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Pura Connection · Xande Ribeiro

Xande Ribeiro alerta: o jiu-jitsu de vantagem está perdendo a essência

O campeão mundial critica atletas que seguram o placar, faixas-pretas que não sabem sair da montada e juízes que dependem do vídeo.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 25 nov 2024 (1:34:10).

Para Xande Ribeiro, o maior risco do jiu-jitsu hoje está na cabeça de quem luta. No Pura Connection, o campeão mundial disse que o esporte criou uma geração que compete muito bem, mas que conta ponto, segura vantagem e, em muitos casos, chega à faixa-preta sem saber sair de baixo de alguém dando soco.

Assisti à conversa com o André, que é amigo do Xande e o trata como mentor, e o tom foi de quem ama o jiu-jitsu e se irrita com o rumo que parte dele tomou. Ele falou de regra, de juiz, de longevidade e, principalmente, do irmão Saulo Ribeiro, que moldou o estilo dos dois.

Faixa-preta que não sai da montada

O Xande contou que, num seminário recente em Lençóis Paulista, fez um teste simples com a turma mais avançada: colocou todo mundo numa saída de montada e avisou que agora valia soco.

“São pouquíssimos ali que vão ter a mínima noção de como sai daquela posição.”

Xande Ribeiro, no Pura Connection · 0:48:18

Para explicar o que espera de cada faixa, ele citou uma ideia que atribui ao Rickson Gracie: a faixa azul precisa saber escapar, a roxa inverte a posição, a marrom fica por cima e passa, e a preta pega. Segundo o Xande, hoje tem faixa-preta que não sabe pegar ninguém.

Ele usa a imagem de uma árvore. Cada aluno vai virar uma planta diferente, uma bananeira, uma mangueira, um limoeiro, mas todas têm raiz. E a raiz do jiu-jitsu, para ele, é saber sobreviver, finalizar e ter posições justas. É por isso que ele não gosta de verdade absoluta na técnica. Fechar o cotovelo na montada é regra de ouro no treino, mas, se o cara em cima está dando soco, ele vai abraçar o corpo do adversário e se proteger primeiro.

A cultura da vantagem

O ponto que mais irrita o Xande é o que ele ouve do córner nos campeonatos: você está ganhando na vantagem, agora quem tem que atacar é ele.

“Não é porque eu tô ganhando que eu não tenho responsabilidade de atacar.”

Xande Ribeiro, no Pura Connection · 1:00:49

Segundo ele, tem juiz que compra essa ideia, e o resultado é um esporte chato. Ele descreveu o atleta que coloca a mão na cabeça do outro fingindo que vai passar, dá uma tentativa e corre. Para o Xande, pressão é resolver o problema dentro do adversário. O André lembrou que a pontuação faz sentido quando se entende de onde ela vem: passar a guarda vale três pontos porque tira a última defesa de perna, e montada e costas valem quatro porque são mais dominantes.

Ele também criticou a arbitragem. Contou que uma aluna dele levou um bate-estaca claro e a juíza não soube marcar, e reclamou de lutas decididas no vídeo. Sobre o calendário do Mundial, defendeu que as finais da faixa-preta aconteçam mais cedo. Lembrou do último Mundial que ganhou, em 2015: foi fazer o antidoping, não conseguiu urinar, esperou uma hora bebendo água e, quando saiu, o campeonato já estava vazio.

Quando o André comentou que o jiu-jitsu de kimono parece ter ficado chato perto do sem kimono, o Xande deu a visão dele. Para ele, o jiu-jitsu é um esporte de quem pratica, e a primeira missão é ter mais gente treinando. O sem kimono ganha no olho de quem está de fora porque é mais fácil de explicar: o cara está tentando pegar o braço, as pernas estão no pescoço.

Saulo, o irmão que era criptonita

A parte mais bonita da conversa é sobre o Saulo. O Xande contou que o irmão tinha o tipo físico mais difícil para ele: mais baixo, mais compacto, de centro de gravidade baixo. Treinar com alguém assim, segundo ele, o obrigou a ser preciso. Abrir um pouquinho o cotovelo na hora errada bastava para o Saulo ver.

