Connect Cast · Márcio Stambowsky
Pai de Neiman Gracie diz que nunca incentivou o filho no MMA e lembra Rolls
Márcio Macarrão, faixa-preta de Rolls Gracie desde 1981, fala do filho lutador, do mestre que mudou a vida dele e da escola que mantém nos Estados Unidos.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 27 nov 2023 (1:31:03).
O pai de Neiman Gracie nunca empurrou o filho para o MMA. Quem diz é o próprio Márcio Stambowsky, o Macarrão, faixa-preta formado por Rolls Gracie em 1981. Ele acha o esporte bruto demais, mas acompanha o filho em cada luta.
“Eu nunca incentivei, mas eu sempre apoio ele no que ele for fazer.”
Márcio Stambowsky, no Connect Cast · 0:15:49
Assisti à conversa dele no Connect Cast e fiquei com duas histórias na cabeça. Uma é a do pai que aprendeu a ficar tranquilo vendo o filho entrar no ringue. A outra é a do aluno que chegou por acaso na academia de Copacabana e saiu de lá com um mestre para a vida inteira.
Os filhos dele, Neiman e Débora, são Gracie pelo lado da mãe. Segundo o Márcio, a esposa, Carla, é a filha mais velha de Robson Gracie e neta de Carlos Gracie. Débora também é faixa-preta e estava com o pai no estúdio.
O pai que aprendeu a relaxar
O Márcio contou que ficava preocupado com o MMA, mas que foi ficando mais tranquilo. O motivo, segundo ele, é o jeito como o Neiman leva a carreira: um atleta muito bem preparado, sério e, principalmente, calmo. Tão calmo que, nas palavras do pai, muitas vezes é o filho que acalma ele antes da luta.
Ele deu um exemplo. Numa noite em que o Neiman e os primos iam lutar, faltando poucas horas, o Márcio entrou no quarto dos meninos esperando encontrar todo mundo falando de luta. Estavam sentados vendo um filme na televisão, super relaxados. "Esses caras têm sangue de peixe", brincou.
E tem a história que ele jura que o filho vai odiar ver contada. Quando a luta termina, em vez de sair com a turma, o Neiman quer ir direto para casa ver novela. O Márcio lembrou que Renzo Gracie já comentou com ele que o filho estava ficando velho. Para o pai, isso mostra um cara caseiro, casado desde novo, que já se encontrou na vida.
“Acaba a luta e ele quer ir direto ver novela.”
Márcio Stambowsky, no Connect Cast · 0:18:56
O Márcio também percebe o amadurecimento do filho. Numa das primeiras lutas, contou ele, o adversário passou pela piscina do hotel e o Neiman levantou para apertar a mão do cara. "Por que eu vou brigar com ele agora, de graça? Deixa para amanhã", teria dito o filho.
Do tatame da família para a Kings MMA
O caminho do Neiman até os Estados Unidos começou com Carlinhos Gracie. Segundo o Márcio, o Carlinhos encontrou o menino na federação, perguntou se ele tinha passaporte e visto e pediu para levá-lo para a Califórnia. A família passava por uma fase difícil no Brasil, e a mãe topou. Depois de um tempo lá, o Neiman foi para Connecticut ficar com o pai, e a Débora foi em seguida.
Hoje o Neiman treina na Kings MMA, com Rafael Cordeiro. O apresentador Alexandre lembrou que é uma academia casca-grossa e que não é de jiu-jitsu. O Márcio vê a escolha como humildade: o filho foi aprender com gente de outro estilo, fez amigos e é muito bem tratado lá.
Ele comparou com o passado. Antigamente existia o creonte, o aluno que trocava de academia e não podia mais pisar na antiga. Um cara do jiu-jitsu treinar em outra escola era impossível. Para o Márcio, a profissionalização acabou com isso, e ele diz que hoje, na academia da família, quem não está satisfeito pode ir treinar em outro lugar tranquilo.
Rolls Gracie, o mestre à frente do tempo
A melhor parte da conversa, para mim, foi o Márcio falando de Rolls. Ele chegou ao jiu-jitsu depois que um amigo, o Maurição, começou a agarrar ele numa brincadeira. O pai mandou procurar Carlson Gracie, o mais conhecido da época. Quando ele achou a academia, quem estava na recepção era o Rolls, que dividia o tatame com o Carlson.
O Rolls mostrou tudo, levou o Márcio para ver a aula do Carlson (ele lembra de ver o Carlson cercado de gente, apertando o pescoço de um aluno) e fez a pergunta: queria ser aluno dele ou do irmão? O Márcio respondeu "tanto faz" e levou um olhar que, segundo ele, foi lá no fundo da alma. Corrigiu na hora e escolheu o Rolls.
