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Pura Connection · André Pederneiras

Dedé Pederneiras conta como convenceu José Aldo a virar peso-pena

O treinador da Nova União lembrou a conversa que mudou a carreira do Aldo, a quebradeira depois da política e por que exige kimono de todo lutador de MMA.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 19 ago 2021 (1:22:34).

Quando José Aldo ainda queria lutar no peso-leve, o treinador dele parou o rapaz na porta da academia e deu a ordem: ia descer para o peso-pena. Dedé Pederneiras contou essa história no Pura Connection e disse que, na mesma conversa, prometeu ao Aldo que ele seria campeão e que os dois iam ficar ricos.

“Tu vai chegar no pena e tu vai ser campeão. A gente vai ficar rico. Tu escuta o que eu tô te falando.”

André Pederneiras, no Pura Connection · 1:01:23

Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi como o Dedé explica tudo pela confiança. A dele, que segundo ele veio da luta, e a que ele passa para os atletas. Ele falou do começo pobre, da vez em que quebrou financeiramente, da criação da Nova União, do Léo Santos, do Shaolin e do jiu-jitsu, que para ele continua sendo a base de qualquer lutador de MMA.

A conversa que levou José Aldo ao peso-pena

Segundo o Dedé, o Aldo começou lutando no peso-leve porque quase não havia lutas no peso-pena naquela época. O treinador aceitou por um tempo, mas depois de uma luta no Japão bateu o martelo. A explicação dele é de estatura: no leve, o Aldo não tinha altura para enfrentar os maiores da categoria no futuro.

Com a decisão tomada, o Dedé procurou um ex-aluno ligado a um evento, mostrou o currículo e os vídeos do Aldo e pediu para ele entrar no peso-pena. A conversa com o lutador aconteceu na porta da academia, com a esposa dele, Viviane, do lado. O Aldo não reclamou na hora. Anos depois, segundo o Dedé, confessou que saiu dali achando que o treinador tinha enlouquecido e queria matá-lo com o corte de peso.

O Dedé contou que o Aldo sempre teve um jeito próprio de perder peso. No fim de semana antes da pesagem, ia para a churrascaria no rodízio, dizia que era costume dele, e só depois fazia a dieta da semana. Quando surgiu a chance de disputar título descendo mais uma categoria, o treinador mandou procurar o médico e trocar a dieta de uma semana por uma de duas ou três. Segundo o Dedé, o Aldo bateu o novo peso quatro vezes, com mais facilidade do que batia o pena.

Ele também elogiou a cabeça do atleta. Disse que o Aldo treina muay thai de manhã, jiu-jitsu e preparação física à noite, e que passou quase um ano fazendo boxe todos os dias, apanhando no começo, até melhorar a trocação. Na conta do Dedé, o Aldo, aos 34 anos e com 17 de MMA, fez na última luta o maior número de golpes conectados da carreira.

“Todo treinador no mundo inteiro recebe um diamante bruto. Cabe ao treinador saber lapidar ou não.”

André Pederneiras, no Pura Connection · 0:59:47

O menino sem dinheiro que chegou à faixa-preta do Carlson

O Dedé contou que só entrou no jiu-jitsu por acaso. Em 1984, sem dinheiro, se matriculou numa academia de musculação que, na promoção de abertura, dava direito a uma luta. A última opção da lista era jiu-jitsu. Na porta da sala estava o professor Rodrigo Vieira, que emprestou um kimono por uma semana. Em dois meses, segundo o Dedé, ele não queria mais saber de musculação.

Da branca até a marrom, o professor foi o Rodrigo, faixa-preta de Rolls Gracie que depois da morte do Rolls foi treinar com Rickson. O Dedé competiu pela Academia Gracie até a roxa e terminou a formação com Carlson Gracie, de quem recebeu a faixa-preta. Ele diz que teve a sorte de passar pelas duas escolas mais fortes da época em competição. Ainda contou que é faixa-preta de judô e treinou muay thai e vale-tudo com Marco Ruas.

Sobre a academia do Carlson, a lembrança é de pressão. Segundo ele, subir a escada era como ir para um campeonato, porque ninguém aliviava ninguém. O resultado, para o Dedé, é que o atleta chegava à competição pronto para qualquer coisa, porque competia todo dia no treino.

