Pura Connection · Ryron Gracie
Ryron Gracie explica por que o jiu-jitsu de Hélio Gracie começa pela defesa
Neto de Hélio e filho de Rorion, ele conta os treinos com o avô, a luta com André Galvão e por que faixa-branca não rola na academia dele.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 12 jun 2023 (1:27:45).
O Hélio Gracie já tinha mais de 80 anos e continuava pedindo para os alunos montarem nele e atacarem. Às vezes alguém apertava demais e quebrava uma costela do velho. Quem conta é o neto, Ryron Gracie, e a história resume bem a conversa dele no Pura Connection: para a família, o jiu-jitsu começa pela defesa, e é isso que deixa o praticante treinar até o fim da vida.
Assisti à entrevista e o que mais me chamou atenção foi como o Ryron fala de defesa como quem fala de um plano de aposentadoria. Ele diz que a maioria dos alunos começa no ataque, na força, pensando em competição, e um dia, aos 48 ou 55 anos, não aguenta mais. Quem começa se defendendo tem para onde voltar.
“Meu avô, com 80 anos, sempre falava assim: monta e me ataca.”
Ryron Gracie, no Pura Connection · 1:06:19
Um Gracie nascido nos Estados Unidos
O Ryron é filho de Rorion Gracie. Nasceu nos Estados Unidos, tinha 41 anos na gravação e conta que veio ao Brasil umas dez ou doze vezes na vida, uma delas por seis meses, aos 18 anos. Mesmo assim, faz questão de falar português, e disse que foi o primeiro podcast que gravou na língua.
Ele guarda muitas conversas e aulas com o avô no Brasil, principalmente em Itaipava. Quando o apresentador perguntou sobre a origem japonesa da arte, o Ryron foi direto: não se preocupa muito com isso. Para ele, o jiu-jitsu começou com Hélio e Carlos Gracie, e a honra que ele carrega aprendeu com o avô e com o pai.
O começo não foi fácil. O Ryron conta que, dos 12 aos 16 anos, não queria treinar, tinha vergonha, perdia no treino e ficava em casa reclamando. O que o segurou foi ver o respeito que os alunos do mundo inteiro tinham pelo pai e pelo avô. Ele pensava que um dia também seria respeitado daquele jeito.
Ele também seguiu a dieta da família à risca. Diz que nunca bebeu cerveja e não come sobremesa até hoje, e que o olho do pai brilhava quando ele, com 14 anos, recusava refrigerante. Hoje, pai de duas meninas, conta que tenta ser mais flexível com elas do que foi com ele mesmo.
O que o avô ensinou por baixo
O Ryron diz que teve o privilégio de passar anos embaixo do Hélio, se defendendo, desde moleque. O avô nunca deixava ele ficar por cima. Até hoje, conta ele, quando aperta a mão de alguém para rolar, já deita. Num round de seis minutos, passa os três primeiros por baixo, só defendendo, e só depois procura a oportunidade de subir.
Ele explica a lógica com uma conta: de 100 pontos de energia, gasta 95 se defendendo e 5 para escapar. O resto do mundo, segundo ele, faz o contrário e entra em pânico em dois segundos quando alguém pesado monta. A frase do avô que ele repete é simples: quem não perde, ganha.
“Eu uso 95 pontos de energia para me defender e cinco pontos para escapar.”
Ryron Gracie, no Pura Connection · 1:17:54
Isso não quer dizer que a técnica fique parada. O Ryron lembra que o Hélio passava três anos fazendo uma posição de um jeito e depois mudava, porque tinha estudado e achado algo mais eficiente. Ele acha que, se o avô estivesse vivo, continuaria modificando as coisas, só que devagar e com cuidado, sempre dentro dos princípios de alavanca e eficiência.
A luta com André Galvão
O apresentador lembrou da luta do Ryron com André Galvão, que na época era considerado imbatível. Foram cerca de 20 minutos, valendo só finalização, e o Galvão não conseguiu finalizar. Todo mundo apostava no contrário.
O Ryron conta que entrou pensando primeiro em não perder. A ideia de entrar para finalizar o outro, segundo ele, não é natural para ele. E diz que aquilo que o mundo viu naquela luta ele faz todo dia, em qualquer academia que visita: se defende cinco, dez minutos de um faixa-preta sem sentir pressão de passar a guarda ou sair de baixo.
“Eu não faço o que eu quero, eu faço o que eu posso.”
Ryron Gracie, no Pura Connection · 0:55:37
Faixa-branca não rola, e o online que causou polêmica
Uma das regras que mais geram crítica na academia dos Gracie: o faixa-branca passa sete ou oito meses sem rolar. O Ryron diz que uns 5% dos alunos vão embora por isso, e que não se preocupa com eles. Pensa nos outros 95%, nos mais leves, no médico de 55 anos que não quer se machucar e passa a semana esperando a aula de terça.
Ele também defende o treino a 70% entre amigos. Conta que, quando treina com o pai ou com Pedro Sauer, não está ali para montar e finalizar, e sim para aprender uma forma diferente de se movimentar. E critica o ego dos veteranos que param de treinar porque não aceitam perder para um faixa-azul.
O irmão, Rener, foi quem empurrou a família para a internet. Segundo o Ryron, a conversa foi: não dá para fazer mais 200 DVDs, vamos botar tudo online. O programa gerou polêmica, porque havia quem dissesse que a faixa chegava pelo correio. Hoje, conta ele, são mais de 220 academias pelo mundo com professores aprendendo pela plataforma, e todo mundo que falou mal do online foi para o online na pandemia.
A família também leva o jiu-jitsu para a polícia. O Ryron conta que o Rorion dava aula para policiais desde que ele era moleque e que hoje o curso tem 40 a 50 turmas por ano, com cinco dias e 30 horas, incluindo dois dias sobre como ensinar. Ainda não foi dado no Brasil.
Aulas só para mulheres
O Ryron contou ainda que uma tia dele lembrou que o Hélio não a deixava competir, só treinar um pouco. Na academia dele, a porta de entrada para as mulheres é uma turma só delas, com um curso de alguns meses, antes das aulas mistas. Mulheres também dão aula por lá, e ele diz que aprendeu a deixar a mulher falar no tatame em vez de explicar tudo.
O que fica da conversa é um Gracie da terceira geração defendendo o jiu-jitsu mais antigo da família com os argumentos de hoje: longevidade, menos lesão, mais gente treinando por mais tempo. Começar por baixo, para o Ryron, é o que permite continuar no tatame quando a força for embora.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.