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Pura Connection · Kyra Gracie

Kyra Gracie conta como a derrota numa final do Mundial baixou seu ego

A campeã fala da mãe que parou na faixa azul, da derrota que baixou o ego e da chance que a levou à TV.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 jul 2020 (0:55:21).

Quando a Kyra Gracie disse em casa que queria ser professora de jiu-jitsu, a reação da família foi de espanto. Segundo ela, ouviu que estava louca e que nunca ia ganhar dinheiro com aquilo. Isso numa família que, nas palavras dela, já está na quinta geração e tem quatro gerações dando aula de jiu-jitsu.

Assisti a essa live do Pura Connection, gravada em plena quarentena de 2020, e o que mais me pegou foi a franqueza da Kyra. Ela fala sem rodeio do tempo em que mulher no tatame era vista como coisa estranha, inclusive dentro da casa dos Gracie.

“Quando eu falei isso, a família ficou assim: você tá louca, você nunca vai ganhar dinheiro com isso.”

Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:07:59

Criada entre Renzo, Ralph e Ryan

A Kyra contou que cresceu na mesma casa que os tios Renzo, Ralph e Ryan. Tinha tatame dentro de casa. Ela passava o tempo todo vendo treino, vendo luta e indo a campeonato, mas achava que aquilo era coisa de homem.

Quem abriu a porta foi a mãe dela. Segundo a Kyra, a mãe começou a treinar e chegou à faixa azul. Vendo aquilo, a menina de 8 ou 9 anos pensou que também podia, começou a frequentar a academia duas ou três vezes por semana e aos 10 anos já estava competindo.

A mãe, porém, teve de parar. A Kyra contou que os tios disseram para ela deixar aquilo de lado, porque mulher não tinha que fazer jiu-jitsu. Como a Kyra era criança, deixaram que ela continuasse. Ela faz questão de dizer que era outra época e que hoje é fácil criticar, mas lembra que nunca teve uma referência feminina dentro da própria família.

“Eu nunca tive uma referência feminina dentro da minha família, mas eu admirava muito os meus tios.”

Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:06:23

O peso do sobrenome Gracie

Na escola o sobrenome já chamava atenção. No campeonato era pior: segundo a Kyra, quando anunciavam o nome dela, o público parava para ver a menina Gracie lutar. Ela conta que se cobrava tanto que chegava a travar na hora da luta.

Com 14 e 15 anos, acordava às 5h ou 6h da manhã para nadar antes da escola. A lógica era simples: não queria entrar numa competição devendo treino. Nas férias, a mãe não a deixava viajar com as amigas. Mandava a filha passar dois meses nos Estados Unidos, na casa dos tios, treinando. Foi ali, segundo ela, que evoluiu tecnicamente e começou a anotar o que gostava e o que não gostava em cada academia, pensando na escola que um dia ia abrir.

Ela também lembra do ambiente dos anos 1990, quando, nas palavras dela, o jiu-jitsu ficou muito queimado por causa de briga em festa. A Kyra contou que se sentiu um peixe fora d'água várias vezes e pensou em desistir. Levou diversas amigas para treinar e nenhuma continuou.

A derrota na final do Mundial

A história que ela usa para falar de ego é boa. A Kyra contou que vinha ganhando tudo: Brasileiro, Estadual, Abu Dhabi, Mundial. Era capa da revista Gracie, e no campeonato todo mundo andava com a revista na mão. Aí perdeu a final do Mundial, no Tijuca Tênis Clube, que ela descreve como um caldeirão do Rio de Janeiro.

“Eu deixei meu ego tomar conta. Tava me achando a campeã que não ia perder.”

Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:24:35

Dali ela tirou a lição de nunca subestimar ninguém, nem quem ela já tinha vencido nem quem estava chegando. Também aprendeu a não deixar a raiva de uma rival tomar conta, porque, segundo ela, com raiva ninguém luta bem.

O outro lado da família também entra na história. A Kyra é filha do Pedrão, que fez carreira em outro esporte. Ela contou que o pai era bem mais duro do que os Gracie depois de uma derrota. Enquanto a família da mãe dizia que tudo bem, o pai apontava o erro e mandava mudar tudo. Quando ela ganhava, atendia o telefone. Quando perdia, não atendia, e ele já sabia o resultado.

Da timidez ao SporTV

A Kyra se descreve como uma menina muito tímida, que falava rápido e embolava as palavras. Quando surgiu a chance de fazer testes para a televisão, ela viu ali um jeito de desmistificar o jiu-jitsu, que ainda carregava fama de violento e de não ser para mulher. O primeiro teste foi ruim. Ela gaguejou e não sabia lidar com o texto que sobe no teleprompter.

Segundo ela, o pai passava a madrugada filmando e ela repetindo texto. Fez curso de teatro para se soltar. Mesmo assim, o SporTV não a contratava. Um dia, num evento do UFC no Rio, o apresentador teve um problema e não havia ninguém para comentar as lutas. Ligaram para ela no fim da tarde. Ela foi, o apresentador jogava as perguntas para ela, e o programa funcionou. No dia seguinte, o diretor-geral ligou oferecendo contrato. Ela ficou seis anos no SporTV, com passagem pelo Combate e pelos eventos da Globo.

“Oportunidade está aí, só que se você não estiver preparada ela nunca vai chegar em você.”

Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:36:08

A academia, a respiração e o que fica

O sonho de infância era a academia própria, e ela contou que o realizou cerca de um ano e meio antes da live. Para montar o método, diz que estudou a história da família desde Carlos e Hélio, que segundo ela davam aula para mulheres nas décadas de 1930 e 1950. A conclusão dela é que o jiu-jitsu se perdeu ao virar coisa só para quem já é casca-grossa e quer se testar, deixando de lado quem mais precisa.

Ela colocou respiração no currículo por causa do Orlando Cani, com quem treinou por muitos anos em Copacabana. A Kyra lembra que ele já tinha uns 78 anos e aguentava os exercícios mais tempo do que ela, e que passaram pela mão dele nomes como Bernardinho e Rickson. Ela também tem um projeto social em que crianças viram instrutores e aprendem todas as etapas de uma academia.

Na pandemia, com a academia fechada havia mais de três meses e 24 funcionários dependendo dela, a Kyra disse que foi justamente a respiração e o controle emocional que seguraram a cabeça. É o fio que atravessa a conversa toda: para ela, o jiu-jitsu que vale a pena ensinar é o que prepara a pessoa para perder, respirar e voltar.

“Se você não trabalha esses princípios, a vida vai te bater.”

Kyra Gracie, no Pura Connection · 0:12:40

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.