“O Rolls foi um irmão, foi um pai, foi um mentor.”
Márcio Stambowsky, no Connect Cast · 0:07:25
Para o Márcio, a grande qualidade do Rolls era a inteligência. Ele pegava as coisas fácil, era dedicado e não ia parar de estudar. Por isso o Márcio acredita que, se o Rolls estivesse vivo, continuaria acima da média até hoje.
“Se ele tivesse aqui até hoje, ele seria acima da média de hoje também.”
Márcio Stambowsky, no Connect Cast · 0:07:56
O preparo físico também chamava atenção numa época em que quase ninguém malhava. Segundo o Márcio, o Rolls corria a orla todo dia, fazia barra e paralela e treinava sambo e wrestling. Ele era amigo do americano Bob Anderson, que trouxe o wrestling para o Brasil, e o Márcio fez parte desse primeiro time. O Rolls ainda tinha uma queda de judô que pegava todo mundo. O Márcio contou, sem dizer o nome do adversário, de uma luta contra um cara muito maior em que o Rolls entrou na queda, pegou o braço no caminho e o braço estalou antes de o outro conseguir bater.
Ele citou os faixas-pretas do Rolls da turma dele: ele mesmo, Maurício Gomes (pai de Roger Gracie), Jacaré, Nicinha, Conde e Talarico. Disse ainda que considera o Carlinhos faixa-preta do Rolls também, e que todos treinavam juntos, inclusive Crolin.
As aulas eram completas: aquecimento, parte em pé, entrada de queda, defesa pessoal e chão. O que mudou, na visão dele, foi a duração e a dureza. Era mais longa, mais porrada e sem escolha de parceiro. Quem não aguentava, saía.
Da fábrica de biquíni à academia nos Estados Unidos
O Márcio nunca pensou em fazer vale-tudo. Começou a trabalhar cedo e abriu uma fábrica de biquíni, a Starlight, que durou mais de 20 anos, com lojas em shopping e exportação. Segundo ele, o Rolls brincava que ele estava perdido para o jiu-jitsu. A empresa fechou depois de problemas, entre eles uma dívida de 1 milhão da rede Mesbla. Ele diz que ia para as reuniões pensando no treino da noite.
Depois que o Rolls morreu, o Márcio deu aula na Hebraica, voltou a treinar com o Carlinhos, depois com o Carlson e com Rickson, e ensinou também na Veiga de Almeida. Há 18 anos foi para os Estados Unidos "com um quimono velho, uma joelheira velha e a cabeça cheia de sonhos". O começo foi duro: a Débora trabalhou de babá e o Neiman em obra de telhado e demolição.
Hoje a família tem duas academias próprias em Connecticut, em Norwalk e Fairfield, e quatro afiliadas. Segundo o Márcio, são cerca de 100 aulas por semana em cada academia, com um currículo que a Débora colocou numa plataforma própria. Os americanos, disse ele, são metódicos, e as aulas de três horas com vômito no banheiro do início ficaram para trás. Hoje é uma hora, com aquecimento, técnica em pé, técnica no chão, treino específico e pelo menos três rolas de cinco minutos.
Ele contou que hoje é faixa-coral. E acha que uma das partes mais bonitas do trabalho é ajudar professores brasileiros sérios a dar aula lá, com contrato de experiência e visto de trabalho.
O que fica da conversa
O Márcio defende que o jiu-jitsu é um só, com kimono, sem kimono ou na defesa pessoal. Para ele, judô, sambo e wrestling são versões com partes cortadas: no wrestling e no judô a luta acaba quando as costas tocam o chão, e no jiu-jitsu é aí que ela começa.
“Jiu-jitsu eu só conheço um. Com kimono, sem kimono, defesa pessoal, é tudo um jiu-jitsu só.”
Márcio Stambowsky, no Connect Cast · 0:44:11
Ele também falou da dieta Gracie, que aprendeu em casa com a Carla, que conviveu muito com o velho Carlos. Segundo o Márcio, o Carlos já dizia naquela época que um dia seria difícil achar alimento de verdade para comer. E ele lembrou de ver o Carlos, com 90 e poucos anos, subindo escada de dois em dois degraus.
No fim, o que fica é a gratidão. Aos 64 anos, o Márcio diz que não trabalha, que aproveita fazendo o que ama, e credita a virada ao homem que conheceu na recepção de uma academia em Copacabana.
“Eu tive a sorte de ter encontrado o Rolls Gracie na minha vida. Foi o meu mentor.”
Márcio Stambowsky, no Connect Cast · 1:21:55
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.