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Pura Connection · Roberto Gordo Correa

Roberto Gordo lembra o treino em que Rickson pegou todos os faixas-pretas

Conhecido pela meia-guarda, o faixa-preta conta como o jiu-jitsu era caro e raro na Barra dos anos 80, como a posição nasceu da defesa e o que aprendeu com Jean Jacques Machado.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 8 nov 2023 (1:40:50).

Numa garagem sem ventilação, num dia quente do Rio, Rickson Gracie pediu que juntassem oito ou dez caras para treinar. Foram faixas-pretas que ganhavam campeonato na época. Roberto Gordo Correa foi o primeiro da fila. Segundo ele, o Rickson deixou que pegasse as costas, foi acelerando o ritmo e acabou estrangulando o Gordo por dentro da própria meia-guarda. Depois passou pelos outros, um por um.

Assisti à conversa do Gordo no Pura Connection e essa história resume bem o tom da entrevista. Ele fala pouco de si como campeão e muito do que viu e aprendeu com quem veio antes. A meia-guarda, que virou a marca dele, entra nesse mesmo espírito: ele faz questão de dizer que não inventou nada.

A fila na garagem do Big Head

O Gordo contou que o treino foi na casa de Big Head, que tinha tatame na garagem e também tinha sido aluno do Rickson. A ideia era fazer longe de plateia. Da lista, ele lembra de Draculino, Roleta, Nino e Renzo. Existe até foto.

Já faixa-preta e vice-campeão brasileiro, segundo ele, o Gordo saiu do treino com a sensação que todo mundo teve: "pô, mas eu sou faixa-preta". No meio da sessão o Rickson pediu água, o kimono dele estava encharcado, e o Gordo emprestou o dele, um kimono liso, para o Rickson terminar a fila com o resto do pessoal.

“Na minha meia-guarda ele me estrangulou dentro da minha guarda. Eu bati e acabou: próximo, próximo, próximo.”

Roberto Gordo Correa, no Pura Connection · 0:44:57

Trinta anos depois, ele diz que ainda ouve relatos parecidos de amigos na Flórida que treinaram com o Rickson. Citou Tainan Dalpra, que foi atrás do Rickson, na visão do Gordo, porque viu ali alguma coisa diferente.

Jean Jacques Machado e o hábito de enfileirar a turma

O Gordo aprendeu na academia que ele chama de Clube Gracie, que depois virou Gracie Barra, com Carlinhos Gracie como mestre. Mas, segundo ele, quem mais deu aula para ele foi Jean Jacques Machado, da faixa azul à marrom.

Ele contou que o Jean Jacques nunca se sentava numa aula e que, às sextas-feiras, botava a turma na parede e treinava com todos. Os mais graduados, o Gordo e o Soneca, eram os últimos. Na visão dele, o Jean Jacques pegou isso do Rickson. E o Gordo lembra de ver o professor, que tem uma limitação numa das mãos, subindo corda.

“Ele sempre se superou, nunca deu desculpa e sempre soube que tinha que fazer mais do que os outros.”

Roberto Gordo Correa, no Pura Connection · 0:36:02

O Gordo levou a fila para os próprios alunos e para os seminários. Em 1995, contou, viajou com o Carlinhos para a Austrália junto com Márcio Defeituosa. No fim de cada aula, os dois tinham que treinar com todo mundo, incluindo lutadores de caratê e wrestling. Tinha quem viesse para o confere e quem viesse com chave de pé doida.

A meia-guarda nasceu da defesa

Sobre a posição que o tornou conhecido, o Gordo é direto. Segundo ele, a meia-guarda já existia: o cara agarrava a faixa, o joelho, tentava repor, tentava uma raspagem de gancho. O que ele trouxe, na faixa roxa, foi a esgrima, o underhook por baixo, e isso abriu um mundo novo. Como ninguém fazia, funcionou em competição por muito tempo até os adversários aprenderem a defender.

A origem, contou, foi a defesa: ele começou a se proteger por baixo e a criar recursos. Era a época em que o vale-tudo estava muito presente no dia a dia da academia por causa da rivalidade com a luta livre. Em 1992, na preparação para o vale-tudo de Wallid, um dos mestres pediu que ele mostrasse a guarda recebendo soco e cotovelada. O Gordo deitou, levou os golpes e mostrou como escondia a cabeça.

Mesmo assim, ele não recomenda a posição no MMA. Diz que ninguém deve puxar para a meia-guarda ali e que, se tivesse que escolher, prefere o adversário na guarda fechada. Na visão dele, trinta anos atrás dava para lutar por baixo com tranquilidade porque os adversários não sabiam jiu-jitsu. Hoje não. Lembrou que Minotauro teve sucesso com a meia-guarda, que Babalu pegou muitas costas a partir dela e que Shogun já fazia a posição quando o Gordo fez um camp com ele.

Quando jiu-jitsu custava uma faculdade

A parte da conversa sobre os anos 80 é um retrato da Barra da Tijuca. Segundo o Gordo, o bairro tinha basicamente uma escola, todo mundo surfava, e ninguém sabia direito o que era jiu-jitsu. Ele era amigo de infância de Ralph Gracie e dos primos dele, e aos 12 anos foi com eles ao Maracanãzinho ver um vale-tudo. Quando começou a confusão, ele correu para debaixo do ringue.

Ele conta que a academia era cara. Um amigo de Manaus pagava de mensalidade de jiu-jitsu o mesmo valor da faculdade Cândido Mendes. O pai do Gordo morreu quando ele tinha 12 anos, e a mãe, sozinha com três filhos, não tinha como pagar. Ele começou treinando na casa de um amigo, em cima dos tapetes da avó, com o Pitoco ensinando defesa para a praia. Foi Rigan Machado quem o viu se embolando no tatame da casa de Carlos Gracie em Teresópolis e deu uma bolsa.

O irmão dele duvidava do futuro na profissão e usou um exemplo: Rilion Gracie, professor e referência, andava de Fusca. O Gordo respondeu que só gostava de fazer jiu-jitsu.

O professor que aceita apanhar

Hoje dando aula na Flórida, o Gordo diz ter mais de 20 alunos que começaram com ele ainda meninos e vivem do jiu-jitsu. Não cobra de todos para usarem o nome dele. Contou que Babalu pediu para botar a logo dele na academia e não paga nada por isso.

Ele também fala sem drama do dia em que deixou de ser o galo do galinheiro. Lembrou quando Braga Neto chegou de Manaus, faixa-marrom de 17 anos: no começo o Gordo dava uns amassos, até o dia em que não conseguia mais segurar o quadril do garoto. Para ele, é o caminho natural. Quem está ensinando continua professor mesmo perdendo no treino.

O que fica da entrevista é isso: um faixa-preta dos anos 80 que ainda vai ao Mundial, ao Pan e ao World Master mesmo sem aluno competindo, só para ver o que está mudando. Ele não faz berimbolo, mas diz que pede para quem sabe ensinar na academia dele.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.