguidas, a segunda num torneio em Abu Dhabi. No ano seguinte, lá mesmo, ele devolveu a derrota.
A Barra, o Gordo e a visão do Carlinhos
O Celsinho lembrou que nos anos 90 o jiu-jitsu dominou a Barra da Tijuca a ponto de não haver academia de outra luta no bairro. Ele mesmo treinava no Gordo, que era da Gracie Barra, e contou que o tatame da equipe já era uma competição por dentro, com alunos de vários mestres e filiados de outros estados.
Com uns 18 ou 19 anos, ainda marrom, ele entrou de penetra numa reunião em que o Carlinhos explicou como ia levar a Gracie Barra para o mundo. Segundo o Celsinho, a turma achou que o homem tinha enlouquecido. Na época, o espelho dele era o Gordo: campeão mundial duas vezes na preta e, mesmo assim, andando de carro velho, com dois filhos, passando aperto.
“Ele falava que ia ter jiu-jitsu no mundo inteiro, e a gente olhava para ele e achava que o cara estava maluco.”
Celsinho Venícius, no Pura Connection · 0:08:07
No fim, disse o Celsinho, o Carlinhos estava certo. Ele lembrou que a confederação funcionava na casa do Carlinhos e que a maior equipe do mundo hoje leva o nome da Barra. Por isso ele defende que quem treinou ali fazia por amor, sem imaginar as bolsas que pagam hoje para lutar.
O sonho do MMA e o fim da paixão
Aqui tem uma revelação que eu não esperava. O Celsinho contou que começou no jiu-jitsu por causa do vale-tudo: viu o Royce lutando quando criança e quis fazer aquilo. A carreira no jiu-jitsu, segundo ele, foi pensada como credencial para o MMA, numa época em que um campeão mundial de jiu-jitsu entrava fácil no UFC. Quando o empresário da equipe quis colocá-lo para lutar logo, ele recusou.
“Eu não quero entrar ali para ser mais um. Eu quero entrar para ser o cara.”
Celsinho Venícius, no Pura Connection · 0:43:50
O MMA só veio depois que ele se mudou para São Paulo para dar aula na academia do Ryan Gracie. Começou fazendo sparring com um aluno, a turma cresceu, e entre os atletas estava o Viscardi. Ele contou que foi provocado por um amigo que dizia que ele estava ficando velho, passou a noite sem dormir e ligou pedindo a luta. Foram cerca de quatro anos de carreira e cinco vitórias, até a derrota para o Jorge Macaco, numa decisão que ele achou que tinha vencido. Ele fez questão de dizer que respeita o adversário, que lutou cinco rounds com mais de 40 anos, mas a forma como o evento conduziu aquilo tirou toda a vontade. Nunca mais calçou a luva e fechou a equipe de MMA.
O guerreiro mais calmo
Hoje o Celsinho diz que não se aposentou do jiu-jitsu, conselho que ouviu do Draculino, mas que luta por diversão. Ele dá até dez aulas por dia, tem academia, equipe e família. Também falou da frustração de nunca ter lutado com os ídolos da geração anterior, como Léo Vieira, Léo Santos, Shaolin e Tererê: sempre que chegava a hora, eles tinham parado.
Ele reconheceu que o garoto de 20 anos que resolvia tudo no braço na Barra não existe mais. Com a idade veio o controle. Mas deixou claro que a chama continua acesa.
“O guerreiro está aqui dentro. Está mais calmo, mas não está morto.”
Celsinho Venícius, no Pura Connection · 1:18:15
Saí da conversa com a sensação de ter ouvido um competidor que sempre precisou de um motivo pessoal para render o máximo. A equipe B, a promessa ao patrocinador, a vontade de provar para a família que dava para viver de jiu-jitsu. Tudo virou combustível.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.