Pura Connection · Royler Gracie
Royler Gracie relembra a luta com Sakuraba e o alerta que ouviu de Hélio
Filho do Grande Mestre, ele fala da derrota que considera injusta, da dieta Gracie e de por que ensinaria defesa pessoal antes de campeonato.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 14 abr 2021 (1:26:50).
Royler Gracie lutou com Sakuraba carregando quase 25 quilos a menos e, até hoje, não engoliu o fim daquela luta. Segundo ele, o combinado era claro: dois rounds de 15 minutos, e o japonês, por ser muito mais pesado, só ganharia se nocauteasse ou finalizasse. Nos segundos finais, Sakuraba encaixou uma chave de braço, Royler resistiu e o juiz parou a luta.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a franqueza. O Royler admite que o Sakuraba dominou a luta inteira e que ganharia fácil se fosse por pontos. Mesmo assim, ele diz que a interrupção foi um absurdo e que saiu dali com a certeza de que a técnica dele funcionava.
“Eu queria saber como é que esse cara vai me ganhar.”
Royler Gracie, no Pura Connection · 0:29:24
A luta com Sakuraba
Quem fez o convite, segundo o Royler, foi o irmão Rickson, que perguntou se ele queria a luta. A primeira coisa que passou pela cabeça dele foi curiosidade. Na época, ele pesava 65 quilos.
Ele conta que a chave de braço veio quando faltavam uns 20 ou 30 segundos. Por ser muito flexível, diz ter certeza de que não ia bater, mas reconhece que o braço podia ter quebrado. O que o deixou chateado foi a decisão do juiz de entregar a vitória a um adversário tão mais pesado que não tinha conseguido nem nocaute nem finalização em 30 minutos. Ele diz que se sentiu traído, e deixa claro que a mágoa ficou com o japonês.
“Não gostei do resultado, mas fiquei satisfeito.”
Royler Gracie, no Pura Connection · 0:30:59
O Royler também lembra que entrou várias vezes no absoluto e apanhou de caras mais pesados, sem vergonha nenhuma de dizer isso. E que atravessou gerações na própria categoria: chegou a lutar com Shaolin quando o Shaolin tinha 17 anos.
O que Hélio Gracie ensinou em casa
Royler começou a treinar com 3 anos. Segundo ele, ninguém na família era obrigado a treinar nem a ser campeão. O pai, Hélio Gracie, queria que os filhos fossem à academia para aprender a se defender. Ele lembra de um dia em que não quis treinar e o pai respondeu que tudo bem, mas que, no dia em que precisasse de ajuda, ia ter que ligar para os irmãos. A frase ficou martelando e ele voltou para o tatame.
A primeira competição foi aos 6 anos, e ele perdeu. Os irmãos voltaram todos com medalha de ouro. Hélio, conta o Royler, disse que quem perdeu ia ganhar mais dinheiro, e ele acabou saindo daquele dia com um trocado a mais que todo mundo. Foi o que o fez voltar a treinar.
Sobre os irmãos, ele diz que havia rivalidade dentro do tatame, mas sem inimizade. E conta que conversou há pouco com o Rickson sobre um detalhe da família: apesar de Rickson e Relson serem filhos de outra mãe, nunca foram tratados como meio-irmãos.
Ponto, vantagem e a rua
A parte que mais me marcou foi uma cena perto do fim da carreira de competidor dele. O Royler treinava para campeonato, e o Hélio, de braços cruzados, comentou que ele gostava daquele tipo de treino. Em seguida, veio o alerta.
“Quando a gente se acostuma com o ponto e a vantagem, a gente esquece que o adversário pode te dar um tapa.”
Hélio Gracie, no Pura Connection · 0:44:02
Desde então, ele diz, se tivesse que escolher para uma criança entre jiu-jitsu esportivo e defesa pessoal, escolheria a defesa pessoal sem pensar. Na visão dele, quem entra numa academia de arte marcial vai buscar autoestima e aprender a se defender, e a competição vem depois, como um extra. Ele conta que as quatro filhas fizeram defesa pessoal e ainda o procuram para revisar como escapar de uma pegada no cabelo ou de uma gravata.
O Royler também dá crédito ao tio Carlos Gracie. Segundo ele, Hélio nunca disse que inventou o jiu-jitsu: os dois irmãos aperfeiçoaram a luta no Brasil. E foi o Carlos quem organizou a alimentação da família. Royler descreve o dia a dia: um liquidificador inteiro de suco de fruta com água de coco de manhã, almoço leve de arroz, peixe e salada, sem misturar arroz, feijão e batata, e nunca repetir o mesmo alimento em 24 horas. Ele atribui a isso o fato de quase nunca ficar resfriado, mesmo treinando o dia todo.
Os faixas-pretas e a vida nos Estados Unidos
O programa exibiu depoimentos de alunos formados por ele. Xande Ribeiro contou que, ainda faixa roxa ou marrom, fazia uma guarda moderna quando ouviu do Royler: você não bota a mão no pescoço? Segundo o Xande, aquela frase mudou o jogo dele por baixo. Carlos Gama lembrou que as aulas particulares começavam com defesa pessoal e terminavam no chão, com o Royler ligando o motor nos dez minutos finais. Saulo Ribeiro disse que ele é o mais parecido com o DNA do Hélio.
O Royler mora nos Estados Unidos há quase 12 anos, em San Diego. Antes, tinha tentado Los Angeles, entre 1990 e 1991, na época da Guerra do Golfo, e voltou ao Brasil. Ele conta que a mudança o fez profissionalizar a Gracie Humaitá: hoje, para ser representante, o faixa-preta precisa fazer curso de professor, saber defesa pessoal e passar por checagem de antecedentes. Ele também ensina controle de arma para a polícia e está na reserva de um departamento, como ajuda.
O que fica da conversa
Com 55 anos, o Royler diz que foi campeão mundial e não quer mais ser. Prefere treinar, pegar onda e ter tempo para a família. O plano que ele anunciou no fim da conversa resume bem isso: sair de carro dos Estados Unidos até o Brasil, parando em academias de jiu-jitsu de lugares com pouco acesso e surfando no caminho. Saí da entrevista pensando no alerta do Hélio sobre ponto e vantagem, que continua valendo para quem treina hoje.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.