Ele contou duas lições que o Saulo deu com poucas palavras. Uma vez disse que o jiu-jitsu do Xande estava frouxo, e o Xande levou tempo para entender que era sobre dar brecha demais. Na outra, depois de ganhar uma luta por 26 a 2 no Mundial da faixa marrom, foi todo animado perguntar se o irmão tinha gostado. A resposta foi que aquilo só provava que ele perdia todas as posições e não finalizava. A partir dali, conta o Xande, o jogo dele passou a ser botar para baixo, passar, montar e pegar.

“Eu não quero passar da guarda, eu quero me apropriar da tua alma.”

Xande Ribeiro, no Pura Connection · 0:52:27

A frase acima é do Saulo, repetida pelo Xande. Outra que ele carrega e passa para os alunos é a da raiz:

“Se a planta secar, rega a raiz.”

Xande Ribeiro, no Pura Connection · 1:29:58

Segundo o Xande, o Saulo treinou muito com o Royler Gracie e teve experiência com o Rickson, numa Gracie Humaitá que ainda era uma escola básica: se a mão entrar, você bate; se eu passar, eu pego. O André, que viveu isso de perto, contou que o último treino de um evento que fizeram juntos foi com o Saulo. Puxou para a guarda, meteu uma mão na gola, depois a segunda, e o André apagou.

Longevidade: saber a hora de parar

Outra herança do Saulo, segundo o Xande, é entender que o descanso pesa tanto quanto o treino. O Saulo olhava para a cara dele de manhã, perguntava se tinha dormido bem, se tinha comido, e mudava o treino na hora. O Xande diz que se machucou muito em campeonato, mas nunca operou o joelho. A única cirurgia dele foi no punho.

Ele citou o Rafael Lovato como exemplo de disciplina. Segundo o Xande, o Lovato só fez uma cirurgia na vida, no ombro, depois de segurar uma kimura aplicada pelo próprio Xande num treino. Aos 41 anos, lembrou o André, o Lovato faz frente a uma geração muito mais atlética.

E é essa geração que preocupa. O Xande contou que vê meninos de 10 anos com corpo de atleta profissional e jovens de 25 com três ou quatro cirurgias. Citou a rotina do Tainan Dalpra, que dá aula cedo, treina e ainda dá aula particular, e disse que o Mica vive com o calcanhar amarrado. Para ele, ainda é cedo para saber até onde esse ritmo é sustentável.

“Aposentei do Mundial, do ADCC, mas o jiu-jitsu não aposenta.”

Xande Ribeiro, no Pura Connection · 1:04:29

Aposentado das grandes competições, ele disse que continua como técnico e que prometeu fazer uma luta. Competir, para ele, é uma forma de se disciplinar: acordar cedo, dormir cedo, comer melhor e tomar decisões melhores.

Yoga, capoeira e o jiu-jitsu como expressão

O Xande se define como curioso desde criança, daqueles que desmontavam rádio. Ele contou que conheceu a mobilidade em 2001 com o Álvaro, criador da ginástica natural, com quem se preparou para o Mundial de 2008. Também descobriu, ao pesquisar a respiração que via nos vídeos do Rickson, que ela vinha do yoga. Depois conheceu o Budokon, de Cameron Shayne, cujo primeiro professor, segundo o Xande, foi o Rickson.

Sobre a capoeira, o André trouxe a queixa do Mestre Camisa de que a arte sofre preconceito no Brasil. O Xande, que diz nunca ter treinado capoeira, vê a questão por outro ângulo. Para ele, falta alguém com credibilidade na capoeira que traga algo aplicável ao jiu-jitsu, porque ele mesmo não se sente autorizado a ensinar movimentos de uma arte que não domina.

Saí da conversa com a sensação de ter ouvido um campeão preocupado com a base. O Xande quer um jiu-jitsu mais dinâmico, mais bem arbitrado e mais bem vendido, mas insiste que nada disso adianta se a raiz secar. Para quem dá aula, como eu, a mensagem é clara: antes do placar, o aluno precisa saber sair de baixo e finalizar.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.