A quebradeira e as bolsas que viraram negócio

Uma parte da conversa que eu não conhecia foi a política. O Dedé contou que tinha acabado de lutar no Japão, tinha dinheiro guardado e um apartamento, e investiu tudo numa candidatura a vereador. Perdeu, quebrou, entregou o apartamento, guardou os móveis na casa de uma tia e morou de favor na casa da sogra e da mãe por quase dois anos. Saiu disso viajando para dar seminários, pagou as dívidas e depois comprou parte de uma academia que hoje administra.

“Tudo que eu tenho na vida eu devo ao jiu-jitsu e à luta de uma forma geral.”

André Pederneiras, no Pura Connection · 0:02:50

Ele contou também que ganhou uma bolsa depois do primeiro ano de treino e que, por isso, sempre se sentiu obrigado a devolver. Deu muitas bolsas e lembrou que Fábio Gurgel, num curso de gestão de academias, alertava para o risco de ter bolsista demais. A saída do Dedé, segundo ele, foi transformar os bolsistas em campeões: os campeões atraíam alunos pagantes e estrangeiros. Ele disse ainda que investiu em bebida, restaurante e lanchonete para bancar a academia, porque viu gente do jiu-jitsu que não soube guardar o dinheiro do bom momento.

Hoje, segundo ele, mantém um centro de treinamento com dinheiro próprio, onde ninguém paga nada, e um projeto social que chegou a atender 450 crianças da comunidade, de 6 a 17 anos, com seguro contra acidentes.

Nova União, Léo Santos e o treino com a faixa amarrada

A Nova União, segundo o Dedé, nasceu de uma troca de atletas com Alexandre. Um tinha as crianças fortes, o outro perdia os juvenis. Emprestaram atletas um para o outro, ganharam competição e resolveram se unir. O nome veio porque, naquela época, estavam acontecendo várias uniões de equipes. Em dois anos, ele diz, a equipe já brigava pelo pódio com academias de 20 e 30 anos.

O exemplo que ele usou para falar de confiança foi a estreia do Léo Santos no MMA. O Léo nunca tinha trocado soco e recebeu uma proposta para enfrentar Takanori Gomi no Japão com 15 dias de treino. Todo mundo chamou o Dedé de louco. Segundo ele, o Léo perdeu por decisão dividida, quebrou o nariz do japonês e, minutos antes da luta, estava no hotel jogando videogame como uma criança.

No começo do MMA na academia, o Dedé contou que amarrava a faixa de um atleta na cintura do outro para eles não fugirem da trocação. Usava luvas maiores para cortar menos, mas diz que já viu nariz e osso do rosto quebrados no treino. A regra é simples, segundo ele: quem vai apanhar na luta precisa aprender a apanhar e continuar na academia.

Jiu-jitsu obrigatório e o risco de perder para os americanos

Para o Dedé, não existe lutador de MMA sem jiu-jitsu. Na academia dele, o treino de kimono da manhã é obrigatório, e ele disse que o Aldo segue treinando jiu-jitsu de alto nível. Ao mesmo tempo, ele acredita que o Brasil vai perder o domínio do esporte. Os motivos que deu: os melhores professores foram morar nos Estados Unidos, os grandes campeonatos acontecem lá, os atletas de fora têm patrocínio, estrutura olímpica e suplementação. Ele comparou com o futebol, que nasceu na Inglaterra e nem por isso ficou com os ingleses.

Ele falou ainda de comportamento. Disse que prefere atletas a lutadores que xingam e provocam, e usou Conor McGregor como exemplo de quem sabe tirar o adversário do sério. Segundo o Dedé, foi o que aconteceu com o Aldo, que entrou com raiva e fez o contrário do que tinha sido treinado.

“Você tem que lutar com o cara o mais frio possível para poder ver as coisas acontecerem.”

André Pederneiras, no Pura Connection · 1:16:27

O que fica da entrevista é o retrato de um treinador que diz já ter preparado mais de 1.500 atletas e que guarda anotações de cada corte de peso para repetir o que deu certo. No fim, ele contou que agora quer passar mais tempo com as crianças do instituto e com os próprios filhos, que depois de anos longe do tatame estão começando a competir.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.