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Pura Connection · Raphael Romano

Raphael Romano ensina lutador a respirar e conta treinos com astros do UFC

Filho de Álvaro Romano, o faixa-preta da Gracie Barra fala do camp em que mais apanhou na vida, das aulas com Rafael dos Anjos e de por que desistiu de competir.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 14 jun 2024 (1:32:39).

Foram duas aulas. Rafael dos Anjos fez o sparring logo depois e sentiu que estava diferente, que tinha cansado muito menos. Quem conta é Raphael Romano, faixa-preta de jiu-jitsu e preparador físico que trabalhou com o lutador na Califórnia. A explicação dele é simples: em duas aulas não dá tempo de ganhar nada no físico. O que mudou foi a respiração.

“Eu treinava com todo mundo e tinha essa característica: eu não cansava.”

Raphael Romano, no Pura Connection · 0:17:42

Assisti à conversa dele no Pura Connection e achei que valia contar porque o Raphael tem uma trajetória diferente da maioria. Filho de Álvaro Romano, criador da Ginástica Natural, ele rodou por várias academias, pegou a faixa-preta na Gracie Barra, treinou lutadores do UFC e hoje prepara surfistas do circuito mundial. E tudo isso passa por uma ideia que ele aprendeu em casa: respirar é o exercício mais funcional que existe.

Uma licença para não ser creonte

No jiu-jitsu, quem troca de academia costuma ser chamado de creonte. O Raphael brincou que escapou do apelido por causa da Ginástica Natural: como ele rodava as academias apresentando o método do pai, tinha uma espécie de licença para treinar com todo mundo. E diz que aprendeu com muita gente.

Ele começou criança com Zé Beleza, um dos melhores amigos do pai, que ele trata como tio. Na primeira vez que morou nos Estados Unidos, treinou com Fábio Santos, outro amigo do pai e aluno de Rolls Gracie. Quando voltou, já faixa-roxa, foi para a Gracie Barra, onde estavam os amigos. Pegou a faixa-preta lá em 2008.

Ele também lembrou que chegou a treinar com Rickson numa salinha, num ambiente muito fechado, e que a geração do pai tinha receio de ensinar demais. O Raphael diz que faz o contrário: ensina tudo, de coração, e se alguém usar mal, o problema não é dele.

O camp em que mais apanhou na vida

A melhor história é da época de faixa-marrom. O Raphael ia lutar o Mundial na Califórnia e morava em San Diego, longe demais da Gracie Barra para fazer o treino de competição. O pai dele preparava Xande e Saulo Ribeiro na época e conversou com os dois. Resultado: um aluno da Gracie Barra fez o camp inteiro dentro da Universidade do Jiu-Jitsu.

“Eu nunca apanhei tanto na minha vida, sem sacanagem.”

Raphael Romano, no Pura Connection · 0:14:03

E segundo ele não era só o Saulo. Era todo mundo, uma sala cheia de gente muito dura. Anos depois, a relação virou do avesso: o Raphael contou que Xande, Saulo, Shaolin e outros nomes das antigas fizeram o curso de certificação dele. Quando o Saulo esteve com ele, acordava cedo chamando para o aquecimento e fazia a rotina do tigre, um dos movimentos de animal do método.

Foi também nesse Mundial que ele percebeu que competir não era para ele. Treinava bem na academia, mas ficava muito nervoso para lutar. Fez duas ou três lutas e decidiu que gostava mesmo era de estar no ambiente preparando os outros. Virou treinador.

Respirar pela boca ou pelo nariz

A referência da respiração vem de longe. O Raphael contou que, pequeno, ia com o pai à academia de Orlando Cani em Copacabana, onde as pessoas ficavam em círculo só respirando e cantando mantras, e também aos retiros na casa dele. Na academia, lembra, ninguém tinha paciência para a respiração no fim da aula, e o pai era chamado de maluco por causa dos movimentos de bicho. Depois, segundo ele, virou visionário.

O que ele ensina aos atletas cabe em três regras: soltar o ar para se mexer, deixar a velocidade da respiração seguir a velocidade do movimento e gastar energia para botar o gás carbônico para fora, deixando a inspiração vir sozinha. No double leg, por exemplo, o movimento é rápido, e segurar o adversário no chão já pede outro ritmo.

Antes da respiração, ele fala de consciência corporal. Para o Raphael, o jiu-jitsu é feito de movimentos em todas as direções e ângulos, e quem não controla o próprio corpo sofre para aprender. Ele dá o exemplo do aluno mais velho que não entende como o quadril vai fugir numa fuga de quadril. Por isso defende aquecer com mobilidade e exercícios dinâmicos, e deixar de lado aquele alongamento parado com o pé em cima do banco antes do treino, que segundo ele não é o mais indicado para essa hora.

Sobre a dúvida entre nariz e boca, ele é direto. Em treino, respirar só pelo nariz no começo é um bom condicionamento. Na competição, com o gás acabando, insistir no nariz é bobagem. Para ele, o maior erro é gastar energia desesperado com o adversário em cima, seja qual for o jeito de respirar.

“É a respiração que vai te deixar calmo.”

Raphael Romano, no Pura Connection · 0:50:52

Minotouro, Tito Ortiz e o octógono no surfe

O Raphael treinou muito tempo com Minotouro na época de faixa-marrom. Contou que preparou o lutador para enfrentar Tito Ortiz, um wrestler que botava para baixo e segurava. Com o Minotouro cheio de lesões, ele montou um drill de levantada técnica que hoje ensina até para quem não luta. Lembrou ainda que o pai usava nos congressos o exemplo de Minotauro, que operou o quadril, ouviu que não lutaria mais, treinou três meses com eles e voltou.

Ele também deu uma mesma aula para Rafael dos Anjos, Chito Vera e dois surfistas campeões mundiais. E levou a luta para a preparação de surfistas: boxe, manopla e jiu-jitsu nos camps, segundo ele, para aumentar a confiança antes de encarar ondas gigantes.

O Raphael diz que tem 31, quase 32 anos de jiu-jitsu sem parar e que não lembra quando começou, de tão pequeno. O que fica da conversa é o retrato de um faixa-preta que achou seu lugar fora do pódio, preparando os outros. E que repete a lição do pai sobre sorte: é preparação encontrando oportunidade.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.